Dependência de mão de obra imigrante causa desconforto em Israel

Milhares de estrangeiros, muitos deles ilegais, vão a Israel substituir palestinos como fonte de trabalho barato

The New York Times |

Empoleirados 22 andares acima de um afluente subúrbio da próspera cidade litorânea de Tel Aviv, três operários chineses subiram no braço de um guindaste no outono passado e se recusaram a ceder. Enfrentando a possibilidade de deportação por causa do término de seus vistos, seu ato de desespero buscava recuperar milhares de dólares em salários que seu empregador israelense havia retido ilegalmente, de acordo com eles.

O protesto teve o efeito desejado: depois que os homens passaram nove horas no guindaste, a construtora concordou em pagar a cada um o equivalente a US$ 1 mil. Satisfeitos, eles desceram e voluntariamente seguiram ao aeroporto.

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Trabalhadores chineses fazem refeição em alojamento em Tel Aviv

Para os israelenses, o impasse do guindaste - o segundo em uma questão de meses - foi uma lembrança indesejada da conturbada experiência econômica do país com a mão de obra estrangeira. Desde a primeira Intifada da década de 1990, mais de um milhão de imigrantes do mundo em desenvolvimento têm vindo a Israel para substituir os palestinos, que eram a fonte original de trabalho barato do país.

Pelo menos 250 mil trabalhadores estrangeiros, cerca de metade deles ilegais, vivem no país, segundo o governo israelense. Entre eles operários chineses, enfermeiros filipinos e trabalhadores rurais tailandeses, bem como outros asiáticos, mais africanos e europeus orientais, que trabalham como empregados domésticos, cozinheiros e babás.

"Os israelenses não fazem esses trabalhos, por isso eles nos trazem", disse Wang Yingzhong, 40, operário da província de Jiangsu na China, que chegou em 2006.

Mas mesmo que os trabalhadores estrangeiros tenham se tornado um pilar da economia, a sua presença tem entrado em confronto com a ideologia sionista de Israel, causando crescente preocupação sobre o futuro político do Estado judaico e seu lugar nele.

O governo tem sido imobilizado por uma série de políticas contraditórias que incentivam a contratação temporária de imigrantes, mas procuram impor restrições de vistos de trabalho mais rígidas que podem deixá-los vulneráveis a empregadores abusivos, dizem os defensores dos trabalhadores.

Aqueles que ultrapassam a permissão de seus vistos e tentam permanecer em Israel vivem com medo da Unidade Oz, uma divisão recém-criada de policiais de imigração que caçam imigrantes ilegais e ajudam na sua deportação.

O governoquer que as vagas não qualificadas sejam dadas a israelenses desempregados, especialmente os cidadãos árabes e judeus ultraortodoxos. Críticos dizem que as políticas são hipócritas e racistas, porque elas tratam os trabalhadores estrangeiros como indignos de proteção jurídica.

"Muitas vezes temos de lutar para fazer os israelenses verem que estes trabalhadores estrangeiros são seres humanos", disse Dana Shaked, coordenadora de trabalhadores chineses em Kav LaOved, um grupo de direitos dos trabalhadores.

Embora o governo israelense tenha divulgado um recorde de 120 mil autorizações de trabalho para estrangeiros em 2009, os líderes políticos do país dizem que querem a eliminação progressiva do trabalho imigrante. "Criamos uma nação judaica e democrática e não podemos deixá-la se transformar em uma nação de trabalhadores estrangeiros", disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em uma conferência da Associação de Fabricantes de Israel em janeiro.

O alvo principal são os chineses, que nos últimos anos têm recebido quase todas as autorizações para trabalho em construções. Os chineses representaram um quarto de todas as deportações entre 2003 e 2008, mais do que qualquer outro grupo estrangeiro. A taxa deve crescer uma vez que 3 mil vistos de trabalho chegaram ao fim em junho.

O chineses vivem em uma situação pior aqui em parte porque são recrutados através de uma rede obscura de empresas de contratação que, segundo os grupos de defesa, funcionam como redes de tráfico humano. Os chineses pagam até US$ 31 mil nas taxas de recrutamento, a maior taxa de todos os trabalhadores estrangeiros, de acordo com Kav LaOved, que afirma que o dinheiro vai parar nos bolsos dos intermediários e de agências governamentais de ambos os países.

