Demitidos de tabloide, funcionários afogam mágoas tomando cerveja

Jornalistas do News of the World esperavam renúncia de presidente-executiva, mas foram surpreendidos com fechamento de jornal por escândalo de grampos

The New York Times |

Quando Rebekah Brooks, presidente-executiva da News International, chegou à redação do tabloide News of the World na tarde de quinta-feira muitos dos cerca de 200 funcionários presentes pensavam que ela iria anunciar a sua própria demissão depois de verificado o seu papel no escândalo de escutas telefônicas que abalou a Grã-Bretanha nesta semana.

AP
Rebekah Brooks, presidente-executiva do News International, surpreendeu ao anunciar o fechamento do tabloide em vez de renúncia
Mas em vez disso, de acordo com jornalistas que estavam na redação naquele momento, Brooks disse à multidão que ela e outros do grupo News International, parte do império de mídia de Rupert Murdoch , consideraram “todas as opções" antes de decidir que o público que "nunca irá nos perdoar" pelas coisas que foram reveladas - e outras que ela advertiu serem iminentes, sem fornecer detalhes específicos.

Ela havia trabalhado para a empresa por 22 anos e a decisão doeu, disse. Mas News of the World seria fechado.

Houve suspiros e lágrimas, de acordo com Jules Stenson, o editor da seção de artigos do jornal, porque ninguém, incluindo as figuras mais importantes, “tinha ideia" de que o fechamento estava por acontecer. Em sua emoção avassaladora, ele disse aos repórteres, ele pensava que "a equipe atual não deveria ser prejudicada" por um escândalo no qual a maioria não esteve envolvida.

Conforme os funcionários do jornal começaram a processar a informação, e calcular sua indenização, o editor Colin Myler fez um discurso emocionado celebrando a história do jornal. A nação perderia "parte do tecido da vida britânica", disse ele, prometendo uma edição "muito especial" para o último dia de veiculação, no domingo.

De acordo com dois repórteres que estavam presentes, a equipe também foi informada que Brooks havia oferecido sua demissão duas vezes nesta semana, conforme o escândalo crescia, mas que havia sido recusada. Mas, como disse de forma irônica um funcionário, segundo relatos, "a nossa foi aceita”.

Diante da moderna sede do jornal - um elegante prédio de vidro e granito para o qual os funcionários se mudaram há apenas alguns meses - um bando de futuros ex-funcionários se reuniu naquela tarde para conversar, fumar cigarros e fazer ligações urgentes enquanto um forte vento os atingia.

Muitos estão relutantes em discutir os acontecimentos, temendo que os pagamentos ou um futuro emprego possam ser prejudicados. Mas ao telefone, sob a condição de anonimato, um repórter contou sobre a revolta que tem dominado a equipe, ao falar sobreBrooks: "Eu espero que ela valha a pena para Rupert".

Outro jornalista acrescentou que, conforme o escândalo das escutas telefônicas crescia, estendendo-se da redação do News of the World a toda mídia britânica, chegando ao número 10 da Rua Downing e à Scotland Yard, muitos jornalistas haviam refeito seus currículos temendo por sua carreira. Mas ninguém esperava tal mudança repentina nos acontecimentos. "Se você souber de qualquer emprego me avise", disse o jornalista.

Pub

Com a chegada do pôr do sol de um dia que muitos funcionários descreveram usando palavrões, dezenas decidiram por uma tradição consagrada pelos tabloides. Eles se reuniram em massa em um pub das redondezas, onde o News of the World abriu uma conta para o seu pessoal.

Lá um repórter sugeriu que houve manifestações de triunfalismo no Guardian, o jornal que havia dado a notícia e depois perseguido obstinadamente a história das escutas telefônicas. Vários repórteres do Guardian negaram veementemente o boato e manifestaram solidariedade sobre a demissão em massa dos jornalistas do News of the World.

O mesmo fizeram os jornalistas da publicação irmão do News of the World, o The Sun, que anunciaram que deixariam de trabalhar naquele dia. Em comunicado, a União Nacional dos Jornalistas da Grã-Bretanha disse que o fechamento do News of the World foi apenas "um ato de limitação de danos para salvar a reputação de Murdoch e da News International – ambas agora manchadas sem chance de reparo".

Conforme os repórteres bebiam e se misturavam com outros membros da mídia presentes para cobrir o fechamento do tabloide, alguns pontos de vista expressos passaram a ser mais otimistas. "Talvez eles paguem uma boa quantia", disse um deles. Ele fez uma pausa e acrescentou: "De qualquer maneira, a vida é muito curta para se preocupar".

Já um outro jornalista, que fazia parte daqueles que estavam trabalhando na cobertura, sugeriu que Murdoch e Brooks tinham cometido um erro estratégico ao liberar centenas "repórteres implacáveis e raivosos” pelas ruas.

Quando as telas de TV no pub mostraram o furo do Guardian – que Andy Coulson, o ex-editor do News of the World e porta-voz do premiê David Cameron , seria preso na manhã de sexta-feira em conexão com as escutas telefônicas, um repórter disse apenas: "Ainda não acabou".

*Por Ravi Somaiya

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