Declarações de premiê egípcio prejudicam sua credibilidade

Escolhido pelos militares para liderar o país, Kamal Ganzouri é famoso por encontros tragicômicos com a imprensa

iG São Paulo |

Para os egípcios ansiosos em ver cumprida a promessa de democracia feita por sua revolução, o primeiro-ministro Kamal Ganzouri fez a seguinte pergunta: Por que a pressa?

"Para um país que permaneceu em silêncio por 60 anos", perguntou ele em uma entrevista coletiva nesta quarta-feira, "por que estamos nos pressionando a tomar uma decisão num período de cinco ou seis meses?"

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AP
O premiê egípcio, Kamal Ganzouri, concede entrevista a jornalistas no Cairo (25/11)

Ganzouri, 78, que foi primeiro-ministro durante o governo de Hosni Mubarak, foi escolhido para o cargo há dois meses pelos governantes militares do Egito, numa tentativa de restaurar a confiança em sua autoridade. Além disso, ao que parece ninguém mais queria o cargo.
Mas se o objetivo era restaurar sua credibilidade, muitos egípcios dizem que ele tem um jeito engraçado de fazê-lo.

Em um país que se orgulha de seu senso de humor, a idade de Ganzouri fez dele um alvo de piadas no momento em que foi nomeado, especialmente entre alguns egípcios - agora a maioria - que ainda não tinham concluído sequer o ensino médio na última vez que ele ocupou o cargo.

"Ganzouri, que descanse em paz, está formando um governo?" dizia uma piada que circulou pela internet no dia em que ele assumiu o cargo. Mas suas próprias palavras provaram que ele está a par do humor egípcio, de acordo com uma de suas declarações.

"Não estou aqui para fazer musculação", disse ele, defendendo a sua idade de maneira bem humorada em um programa de televisão. "Estou aqui para governar um país."

Alguns de seus mais memoráveis encontros com a imprensa foram tragicômicos. Em sua coletiva de imprensa de apresentação, por exemplo, ele se gabou de ter autonomia, porém mencionou mais de uma vez as instruções que havia recebido do marechal Mohamed Hussein Tantawi, 76.

Em uma aparição infame no dia 17 de dezembro, Ganzouri anunciou que o governo militar nunca iria usar da violência contra os manifestantes no mesmo instante em que os policiais militares estavam marchando pela Praça Tahrir batendo em civis com cassetetes, em um confronto que deixou vários mortos no final do dia. Isso não foi tão cômico assim.

Muitas vezes ele parece se perder em suas declarações públicas ou até mesmo esquecer aonde queria chegar com elas. Na quarta-feira, por exemplo, ele elogiou as conquistas da revolução: "O Egito conseguiu mudar o regime, o Egito realizou eleições de cujos resultados ninguém no exterior discordou, o Egito está conseguindo tudo isso e aquilo.”

Mas em outros momentos ele parece se manifestar com uma sinceridade surpreendente, como a vez em que anunciou na televisão estatal que desde que assumiu o cargo no conselho militar muitos de seus antigos amigos políticos se recusam a ser vistos com ele em seu gabinete, como se fosse um "comissário de alto escalão da ocupação."

No entanto, na quarta-feira ele parecia estar disposto a fazer de sua idade uma de suas qualidades. Em uma coletiva de imprensa realizada com um pequeno grupo de jornalistas da imprensa estatal - todos os quais parecia conhecer pelo primeiro nome -, ele adotou um tom delicadamente paternal.

"Tenha compaixão com seu pai", disse ele, explicando que estava velho demais para responder mais do que três perguntas. "Safeya", ele brincou com uma jornalista, "sinto como se você fosse minha filha”.

Mas quando ela perguntou sobre a ideia de que o conselho militar deve passar a autoridade ao Parlamento recém-eleito no final deste mês, a resposta se reduziu a um simples “não.” Ele pediu que o povo seja paciente enquanto os militares supervisionam a elaboração de uma nova Constituição e a eleição de um presidente nos próximos seis meses.

Quando os jornalistas sugeriram que o presidente do Parlamento sempre foi considerado o sucessor do presidente na Constituição egípcia, Ganzouri também deu um jeito de se esquivar da pergunta. "Vamos pensar a respeito disso, sem Constituição ou números", disse. "Se acordássemos uma manhã e não houvesse ninguém tomando conta do país, quem seria a pessoa mais qualificada para governá-lo?”

Por David D. Kirkpatrick e Mayy El Sheikh

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