Debate republicano nos EUA desperta medo da vacina contra HPV

Declarações como a de Michele Bachmann, alegando que o medicamento é 'perigoso', provocam quedas nas taxas de vacinação no país

The New York Times |

Na semana passada, durante um debate entre os candidatos presidenciais republicanos e posteriormente em entrevistas, a deputada Michele Bachmann disse que a vacina para prevenir o câncer cervical é "perigosa". Peritos médicos reagiram a esse comentário rapidamente. Eles enfatizaram que as afirmações de Michele são falsas e enfatizaram que a vacina é segura e pode salvar vidas. Bachmann logo se defendeu, reconhecendo que ela não é médica ou cientista.

Apesar disso, os danos à saúde pública podem já ter sido feitos. Quando políticos ou celebridades levantam suspeitas sobre vacinas, mesmo sendo um alarme falso, existe uma queda abrupta nas taxas de vacinação.

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Michele Bachmann fez as declarações contra a vacina para prevenir o câncer cervical em debate entre candidatos republicanos

"Esse tipo de acontecimento sempre nos atrasa cerca de três anos, o que acaba sendo um gasto que não podemos ter", disse o dr. Rodney E. Willoughby, professor de pediatria da Faculdade de Medicina de Wisconsin e membro do Comitê de Doenças Infecciosas da Academia Americana de Pediatria. A academia favorece o uso da vacina, assim como outros grupos de médicos e o Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

A vacina, recomendada pelos grupos de médicos para pré-adolescentes de 11 a 12 anos de idade, protege contra o papiloma vírus humano, o HPV, uma infecção sexualmente transmissível que pode causar câncer. O uso da vacina estava preocupantemente baixo, mesmo antes do escândalo de Bachmann, dizem as autoridades. Isso se deve, em parte, à recente onda de medo em relação a vacinas em geral e, em parte, porque alguns pais sentem que, ao dar a vacina, eles estariam aceitando ou até mesmo tolerando a ideia de que suas filhas em breve começarão a ter relações sexuais.

Alegações de que as vacinas podem causar autismo assustou alguns pais, apesar da questão ter sido estudada repetidamente e não haver nenhuma evidência dessa ligação - a pesquisa que promoveu essa ideia se provou subsequentemente falsa.

De fato, um relatório publicado no mês passado pelo Instituto de Medicina, que assessora o governo, descobriu que a vacina contra o HPV é segura.

Foram encontradas provas "fortes e geralmente sugestivas" - embora não conclusivas - de que a vacina pode causar reações alérgicas graves. Mas tais reações têm sido raras.

Historicamente, segundo Willoughby, tais sustos fazem com que as taxas de vacinação caiam ao longo de três ou quatro anos e levam a epidemias de doenças que anteriormente estavam sob controle, como o sarampo e a coqueluche. Casos de sarampo nos Estados Unidos chegaram a seu maior número nos últimos 15 anos, com mais de cem casos, a maioria em cidadãos que nunca foram vacinados.

Uma vez que a doença começa a reaparecer, os pais ficam preocupados e começam a vacinar novamente. Com o câncer cervical, "infelizmente, o surto é silencioso e pode levar 20 anos para se manifestar ", disse Willoughby. Dessa vez, segundo ele, não haverá sintomas para assustar os pais a voltarem a vacinar suas filhas até que seja tarde demais.

A infecção pelo HPV é extremamente comum - das infecções sexualmente transmitidas, é a mais comum nos EUA. Mais de um quarto das meninas e mulheres com idades entre 14 e 49 anos foram infectadas, com uma maior taxa de 44% entre os 20 e 24 anos.

Milhões de novas infecções ocorrem a cada ano e os pesquisadores acreditam que pelo menos metade dos adultos foram infectados em algum momento de suas vidas. A região genital está repleta de HPV e qualquer tipo de contato íntimo - não apenas a relação sexual - podem transmitir o vírus. Na maioria dos casos, o HPV é inofensivo: o sistema imunológico o combate. Mas, em outros, por razões desconhecidas, o vírus persiste e pode causar câncer.

Embora a vacina contra o HPV tenha isdo inicialmente aprovada em 2006 para evitar o câncer cervical, os dados mais recentes mostram que o HPV também causa câncer no pênis, ânus, vagina, vulva e partes da garganta. Muitos cientistas pensam que a vacina pode prevenir essas doenças também.

No mês passado, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças publicou um relatório sobre as taxas de vacinação nas meninas que foi "um alerta para a ação" para melhorar o trabalho com a vacina HPV, de acordo com a Dr. Melinda Wharton, vice-diretora do Centro Nacional de Imunização e Doenças Respiratórias.

"Nós não estamos atingindo nossas metas", disse Wharton. "As meninas não estão recebendo um medida preventiva importante da qual elas precisam."

