Dentre os sobreviventes do tsunami japonês, uma gueixa de 84 anos

Tsuyako Ito se preparava para apresentação na noite de 11 de março, quando ondas gigantes engoliram cidade Kamaishi em 35 minutos

The New York Times |

Os pedidos para vê-la se apresentar diminuíram ao longo dos anos. Mas quando o terremoto atingiu o país às 14h46 do dia 11 de março, a última gueixa da cidade japonesa de Kamishi estava em casa se preparando para cantar naquela noite em um ryotei (tipo de restaurante) exclusivo de mais de 117 anos, que oferece boa comida e entretenimento, onde ela começou a trabalhar aos 14 anos.

Ela já havia vestido as meias brancas com separação entre os dedos e seu quimono, e estava se preparando para pentear os cabelos. Contratada para entreter um grupo de quatro pessoas em homenagem à transferência de um colega, ela havia escolhido a música certa que visava preparar os jovens samurais a caminho de sua primeira batalha.

The New York Times
Tsunami de 11 de março foi o quarto da vida de Tsuyako Ito, 84 anos
Mas um tsunami engoliria a cidade em 35 minutos e, conforme Kamaishi era atingida pelos 15 grandes tremores secundários dentro de um breve período, a gueixa Tsuyako Ito, 84 anos, lutou para sobreviver. Ela já havia sobrevivido a três tsunamis em Kamaishi, um lugar destruído regularmente pelas ondas ao longo dos séculos. Quando menina, ela ouvia histórias contadas por sua avó sobre o grande tsunami de 1896.

“Minha avó dizia que um tsunami é como uma boca aberta que engole tudo em seu caminho”, disse Ito, que se encontra em um hospital local para tratamento de asma. "Assim, a vitória é daqueles que conseguem fugir o mais depressa possível”.

Em seu primeiro tsunami, em 1933, sua mãe a carregou nas costas em segurança. Dessa vez, após suas pernas cansarem, um admirador a carregou nas costas até um local elevado. Ito, que planejava se aposentar no seu 88º aniversário, uma data especial no Japão, sobreviveu ao seu quarto – e “mais assustador”– tsunami.

No entanto, as ondas levaram seu shamisen, um instrumento de três cordas, e seu quimono, duas coisas essenciais para a arte da gueixa.

Mortes

O tsunami recente matou aproximadamente 1,3 mil pessoas em Kamaishi, cujas áreas mais baixas foram transformadas em uma cidade fantasma coberta por lama.

Como o local de nascimento da indústria siderúrgica do Japão, Kamaishi exerceu um papel fundamental na modernização e militarização do país, de modo que se tornou o primeiro alvo dos navios de guerra americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Durante o crescimento do Japão pós-guerra, a população da cidade aumentou rapidamente e ela superou facilmente os estragos de dois tsunamis.

Kamaishi também se tornou famosa por seus deliciosos peixes e frutos do mar, pelas vitórias do time de rugby de sua principal empresa, a Nippon Steel, e por suas diversões.

Mas com o declínio da fortuna do Japão nas últimas duas décadas, o declínio de Kamaishi foi rápido. Sua população, de quase 100 mil habitantes há duas gerações, caiu atualmente para menos de 40 mil e está envelhecendo. Muitos daqueles que perderam casas e negócios aqui dizem que irão partir.

Ito prometeu cantar e dançar novamente em Kamaishi. Famosa por sua beleza, ela dançava e tocava o shamisen ao mesmo tempo, enquanto a maioria das gueixas consegue apenas tocar o instrumento, disse Setsuko Kanazawa, cuja família é proprietária do Saiwairo, o ryotei onde ela se apresentava.

Para aqueles que prezam pela preservação da cultura local, ela é a guardião de aspectos culturais que estão desaparecendo rapidamente.

O último ryotei em Kamaishi, o Saiwairo também é o mais exclusivo. Ele foi construído em 1894 no ponto mais elevado de uma área cheia de bares, bordéis e outros ryoteis. Foi no Saiwairo que Ito deu início ao seu aprendizado aos 14 anos. “Eu adorava dançar”, ela disse. “E simplesmente queria ser uma das principais gueixas de Kamaishi”.

Após sobreviver a outro tsunami, Ito lamentou não ter podido cantar naquela noite. “Eu ensaiei na noite anterior e achei que essa canção cairia bem”, ela disse, explicando que a canção conta a história de um jovem samurai que parte para sua esperada batalha montado em um cavalo. “A noite acabou sem que eu cantasse, aquela canção tão bonita", ela disse

*Por Norimitsu Onishi

    Leia tudo sobre: japãoterremototremortsunamigueixa

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG