Depois de prisão de Strauss-Kahn, francesas falam sobre agressões

Escândalo com ex-diretor do FMI e possível candidato à presidência francesa deu a feministas oportunidade para pressionar contra opressão entre sexos

The New York Times |

Claire Nini, hoje com 25 anos, foi abusada sexualmente quando era adolescente e levou sete anos para registrar uma queixa "porque temia a notoriedade do meu agressor, um médico conhecido em Nice”.

Mas o furor em torno da prisão de Dominique Strauss-Kahn, antes considerado o provável próximo presidente da França e agora acusado de tentativa de estupro em Nova York, deu às francesas e ao modesto movimento feminista do país uma oportunidade de falar contra a opressão sexual e pressionar por uma relação menos chauvinista entre os sexos.

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Dominique Strauss-Kahn (C) chega à Corte Criminal de Manhattan acompanhado da mulher, Anne Sinclair
"Eu espero que isso ajude as vítimas a falar", disse Nini. "Se DSK (sigla pela qual Strauss-Kahn é conhecido) for realmente culpado, eu acho que sua prisão vai ajudar as mulheres", disse ela. Mas se ele não for culpado, disse, "há um risco de que as mulheres não serão mais levadas a sério".

Strauss-Kahn, ex-chefe do Fundo Monetário Internacional, foi acusado na segunda-feira em Nova York e se declarou inocente de todas as acusações, em um evento de quatro minutos transmitido ao vivo pelos principais canais de televisão franceses, sites e blogs. Na cobertura havia comentaristas, imagens da corte e inúmeros trabalhadores do hotel uniformizados gritando "Que vergonha!"

Modo de vida francês

O caso também aguçou o debate local sobre o modo de vida francês, de tolerância para com a atitude masculina nas relações de gênero, uma aceitação de todos menos os ataques sexuais mais chocantes contra as mulheres e uma relutância por parte das autoridades em intervir, principalmente nos casos que envolvem os poderosos.

“Esse é um momento crucial, um divisor de águas", disse Anne-Elisabeth Moutet, uma analista de política e cultura francesas. Mulheres de todo o espectro político "têm histórias extremamente desagradáveis para contar, sobre os homens acharem que elas todas estão ali literal e figurativamente a seu dispor”, ela disse. A França é "um país difícil de avançar", acrescentou. "Mas é um passo importante. As mulheres estão mais encorajadas".

Um exemplo dos hábitos do passado e de possível mudanças inspiradas pelo caso de Strauss-Kahn foi a renúncia forçada do ministro Georges Tron, acusado por duas mulheres de pressioná-las a massagear seus pés, algo que rapidamente evoluiu para a bolinação. As mulheres disseram que se sentiram encorajadas a falar depois da prisão de Strauss-Kahn.

O presidente Nicolas Sarkozy, que é conhecido por seus próprios olhares esguios, manteve o foco na política da questão, por causa da eleição presidencial do próximo ano. Ele demitiu Tron em dois dias.

Natacha Henry, uma escritora francesa e feminista que escreveu livros sobre a sexualidade das mulheres e sobre a violência doméstica, está escrevendo um capítulo de um livro sobre o caso de Strauss-Kahn, se concentrando na discriminação sexual mais discreta e predominante na vida francesa.

"As mulheres estão começando a falar agora", disse Henry. "Amigos de Strauss-Kahn disseram que ele sempre foi um mulherengo, um ‘dragueur' (galanteador), mas nós estamos dizendo que não se trata de sedução, não se trata da ‘la drague', mas de outra coisa. Isto não é sobre sexo, sedução, amor ou uma relação de igualdade, mas tem tudo a ver com poder. Muitas atitudes que nos Estados Unidos seriam consideradas assédio sexual aqui são geralmente vistas como, 'Oh, ele tem um grande interesse em mulheres’”.

Ela acrescentou: "Para os amigos de DSK, o feminismo e a igualdade não entraram em suas cabeças ou em sua cultura política. É como se eles estão construindo um planeta sexual para si mesmos, sem pensar nas mulheres".

