Decolagens de luxo desafiam a legislação chinesa

Ricos o suficiente para ter aviões e helicópteros, os chamados aviadores negros utilizam espaço aéreo chinês na clandestinidade

The New York Times |

Aqui em Wenzhou, no coração nouveau-riche empresarial da China, o mais recente sinal de que se chegou ao topo não é um Mercedes-Benz, ou mesmo um Bentley. É um helicóptero.

Talvez 10 dos moradores super ricos de Wenzhou têm um. Guan Hongsheng tem três. Embora, na verdade, quem precisa contar?

"Para nós, uma semana de trabalho tem 80 horas ou mais. Então você sabe do que precisamos? Precisamos de transporte rápido", disse Guan, um mercador que fez uma fortuna e faz questão de ostentá-la no ouro em seu pescoço e no iate gigantesco.

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Guan Hongsheng, falando a dois celulares ao mesmo tempo, diante de seu helicóptero em Wenzhou, na China
Mas nada disso é legal. Guan e seus amigos são aviadores negros – parte de um minúsculo grupo de chineses ricos que voam contrariando a lei chinesa. Os primeiros chineses ricos o suficiente para possuir seus próprios aviões.

Um deles colidiu em pleno ar com o poderio militar chinês, que controla o espaço aéreo do país e nunca contemplou essa situação e tampouco autorizou outras aeronaves.

Pedir permissão para decolagem pode envolver dias de burocracia e ainda receber uma rejeição. Obter permissão para aterrissar pode ser ainda pior.

Assim, os aviadores negros usam o espaço aéreo na clandestinidade, voando por onde as autoridades não irão perceber ou se importar, às vezes causando estragos no chão, arriscando multas que levaria um chinês comum à falência, mas que, para a maioria deles, não têm um efeito dissuasor.

Guan foi preso em março de 2010 depois que ele e os outros dois pilotos ocasionais de helicóptero sobrevoaram Wenzhou sem aprovação do governo.

As multas foram de 100 mil yuans, ou cerca de US$ 15,4 mil, mas "nós fomos capazes de acalmá-los e barganhar para 20 mil", disse ele.

O problema pode ser impenetrável.

Outro piloto de Wenzhou, Zhu Songbin, comprou um pequeno avião no ano passado em Cantão, onde fica sua escola de voo, e pediu autorização para voar para Wenzhou, cerca de 570 quilômetros a noroeste. Então ele descobriu que simplesmente para pedir a permissão custaria milhares de dólares e ainda seria necessária uma reunião com oficiais locais sem nenhuma garantia de aprovação.

Zhu disse que pensou em fazer um voo negro, depois pensou melhor. "Eu tinha medo que eles pudessem revogar a minha licença se me pegassem", disse. Até que ele desistiu. "Acabei de vender o avião para outra pessoa", disse.

O governo está agindo para mudar a lei, mas as mudanças virão em pequenos passos. Sob o plano atual, o espaço aéreo chinês não será totalmente aberto aos voos privados até 2020.

*Por Michael Wines

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