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Desaparecimentos no Egito geram preocupações sobre forças militar

Responsáveis por transição democrática, militares assumem papel assustador por trás de sumiços, prisões e torturas

The New York Times |

Ramadan Aboul Hassan saiu de sua casa certa noite, cerca de três semanas atrás, para participar de um grupo de vigilância de bairro com dois amigos e não retornou. A vez seguinte que os parentes viram os três homens foi quando eles apareceram em uma prisão de segurança máxima coordenada pelas forças militares do país, a 650 quilômetros de casa, na quarta-feira. Alguns membros da família disseram que eles apresentavam sinais de tortura, embora outros neguem isso.

Embora muitos tenham aclamado os militares por assumir o controle do país após a queda do presidente Hosni Mubarak no Egito e se comprometer a supervisionar uma transição para a democracia, grupos de direitos humanos dizem que nas últimas três semanas, os militares também têm desempenhado um papel mais assustador, revelado em dezenas de desaparecimentos e pelo menos 12 casos de tortura – marcas da polícia de segurança do governo de Mubarak que a maioria esperava ter terminado com sua saída.

The New York Times
Fotografias de Ramadan Aboul Hassan (E) e Ahmed Aboul Hassan, que foram detidos com o amigo Mostafa Mahrous Mostafa, no Cairo
Alguns, como Aboul Hassan e seus dois amigos, não foram libertados até vários dias depois que a revolução tirou Mubarak do poder. Agora, grupos de direitos humanos dizem que o papel contínuo dos militares em tais abusos gera novas questões sobre a sua capacidade de desenvolver uma democracia egípcia.

"Os militares estão prendendo pessoas em situação de incomunicabilidade, que é, efetivamente, desapaecer com as pessoas", disse Heba Morayef da Human Rights Watch, que tem quatro casos documentados envolvendo tortura. A Anistia Internacional documentou três casos desse tipo e a Frente de Defesa dos Manifestantes Egípcios, cinco.

O Human Rights Watch também documentou um caso em que os militares transferiram um prisioneiro para a temida Força de Segurança do Estado, onde ele foi torturado. Morayef disse que os casos de prisão e tortura não parecem ser "sistemáticos", mas acrescentou: "É o suficiente para acionar o alarme, e apelar para uma investigação sobre abusos cometidos por policiais militares".

A maioria das vítimas foi detida pelos militares, diz ela, embora dois tenham sido detidos por grupos de vigilância de bairro e, em seguida, entregues aos soldados. Os interrogatórios que acompanharam os abusos giravam em torno da participação das vítima nos protestos que derrubaram o governo de Mubarak.

Corpos

Centenas de corpos não identificados têm aparecido em vários hospitais de todo o país, diz que a Frente de Defesa dos Manifestantes Egípcios, aprofundando a incerteza. Na quarta-feira, o Ministério da Saúde do Egito informou que 365 haviam morrido durante a revolta e que 5,5 mil foram feridos.

Autoridades militares disseram em uma reunião de jovens ativistas na segunda-feira que irão procurar por aqueles que tenham desaparecido durante a revolta e confirmou que pelo menos 77 pessoas foram detidas nos confrontos na praça Tahrir, de acordo com notas da reunião publicadas no Facebook.

A imprensa local informou que o chefe do Exército, Sami Enan, havia concordado em libertar todos os detidos durante a revolução, mas grupos de direitos humanos reclamam que ele não ofereceu um prazo para isso. Eles viram pouca ação para fazer cumprir a promessa.

Ramadan Aboul Hassan, 33 anos, desapareceu muito tempo depois que o confronto com a polícia na praça Tahrir havia terminado. Em 29 de janeiro, depois que a polícia deixou a cidade e os militares intervieram, Ramadan saiu de casa com seu sobrinho, Ahmed Aboul Hassan, 22 anos, e seu amigo Mostafa Mahrous Mostafa para se juntar a vizinhos que combatiam saqueadores. Em seguida, eles desapareceram.

Durante 18 dias, Mohamed Aboul Hassan, 51 anos, irmão mais velho de Ramadan, ficou ao telefone. Cada chamada o apresentava a um novo tenente ou burocrata do governo oferecendo uma história diferente sobre o paradeiro do homem e quais os melhores procedimentos a se tomar.

