Depois de um ano na estrada, mudanças no tom de Obama são perceptíveis

ROANOKE, Virgínia - Onde está Miles Davis? Quem sequestrou Elvis?

The New York Times |

Acordo Ortográfico

No palco desta arena no Estado da Virgínia está um homem cuidadoso, que lê suas falas de um teleprompter e mantém um tom não exatamente monótono, tampouco exaltado, e ele repete mais ou menos as mesmas frases que leu na noite anterior e que irá ler no dia seguinte.

O artista antes conhecido como Barack Obama, alto, magro e de feições suaves, usava sua poderosa voz para falar sobre 14 tipos de esperança e elevar a multidão a tal ponto que ela só poderia voltar ao mundo com vontade de mudá-lo. Os teleprompters eram instrumentos de pessoas comuns.

Agora este candidato, com cabelos perceptivelmente mais brancos, fala sobre "as mudanças e reformas que precisamos". Ele menciona "uma nova era de responsabilidade e prestação de contas em Wall Street e Washington". Ele busca "regulamentações razoáveis para evitar que outra crise como esta aconteça".

"Crescimento de baixo para cima", ele promete. O que aconteceu com a "feroz urgência do agora"?


Obama e a mulher, Michelle, durante comício em Miami / AP

Seria tentador, ao comparar o Obama de um ano atrás com o candidato à presidência de hoje, concluir que Miles Davis se transformou em Barry Manilow. Mas esse não é o caso, Obama ainda atrai multidões (100 mil em St. Louis no sábado passado) que poderiam aquecer o coração de qualquer roqueiro. Além disso, suas palavras ainda conseguem exaltar, como quando ele e a senadora Hillary Rodham Clinton formaram um dueto de campanha na segunda-feira, na Flórida. Mas este Obama é conscientemente, cuidadosamente e intencionalmente mais centrado, e um pouco mais chato por causa dessa metamorfose.

Crise

O lento emudecimento da medida retórica de Obama, perceptível principalmente conforme os mercados mundiais oscilam e o desemprego aumenta, denota um candidato que comandou uma campanha rigorosamente disciplinada. Seu objetivo há um ano era subir enquanto seus adversários não percebessem, agora ele precisa convencer os eleitores que pode andar um passo à frente deles e, assim, ajudá-los a ultrapassar terrenos perigosos.

A esperança é o pagamento da hipoteca.

"Ele quer mostrar sua posição de forma direta e precisa", disse David Axelrod, líder estrategista de Obama. "Nós oferecemos um líder sólido com uma visão sóbria".

No auge de sua eficiência, este democrata de 47 anos força todos (rivais, consultores e eleitores) a se adaptarem a seu ritmo e tom.
Assim, McCain entrou em todos os debates franzindo as sobrancelhas, com expressão de escárnio e despejando ataques; Obama, brincando com um sorriso, oscilava de um lado a outro, remodelando as respostas, lutando de acordo com seus próprios termos.

O Obama da campanha presidencial é ao mesmo tempo mais prosaico e talvez mais eficiente. No começo deste ano, quando suas aparições começaram a adotar o tom de acontecimento, passamos a contar com uma constante: alguém definitivamente iria gritar "Obama, eu te amo!".

Obama, quase sem olhar na direção da voz, responderia rapidamente: "Eu também amo vocês". Então, a campanha de McCain passou a veicular comerciais que retratavam Obama como uma celebridade comparável à Paris Hilton.

Gritos de "Eu te amo" não receberam respostas no final de semana passado.

Obama tem duas posturas em relação aos artifícios da política. Na primavera ele geralmente resistiu ao impulso de fingir que é um homem comum e se apegou a seus gerúndios. Magro como é, o candidato se recusou a abocanhar qualquer linguiça gordurosa e outros quitutes doces encontrados no caminho de sua campanha.

Mas ouvi-lo falar em Roanoke no final de semana significou perceber sua luta em aprimorar um sotaque regional. "Nós fomos a um jantar", ele disse à multidão, soando um pouco como um homem que percorreu as Montanhas Apalaches.

Pouco depois: "Eu não acho isso certo", disse o advogado formado em Harvard. "Na verdade, não é certo".

Não mesmo.

Obama raramente toca com força na questão da raça. A história oferece isso a sua campanha, não é preciso ser explicito sobre algo que é tão evidente. Multidões de negros, de Fayetteville, Carolina do Norte, ao Norte da Filadélfia, reconhecem precisamente a narrativa histórica que se desenvolve diante de seus olhos.

"Um de vocês"

Quando Obama passa por regiões brancas do Missouri, Virgínia, Ohio e Carolina do Norte, ele geralmente o faz acompanhado de um colega branco (geralmente algum político que seja popular entre a classe operária da região), como os governadores Ted Strickland de Ohio e Edward G. Rendell da Pensilvânia, e os senadores Claire McCaskill do Missouri e Jim Webb da Virgínia.

Ele é como vocês, eles dizem à multidão. Ele cresceu na classe média.
Ele é pai e marido. Suas palavras podem ser francas, mas de tempo em tempo elas vão além do que os olhos podem ver. Assim, Webb, um ruivo descendente de escoceses e irlandeses, apresentou Obama em Roanoke e começou: Ele é um de vocês.

Webb ofereceu uma complicada fórmula que envolveu colocar o pai queniano de Obama de lado, traçando a linhagem da mãe branca do candidato, que nasceu no Kansas de pais que vinham de Kentucky e cujos ancestrais andaram pela Escócia e Irlanda e, possivelmente, passaram pela Virgínia.

Webb concluiu com um amplo sorriso. Ele divinizou a origem branca de um homem de raça mista de Chicago.

"Eles dirão que ele não é como vocês". Ele balançou a cabeça, consternado. "Barack Obama é exatamente como vocês".

A multidão, confusa por um segundo, aplaudiu sua tentativa.

Na terça-feira, em Lakewood, Flórida, Obama realizou um "encontro de empregabilidade" com o chefe executivos da Google, Eric E. Schmidt, e Paul A. Volcker, ex-presidente da Federal Reserve. A multidão tensa, pulsava, aí vem ele, o homem que faz tantos corações dispararem.

"Sim, nós podemos! Sim, nós podemos!"

Não, ele não pode, não hoje. O candidato sacodiu a cabeça e pediu, educadamente, por silêncio. "Nada de torcida. Nós estamos aqui para tratar de um assunto muito sério".

Por MICHAEL POWELL

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