Em todo o país, no ano passado, apenas 32% das meninas adolescentes receberam todas as doses necessárias para prevenir a infecção pelo HPV, confirmou o centro de doenças. As taxas de vacinação foram muito maiores (pelo menos de 45%) em alguns Estados - Massachusetts, Rhode Island, Washington e Dakota do Sul. Aqueles que estão abaixo da média (20% ou menos) são Estados como Idaho, Mississippi, Arkansas e Alabama.

O relatório foi particularmente preocupante, disse Wharton, porque mostrou que o uso da vacina HPV está muito atrás de duas outras vacinas que foram licenciadas na mesma época, uma para a meningite e outra que é a combinação de uma dose contra difteria, tétano e coqueluche.

"Esta vacina tem sido retratada como a vacina do sexo ", disse a Dra. Mary Anne Jackson, professora de pediatria da Universidade de Missouri-Kansas City e membro da Comissão de Doenças Infecciosas da Academia Americana de Pediatria. "Para pediatras, falar sobre sexualidade é muitas vezes difícil". O Dr. William Schaffner, especialista em doenças infecciosas na Universidade de Vanderbilt, reconheceu que 11 ou 12 anos é "uma bonita e tenra idade e os pais têm dificuldade em se acostumar com esse conceito".

Mas assim como a vacina contra o sarampo e outras, essa deve ser aplicada antes que haja exposição ao vírus ou não irá funcionar.

"Nós gostaríamos de aplicá-la antes que a jovem inicie sua vida sexual", disse Schaffner. "É claro que a família, particularmente os pais, acham que isso irá acontecer quado suas filhas tiverem 34 anos."

A idade média da primeira relação sexual nos Estados Unidos é por volta dos 17 anos para meninos e meninas, segundo o Instituto Kinsey. Cerca de 25% tiveram relações sexuais aos 15 anos.

Mesmo antes dos comentários de Bachmann, os médicos de família estavam lidando com pais confusos. Schaffner disse conhecer o caso de um pediatra que adiou a aplicação da vacina contra o HPV até a maioria de seus pacientes atingirem os 15 anos de idade para evitar objeções dos pais.

"Ele acha que consegue dizer quem serão os que irão se aventurar com uma idade mais jovem, porque diz que os conhece bem ", disse Schaffner. "Ele vacina esses antes. Pessoalmente, eu tenho dúvidas sobre o sucesso dessa estratégia. Ele pode não ser melhor do que os pais ao tentar descobrir quem está fazendo o quê e quando."

Willoughby disse acreditar que a vacina contra o HPV pode ser mais aceitável para os pais caso seja recomendada ainda mais cedo na vida, em um momento não tão crucial e frágil como a puberdade. Então, ela poderia ser dada, como a maioria das vacinas, sem pais ou médicos sentindo a necessidade de dar uma explicação detalhada à criança. E não seria um sinal de que essa criança iria ter relações sexuais.

"Não há provavelmente nenhuma razão por que a idade deva ser 11 ou 12 anos e não 5 ou 6, ou mesmo do nascimento ", disse Willoughby. "Se ela fosse dada no jardim de infância eu não acho que seria um problema."

Há muitos tipos de HPV, mas dois deles, conhecidos como Tipo 16 e Tipo 18, são responsáveis por 70% de todos os cânceres cervicais. Outros tipos também podem causar verrugas genitais.

Em estudos comparando mulheres que foram vacinadas com aquelas que não foram , as vacinas foram de 93% a 100% eficazes na prevenção da infecção por HPV do Tipo 16 e do Tipo 18, de acordo com Deborah Saslow, diretora do setor de câncer de mama e câncer ginecológico da Sociedade Americana do Câncer.

Mesmo assim, quando os pediatras recomendam a vacina, muitos pais ainda hesitam. Michele Boettiger, mãe de três filhas de Missouri City, Texas, disse que lutou com a decisão sobre vacinar ou não as meninas contra o HPV. Ela ficou preocupada com a segurança da vacina.

Como católica romana que acredita na abstinência até o casamento, ela também se perguntava se a vacina seria de alguma forma uma maneira equivocada de passar uma mensagem e se seria "uma porta de entrada para as mulheres jovens pensarem que podem ter liberdade sexual" .

Boettiger, uma estudante de enfermagem, encontrou conforto no endosso da vacina pelos centros de doença e de outros grupos médicos, e em sua aceitação pelo Centro Católico Nacional de Bioética.

Seu pai e seu marido, pai das meninas, ambos morreram de câncer. "Nossa família sofreu grandes perdas devido ao câncer", disse ela. "Não é uma batalha que eu quero travar novamente."

Ela vacinou suas duas filhas mais velhas e vai fazer o mesmo com as mais novas.

Por Denise Grady

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