Defensor de órfãos luta contra corrupção no Afeganistão

Diretor dos orfanatos do país tenta melhorar gerenciamento dos abrigos, mas esbarra em corrupção e favores políticos

The New York Times |

Em um país que precisa desesperadamente de um herói, Sayyid Abdullah Hashemi gostaria de tentar ser um. Seria difícil encontrar um lugar mais miserável para ir ao trabalho com tal objetivo do que a Direção Nacional de Orfanatos, Assuntos Sociais, Mártires e Deficientes do Ministério do Trabalho do Afeganistão, onde Hashemi trabalha como diretor há sete meses. Ele não perdeu tempo ao agitar as coisas em uma agência que se tornou famosa por orfanatos em que funcionários roubam a comida da boca das crianças e os colchões de suas camas.

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Sayyid Abdullah Hashemi, diretor dos orfanatos do Afeganistão, em uma sala de aula para órfãos no orfanato de Tahya-e-Maskan em Cabul

Se ele foi motivado por ambição, altruísmo ou ambos não importa muito dada a importância do seu trabalho. Mas a performance de Hashemi como diretor pode revelar se uma reforma ética tem qualquer chance contra a corrupção tão profundamente enraizada no país.

Primeiro, Hashemi concentrou sua energia nos dois principais orfanatos do Estado em Cabul, lugares abandonados com reputações sombrias. Um deles, o orfanato Tahya-e-Maskan, era notável por ter envenenado crianças, servindo-lhes leite que estava com a data de validade expirada há muito tempo e quase ter matado várias delas.

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Agora, o orfanato Tahya-e-Maskan é um lugar muito limpo e bem conservado que oferece aulas de ciência da computação e de inglês, com 36 estudantes se inscrevendo em faculdades este ano e 44 crianças com bolsas de estudo no exterior. "Nos 12 anos que eu estive aqui, eu nunca vi um diretor como ele", disse Wahidullah Hamid, um órfão que aos 17 anos fala inglês tão bem que Hashemi o contratou como professor da língua logo que ele se formou no ensino médio do orfanato.

Hashemi é um homem magro, baixo e inquieto, com uma barba escura que o faz parecer mais velho que seus 29 anos. Ele tem uma auto-estima que parece ser fácil para homens que se chamam Sayyid, um nome que identifica seu portador como um descendente da família do profeta Maomé. Não é difícil de ver a sua confiança como arrogância e seus difamadores o acusam de prepotência e de ser apenas motivado por sua ambição pessoal.

Qualquer que seja a fonte de sua confiança, ela é misturada com uma grande medida justa de indignação. Ele também é órfão. Seu pai foi morto em batalha contra os soviéticos durante a ocupação na década de 1980. "Eu entendo o que os órfãos estão sofrendo", disse.

Seus esforços chamaram a atenção de uma instituição de caridade afegã, a Parsa. Mais conhecida por seu trabalho de reabilitação física com os feridos de guerra, a Parsa também tem um programa de orfanatos.

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Ao contrário da maioria das instituições de caridade nesse campo, que tendem a se concentrar na gestão de orfanatos por empresas estrangeiras, "nós queríamos trabalhar dentro do sistema do governo", disse a diretora-executiva do grupo, Marnie Gustavson. Essa decisão resultou apenas em "bater a cabeça contra a parede durante 6 anos", disse. Então apareceu Hashemi, a quem ela descreve como "alguém no qual podemos acreditar".

Durante anos, a Parsa tinha sido responsável pela compra de itens como cobertores e agasalhos que eram entregues aos orfanatos do governo, porém percebeu que os encarregados pelos orfanatos vendiam os itens no mercado aberto logo que os trabalhadores humanitários iam embora da cidade.

A Parsa ofereceu um investimento em dinheiro a Hashemi caso fosse capaz de garantir que esse dinheiro seria gasto honestamente em algum dos 33 orfanatos do país, muitos deles bastante remotos. Por sua vez, Hashemi decidiu fazer algo que Marnie chamou de inovador: ele realmente viajou para fora da capital para visitar os orfanatos pelos quais era responsável.

No início de dezembro, Hashemi apareceu sem aviso prévio no orfanato em Faizabad, na província de Badakhshan, na hora da janta. Cerca de 150 meninos viviam em uma casa alugada, compartilhando dez quartos e dormindo em tábuas. Isso tudo era ruim o suficiente, mas foi a comida que realmente chamou sua atenção.