Os chineses têm de trabalhar uma média de dois anos para pagar o dinheiro que pediram emprestado para pagar pelas taxas. Inconscientes de seus direitos e incapazes de falar hebraico ou inglês, muitos se tornam vítima de uma série de abusos, como péssimas condições de vida, retenção de salários e rescisão antecipada de licenças, que os tornam passíveis de deportação antes de terem pago as taxas de recrutamento ou economizado dinheiro para si.

A maioria dos chineses suporta as injustiças mais silenciosamente do que os trabalhadores que realizaram o dramático protesto no guindaste no ano passado. Alguns como Liu Shiqi, 39, que disse que apareceu para seu trabalho como cozinheiro em uma manhã de março e encontrou o restaurante fechado e descrobriu que proprietário havia fugido sem pagá-lo.

"Eles sabem que estamos sozinhos e não falamos hebraico, por isso eles se aproveitam de nós", disse.

Defensores dos trabalhadores dizem que a embaixada chinesa tem sido indiferente ou mesmo hostil à situação dos trabalhadores.

Quando 170 trabalhadores operários entraram em greve, em 2001, pedindo seu salário, oficiais da embaixada avisaram que eles seriam presos após o seu regresso à China por romper seus contratos e violar a lei trabalhista de seu país. Os homens que protestaram no guindaste fizeram aquilo depois que a embaixada ignorou seus apelos, disse Kav LaOved.

Yang Jianchu, o cônsul chinês para os Assuntos de Imigração, diz que sua equipe faz o possível para ajudar as pessoas em apuros. Ele também rejeitou as acusações dos defensores dos trabalhadores que o governo chinês lucra com taxas de recrutamento exorbitantes.

"Nós não sabemos para onde vai o dinheiro", disse Yang. "Esta é a verdade."

Trabalhadores que se tornam ilegais, depois de perder seus empregos ou por permanecer mais do que o período permitido por seus vistos dizem que são facilmente explorados por patrões israelense.

Um trabalhador chinês de 40 anos de idade de Jiangsu, disse que ganha cerca de US$ 14 mil por ano trabalhando 12 horas por dia. O medo de ser preso pela polícia de imigração o consume. "Quando eu durmo, eles me pegam nos meus sonhos", disse o homem, de sobrenome Jiang, que pediu que seu nome completo não ser divulgado.

O governo tem silenciosamente começado a substituir os chineses por outros não-israelenses, emitindo licenças para a construção a 15 mil palestinos este ano. Isto acontece conforme políticos de direita têm aumentado as acusações contra trabalhadores estrangeiros, dizendo que roubam os empregos de israelenses e ameaçam o caráter judaico do país, uma afirmação que muitos da esquerda rejeitam.

"Dizer que os trabalhadores estrangeiros estão diluindo o Estado judeu é racismo", disse Nitzan Horowitz, membro do Parlamento israelense e crítico da política de trabalho estrangeiro. "Primeiro, Israel os traz aqui e faz dinheiro às suas custas. Depois, eles enfrentam todo tipo de assédio".

Mesmo se a lei for alterada, será tarde demais para pessoas como Lin Qingde, um operário chinês, que é um dos 26 queixosos de um processo contra um comerciante árabe-israelense acusado de roubar US$ 1,7 milhão de centenas de trabalhadores - dinheiro que ele supostamente deveria enviar às famílias dos trabalhadores na China. A polícia prendeu o empresário, mas, enquanto aguardava para depor no julgamento, o visto de Lin expirou e ele também foi preso.

Após passar cinco meses atrás das grades e com medo de ser morto na China por não pagar uma dívida de US$ 40 mil, Lin foi finalmente levado à corte em maio. Poucos dias depois, ele foi deportado.

Hay Haber, o advogado de Lin e de muitos outros trabalhadores estrangeiros, disse que está envergonhado do sistema de justiça de Israel. "Estes trabalhadores, infelizmente, não têm lugar em Israel", disse Haber, cercado por pilhas de arquivos de evidências em seu escritório em Tel Aviv. "Aqui eles não são nada além de escravos baratos".

Por Dan Levin

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