Desabrigados do Haiti veem sua história na TV

Novelas com temática do terremoto de janeiro garantem entretenimento e informação para haitianos que vivem em acampamentos

The New York Times |

A tela de cinema surgiu como uma aparição, no meio de um acampamento improvisado, em uma colina úmida pela chuva. “Under the Sky” (Sob o Céu, em tradução livre) é o título da novela sobre uma família local que foi apresentada à multidão.

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Novela é transmitida à noite no acampamento de Carradeux no Haiti
Amor e escândalos foram vistos na trama, mas o episódio se concentrava principalmente em um tema: homens trapaceiros que vivem nos acampamentos. Depois que um vilão astuto tentou vender cartões de registro ao protagonista, dizendo que poderiam ser trocados por dinheiro, autoridades da Organização Mundial de Migração apareceram para salvar o dia. “Aquele cara era um ladrão", disse o patriarca da família, interpretado por Lionel Benjamin, um dos atores mais famosos do país. “Sabia que ele seria um problema."

Primeiro, os haitianos receberam alimento e abrigo; agora produções artística fazem parte da resposta humanitária. Por toda parte na capital Porto Príncipe outdoors tentam entreter e informar milhares de desabrigados que vivem em acampamentos sem TVs ou rádios. A novela, financiada pelas Nações Unidas e seus parceiros, por exemplo, é parte de uma série de 16 episódios transmitida três noites por semana em 16 acampamentos, juntamente com videoclipes e filmes haitianos.

Diversos outros grupos – incluindo o FilmAid, fundado por Caroline Baron, produtora de “Capote” – também têm criado programas para exibir filmes e treinar os haitianos a produzir seus próprios vídeos. E ainda que o resultado possa ser divertido, o objetivo é sério: os organizadores dizem que os programas substituirão a comunicação ineficiente do governo, que permite que rumores e golpes se espalhem entre os que mais precisam de ajuda. “Precisamos lhes fornecer informação de qualidade", disse David Wimhurst, porta-voz da ONU. "Temos muito a dizer a eles."

Episódios subsequentes da novela abordarão como cuidar da segurança da barraca que muitos agora chamam de casa. Também haverá lições sobre mosquitos e vacinas, higiene e segurança pessoal.

Cada episódio custa cerca de US$ 6 mil para ser produzido, e Wimhurst disse que o objetivo é criar algo útil e divertido. Caroline Baron, que tem veiculado filmes em campos de refugiados na África há 11 anos, disse que o melhor programa humanitário inclui diversão e uma função real, com uma face local.

“É muito importante que os programas que fazemos para a comunidade a envolvam para que possam ser compreendidos imediatamente", disse em uma entrevista após se encontrar com autoridades haitianas. "Não importa qual seja o assunto, as pessoas se divertem porque veem a si mesmas na tela."

Mas os desafios enfrentados por esses projetos são imensos. Durante um dia recente de gravação da “Under the Sky”, a experiência de filmagem foi tão reveladora quanto o próprio episódio. Uma frustração atrás da outra.

Primeiro, o diretor da série, Jacques Roc, de 54 anos, que deixou o Haiti quando tinha 14 anos e fez carreira dirigindo e escrevendo músicas para propagandas comerciais em Nova York, foi chamado a outro acampamento porque um de seus projetistas havia sido agredido.

O entretenimento gratuito aparentemente prejudica alguns locais, que cobram US$ 3 “por uma pequena tela de TV em uma barraca", explicou. “Quando estamos lá, eles não faturam nada."

Antes de voltar, o calor tomou conta. Às 11h30, já fazia 32º C e estava úmido no set de filmagem. Benjamin se sentou suando e esperando sua hora de atuar, que chegou uma hora depois. A cena era simples, mostrando como as famílias podem usar pedras para estabilizar as barracas, mas a gravação chamou atenção demais.

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Novela é filmada no acampamento de Carradeux no Haiti
A certa altura, um menino começou a tocar um tamborim. Depois, membros da produção tiveram de jogar pedregulhos nos curiosos para que continuassem andando e não parassem para pedir emprego.

Depois que anoiteceu, Roc tentou filmar algumas cenas dentro da barraca verde de Exército que usa como set de gravação. Havia um colchão no chão, uma mesa de jantar e estatuetas de porcelana – um sinal de que a família era de classe média. Mas então começou a chover. Uma tempestade tropical tomou conta da região.

Roc, que dorme no acampamento algumas noites por semana, já havia visto aquilo antes. Na primeira vez que choveu durante uma gravação, dezenas de funcionários da produção correram para tirar os equipamentos do chão para evitar o contato com a água.

No geral, o impacto da novela e de outros esforços parecidos é difícil de medir. O Haiti tem 1.322 acampamentos, com mais de 10 mil barracas e 564 mil tendas abrigando mais de 1 milhão de pessoas, de acordo com as autoridades. Algumas dezenas de telas, ou mesmo 300, atingem apenas uma pequena parcela da população desabrigada.

Ao mesmo tempo, alguns grupos de ajuda expressam preocupação de que os acampamentos temporários se tornem favelas permanentes. Mark Turner, porta-voz da Organização Internacional de Migração, disse que a população dos acampamentos continua a crescer quase cinco meses depois do terremoto, parcialmente porque as pessoas os usam como centro de assistência gratuita, mesmo quando suas casas estejam intactas.

As telas de cinema, pelo menos por enquanto, são mais um atrativo. Por outro lado, quando a tela aparece em uma paisagem quase completamente sem luz, com a brisa noturna, é quase impossível para os haitianos não vê-la como mágica.

Poucos dias depois da filmagem sob chuva de Roc aqui em Caradeux, a tela foi armada para exibir o seu trabalho e videoclipes gospel. Adolescentes se reuniram para assistir e paquerar, enquanto na colina Ameniz Auxide, de 54 anos, dançou e cantou junto com as músicas que conhecia. “Se você ouvir e assistir", ela disse, com o rosto iluminado pela tela, "você sente a presença de Deus conosco".

* Por Damien Cave

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