"Nós enviamos 75 afeganes por dia por criança e não é o suficiente, mas se repassados de uma maneira adequada, é pelo menos o suficiente para uma porção digna de alimentos de qualidade", disse Hashemi. O valor equivale a cerca de US$ 1,50 por dia, o suficiente para garantir, por exemplo, que cada criança receba uma porção de pelo menos 190 gramas de feijão, disse.

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Mas quando ele chegou, encontrou as crianças comendo uma sopa rala que continham talvez 50 gramas de feijão para cada um deles, mais metade de um pedaço de pão. Ficou claro que a quantia do dinheiro que enviávamos para as crianças estava sendo desviado pelos adultos no orfanato. "As crianças estavam magras, algumas delas tinham seus cabelos caindo devido a doenças resultantes da desnutrição", disse Hashemi.

O que aconteceu depois é uma questão que não está muito clara, embora seja certamente um exemplo do quão complexo é fazer uma mudança real no país. Hashemi diz simplesmente que "é nosso dever não roubar a comida de nossos órfãos, então eu joguei um prato de comida no rosto do diretor, o demiti e também o cozinheiro".

O diretor nacional da Parsa, Yasin Farid, que estava presente, confirmou o acontecimento. Mas o diretor do orfanato, Sayyid Abdul Wahab, lembrou-se de forma diferente durante uma entrevista por telefone. "Nós tivemos uma briga, mas não foi muito séria", disse Wahab. "Ele tinha uma tigela de comida com ele, mas ele não jogou a comida em mim intencionalmente. "

Wahab também insistiu que ainda estava empregado. "Eu não estou ciente de ter sido demitido", disse. Ou como ele mesmo disse para Hashemi, no momento, de acordo com as testemunhas presentes: "Você não pode me demitir, eu tenho muitos amigos na polícia e tenho parentesco com o governador."

O governardor, Shah Wali Adeeb, da província de Badakhshan, tem boas relações com o partido Jamiat-e-Islami da Aliança do Norte.

Um funcionário familiarizado com a situação, que falou sob condição de anonimato devido à delicadeza política da questão, disse que Hashemi teve de aceitar o fato de que não tinha o poder de demitir Wahab. "Quando descobriu que o diretor tinha apoio político, ele teve que mudar de tática", disse o oficial.

A tática de Hashemi foi de ter certeza que as crianças estavam sendo alimentadas, comprando-lhes comida antes dele ter ido embora. Então, deixou dinheiro para comida e lenha, e arranjou uma maneira de eles entrarem em contato com regularmente para informar sobre como o dinheiro estava sendo gasto e como estavam sendo tratados.

Ele fez o mesmo em cada um dos quatro orfanatos que visitou em Badakhshan, Takhar, Parwan e nas províncias de Kunduz. No orfanato da província de Takhar, que visitou na sexta-feira, um dia de folga normal, não encontrou nenhum dos funcionários tomando conta de 40 meninos menores de dez anos, disse ele. Eles tinham um saco de 13 quilos de batatas, seu único alimento para o dia, que eles mesmos tinham que preparar.

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Jovens jogam futebol no orfanato Tahya-e-Maskan, em Cabul, Afeganistão

Mais tarde, o diretor ameaçou expulsar as crianças do orfanato se não jurassem para Hashemi que tinham tido comido um bom café da manhã de ovos e leite naquele dia. O cinegrafista de Hashemi, no entanto, registrou secretamente o encontro.

Em Parwan, Hashemi invadiu o orfanato a 1h e inspecionou as camas. "Os lençois deveriam ter sido lavados e trocados a cada duas semanas", disse. "Esses não tinham sido lavados por três anos e o cheiro não escondia tal fato."

Ele retornou a Cabul, tendo deixado um rastro de demissões na sua jornada, mas ele acabou se deparando com os mesmos problemas políticos que ele tinha passado no primeiro orfanato.

Logo se tornou evidente que a maioria dos diretores que ele havia demitido ainda estavam em seus respectivos cargos. É uma medida do quão fraco o governo central do Afeganistão é: Enquanto Cabul se apropria dos fundos dos orfanatos, o dinheiro é desembolsado através dos escritórios dos governadores locais, por isso são os governadores que controlam os postos de trabalho.

"Para mim, eles estão demitidos", disse Hashemi. "Se eles ainda insistem em vir trabalhar, eu vou ter que conversar com o ministro para tomarmos alguma providência ."

Há ainda 29 orfanatos para serem fiscalizados. "Esses que eu visitei estavam em áreas seguras", disse ele. "Imagine como estão os orfanatos de áreas perigosas."

Por Rod Nordland

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