A advogada Viviane Meunier observou um efeito importante. "A simples imagem de que qualquer mulher pode relatar o que sofreu e que sua palavra pode ser levada a sério contra uma figura de alto escalão já é suficiente para transmitir uma mensagem a todas as vítimas”, disse ela. "Eu não acho que isso vai marcar o nascimento de um novo feminismo, mas vai contribuir, espero eu, para a longa evolução das relações de gênero”.

Para Moutet, o abuso de poder masculino "encontra um eco em todos os lugares", não apenas na política ou na capital. Ela citou um filme de 1990, Promotion canapé, um título que se refere ao teste do sofá. "Isso existe no serviço público, nas empresas, nos correios", disse ela. "E vai definitivamente impactar a vida das mulheres".

Ela e outras apontaram para entrevistas com nove mulheres políticas publicada no dia 31 de maio no jornal Libération, sob o título, Cansadas dos machos. Elas descreveram "piadas extremamente grotescas" na Assembleia Nacional e sobre a necessidade de usar calças para fazer um discurso. Mas algumas, como Cecile Duflot, líder do Partido Verde, observou que "há uma diferença bastante acentuada entre as pessoas com menos de 40 e as mais velhas", enquanto a ministra Roselyne Bachelot disse que "em 30 anos de ação política e feminista, claro que eu vi transformações reais. Mas a batalha não está ganha”.

Nem todos estão otimistas. A jornalista e crítica Marine de Tilly disse que nada irá mudar definitivamente na França. "Não há nada novo sob esse triste sol", disse ela. "Para mim, esse caso é apenas mais uma história sórdida na longa lista de agressões sexuais perpetradas contra as mulheres pelos homens”.

Diferenças

Muitas mulheres, mesmo aquelas indignadas com os casos de Strauss-Kahn e Tron, ainda veem uma diferença entre França e Estados Unidos que não querem perder, incluindo a discrição sobre a vida privada dos adultos.

Flora Saladino, 28 anos, uma socialista que trabalha no governo pressionando causas das mulheres e dos direitos das minorias, diz que a paquera não a incomoda completamente, "desde que permaneça respeitosa". "Não me incomoda se alguém me diz que eu fico mais atraente com o meu cabelo de uma certa maneira. Você não pode impedir os homens de fazer elogios, e não há nada de errado com isso”.

Henry disse que há um problema com a imagem do feminismo francês por si próprio. "Se você é feminista, isso significa que você não é feminina", disse. Até mesmo a tolerância aos elogios sexualizados é uma forma de jogar por poder, disse ela. Ela contou de uma amiga que foi chamada no escritório do editor-chefe de uma estação de rádio. O editor fechou a porta e disse: "Oh, eu vejo que você está de saia e eu posso ver suas pernas. Por favor, vista saia todos os dias”. Para os franceses, disse ela, "essa é uma forma de manter a reputação de ser agradável para as mulheres".

“Mas se trata apenas do poder", disse ela. "Naquele momento a mulher não pode responder e pensa: ‘Ele quer falar sobre a minha saia e eu quero falar de trabalho. Eu estou presa, estou presa, estou presa’”. Mas Henry disse que ela também valoriza a discrição francesa sobre as vidas privadas de figuras públicas.

Sylvie Kauffmann, a primeira mulher a se tornar editora do Le Monde, escreveu em um editorial que "de repente, as línguas estão soltas", e as mulheres estão compartilhando histórias de assédio sexual. "Sem cair no puritanismo", escreveu ela, "há um remédio para os excessos: a igualdade entre homem e mulher".

Emeline S., 24 anos, trabalha como gerente júnior em uma empresa internacional e pediu que seu sobrenome não fosse usado por temer repercussões em sua carreira. Ela acha que um certo grau de flerte e sedução a ajuda no trabalho. "Eu acho que você consegue fazer muitas coisas acontecerem com a sedução", disse. "Sorrisos, esse tipo de coisa que realmente funciona com os homens", disse ela, acrescentando: "Eu tenho a sensação de que me coloquei em uma relação de sedução tanto com homens quanto com mulheres". Para as pessoas comuns, ela disse: "Eu não acho que isso vai mudar coisa alguma".

* Por Steven Erlanger

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