A família procurou em hospitais e delegacias de polícia e implorou a militares que conseguiram contatar ao telefone. Eles perguntaram à autoridade carcerária nacional se os nomes dos homens estavam no banco de dados dos presos do país e foram informados que não.

Cinco dias depois do desaparecimento, seus familiares descobriram que os homens haviam sido detidos pelos militares, sob uma ponte na Rua da Revolução e levados até a sede local da inteligência militar. Mohamed Hassan Aboul foi chamado até o escritório da inteligência, onde recebeu suas carteiras de identidade nacional e assinou um documentos para levá-las para casa. Ele não foi informado sobre o motivo da prisão ou quando eles seriam libertados. "Eu não entendo porque o governo está fazendo isso", disse Hassan Mohamed Aboul na terça-feira. "Se eles me dessem qualquer informação, isso significaria muito para mim".

Experiência

Os militares têm pouca experiência no policiamento direto da população civil, com isso o órgão é mal equipado para tarefas como notificar as famílias de prisões ou detenções, disse Ahmed Ragheb, diretor-executivo do Centro Legal Hisham Mubarak, uma organização de direitos humanos. "O Exército não está preparado para operar um sistema de encarceramento ou suas instalações”, disse.

No início da tarde de terça-feira, um contato entre os militares disse à família Aboul Hassan que os três homens haviam sido libertados da prisão de segurança máxima Wadi Gedid, em uma distante província do sul do país, e colocados em um comboio militar com destino ao Cairo. Pouco tempo depois, um primo com amigos que trabalham na estação de trem afirmou que não existia tal trem, e um funcionário em Wadi Gedid disse que a prisão não possuía registro deles.

Mais tarde, um outro funcionário da prisão disse a Mohamed Hassan Aboul que os homens estavam sob a custódia da Polícia Civil no Alto Egito, enquanto um oficial militar disse ao outro irmão Rabie, 36 anos, que os homens estavam aguardando julgamento militar por acusação desconhecida.

Na quarta-feira, Rabie Aboul Hassan pegou um táxi e fez uma viagem de 643,6 km até a prisão de Wadi Gedid para perguntar sobre os homens pessoalmente. Ele os encontrou com várias centenas de outros e disse que eles portavam cicatrizes físicas e psicológicas de tortura.

Agressões

Os homens haviam sido detidos na base militar Hikestep, no deserto nos arredores do Cairo, antes de serem enviados para Wadi Gedid. Eles foram espancados, chicoteados, submetidos a choques elétricos e suspensos na porta de suas celas, disse Rabie Aboul Hassan. Eles foram alimentados com pão encharcado em gasolina sob a mira de armas, afirmou. "Eles os trataram como um rebanho de ovelhas", disse.

Após sua libertação, Aboul Mohamed Hassan disse: "Eles estão traumatizados psicologicamente e fisicamente doente", embora negue que tenham sido torturados. Por causa das preocupações com o seu bem-estar, a família Aboul Hassan não permitiu o acesso dos repórteres aos três homens, após o regresso ao Cairo e nenhum deles foi entrevistado.

Os Hassan Aboul são uma família pobre que vive em um bairro de classe alta. Ramadan, Ahmed e Mostafa são os filhos dos homens que cuidam dos jardins e guardam as portas de apartamentos de luxo no bairro de Heliopolis, no Cairo. Suas casas são um labirinto sombrio e sem janelas, formado por quartos de concreto no porão dos prédios, parcamente mobiliados e cheios de crianças.

Durante semanas, os documentos de identidade dos homens foram as únicas pistas sobre os seus destinos. "Nos juntamos aos protestos para libertar o país e acabar com o problema do regime", disse.

Aboul Rabie Hassan, que havia acompanhado seu irmão até a praça Tahrir, no dia anterior à sua prisão. A provação de sua família nas mãos dos militares, instituição que disse respeitar, tem abalado sua fé na revolução. "Depois de 18 dias, o regime se foi, mas permanecem as mesmas injustiças".

*Por Liam Stack

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