Deixar água para imigrantes no deserto é infração nos EUA

Justiça condenou ativistas que colocavam garrafas d'água na passagem entre México e EUA sob argumento de crime ambiental

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Na remota reserva semideserta Buenos Aires, ao longo da fronteira entre Estados Unidos e México, a água é algo precioso – e contencioso, também.

Dois anos atrás, Daniel J. Millis foi multado por ter supostamente jogado lixo na reserva depois que foi pego por um agente florestal colocando garrafas d'água na passagem de imigrantes, escondidas entre os arbustos do mato da área de mais de 477 km².

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Daniel J. Millis foi multado por ter colocando garrafas d'água na passagem de imigrantes
"Eu faço esportes radicais e sei que não conseguiria andar o tanto que eles andam", disse Millis, dirigindo pela região. "Não é nenhuma surpresa que as pessoas estejam morrendo".

Millis, 31 anos, não foi o único a ser multado. Outros 14 voluntários de organizações com base em Tucson, que fornecem ajuda a imigrantes que atravessam do México para os Estados Unidos, também foram indiciados. A maioria dos casos foi retirada, mas Millis e outro voluntário de um grupo religioso chamado No More Deaths (Sem Mais Mortes, em tradução literal) foram condenados por desfigurar a reserva com seus galões de água.

Tribunal

O Tribunal do Nono Circuito decidiu que a apelação de Millis este mês era "ambígua quanto a saber se a água contida nos galões era própria para consumo humano e isso satisfazer a definição de 'lixo'". Com uma votação de 2 contra 1, um painel de três juízes anulou a condenação de Millis.

Mas a questão está longe de ser resolvida. O tribunal decidiu que Millis provavelmente poderia ter sido acusado sob um estatuto diferente, algo que não seja referente a ele jogar lixo no meio ambiente. A agência responsável continua proibindo qualquer pessoa de colocar galões de água na reserva – uma política apoiada por extremistas contra a imigração neste Estado, que dizem que reconfortar os imigrantes apenas irá incentivá-los a atravessar a fronteira.

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Governo decidiu contra a permissão para que o grupo No More Deaths amarrasse garrafas nas árvores
De 2002 a 2009, 25 imigrantes ilegais morreram ao passar pelas colinas da reserva, que abrigam coiotes, cascavéis e quatro tipos diferentes de gambás. No sul do Arizona, o número de mortos atingiu 1.715 entre 2002 e 2009 - e as temperaturas quentes deste ano estão aumentando o ritmo de mortes.

A Patrulha da Fronteira instalou abrigos de resgate em áreas remotas ao longo da fronteira, incluindo várias na reserva Buenos Aires, para permitir que os imigrantes em dificuldades peçam ajuda. Aqueles que estão feridos e foram deixados para trás por seus guias estão muitas vezes tão desesperados que não temem mais a deportação.

Ainda assim, o governo federal reconheceu que medidas adicionais são necessárias para evitar as mortes em seu território. Em 2001, o governo concedeu a outro grupo de ajuda, o Humane Borders, uma autorização para manter vários grandes tambores de água na reserva, cada um deles marcado com uma bandeira azul e com uma torneira para permitir que os imigrantes encham suas garrafas de água para a longa caminhada ao norte.

No ano passado, o governo considerou, mas acabou por decidir contra a permissão para que o grupo No More Deaths amarrasse garrafas d'água nas árvores para permitir que os imigrantes em áreas mais remotas bebam sem levar os galões consigo.

*Por Marc Lacey

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