De partida, enviado americano avalia progressos feitos no Afeganistão

Ex-general da Otan no país, embaixador americano Karl Eikenberry aponta avanços conquistados com ajuda dos EUA, mas se preocupa com efeitos da recessão econômica

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Quando o pai de Karl W. Eikenberry descobriu que tinha apenas alguns meses para viver, ele disse a seu filho que seu maior arrependimento era que ele não estaria por perto para ver o que aconteceria em seguida.

É assim que Eikenberry diz se sentir agora, enquanto se prepara para deixar o cargo de embaixador dos Estados Unidos no Afeganistão, após quase uma década de trabalho no país, como general durante duas incursões, como oficial da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e nos dois últimos anos como embaixador. "Uma das partes mais difíceis de partir é que você simplesmente não sabe como algumas das grandes coisas vão acabar", disse Eikenberry, citando seu pai e fazendo um paralelo com a sua partida iminente.

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Karl Eikenberry, embaixador Americano no Afeganistão, em seu apartamento em Cabul (26/6)
Ele não será a única pessoa a partir com essa dúvida: no mesmo período de três semanas, outras duas figuras poderosas vão deixar o país. O general David H. Petraeus, o comandante geral que passará a liderar a Agência Central de Inteligência (CIA), e o tenente-general David M. Rodriguez, o vice-comandante geral e responsável por executar o dia a dia da guerra, irá assumir o Comando das Forças Armadas dos Estados Unidos, que prepara tropas em partida para o exterior.

Os três presidiram um período em que o poder dos militares e civis americanos e os gastos no Afeganistão estavam em seu zênite, e suas partidas marcam o fim de uma era. Do ponto de vista da política dos Estados Unidos, a mudança da guarda significa pouco, mas do ponto de vista afegão, em que a personalidade de um líder pode determinar a política, a partida tríplice, juntamente com o discurso feito pelo presidente Barack Obama no dia dia 22 de junho sobre a retirada das tropas, tem alimentado temores de abandono, especialmente para os afegãos que dependiam dos americanos.

"A partida ao mesmo tempo do embaixador Eikenberry e do general Petraeus talvez não afete a política, mas afeta a moral do povo", disse Fawzia Koofi, membro do Parlamento e forte defensora dos direitos das mulheres.

Todos os três homens têm enfatizado que o acordo de parceria estratégica - agora em fase de negociação - vai ajudar a garantir firme apoio dos Estados Unidos.

Eles disseram que estão "cautelosamente otimistas" sobre o Afeganistão, nas palavras de Eikenberry e Rodriguez, mas eles também deixaram claro que há dúvidas sobre a capacidade do governo em prestar serviços, sobre as intenções do Paquistão e sobre a capacidade das relativamente inexperientes forças de segurança afegãs conseguirem proteger o país.

Instável

Os afegãos, pelo contrário, veem uma paisagem profundamente instável, onde o desastre é pelo menos tão provável quanto a sobrevivência, onde a redução das tropas da Otan poderia tornar o país mais vulnerável tanto aos vizinhos vorazes quanto ao Taleban. Eles veem um governo incapaz de aceitar as decisões de suas próprias instituições no caso de eleições e um impasse perigoso com o Fundo Monetário Internacional sobre como superar a fraude paralisante no Banco Cabul, a maior instituição financeira do país.

"O anúncio de uma retirada significativa e o debate sobre 2014 faz com que as pessoas tenham medo", disse Ahmad Nader Nadery da Comissão Afegã Independente de Direitos Humanos. "Até 2014, toda a responsabilidade de segurança estará nas mãos dos afegãos, portanto o Taleban terá muito mais chance e apoio, e eles vão assumir ou definir termos que o governo terá de ouvir", disse ele. "As pessoas estão pensando em como prevenir um colapso total", acrescentou Nadery.

Eikenberry, cuja carreira aqui acompanhou a trajetória da guerra, do otimismo quase inebriante dos primeiros dias após a queda do Taleban ao pressentimento recente de que grandes porções do país correm o risco de cair novamente sob a influência dos talebans, falou com entusiasmo sobre os esforços dos Estados Unidos, mas não tentou prever o futuro.

AP
Policial afegão prende membro do Taleban em Jalalabad, a leste de Cabul, no Afeganistão
O embaixador deu uma rara entrevista ao New York Times na semana passada. Ele alertou que o atual impasse político a respeito do Parlamento poderia ter consequências a longo prazo para o futuro do Afeganistão como uma democracia e disse que, com exceção do Exército afegão, que muitos afegãos já respeitam, há dúvidas profundas sobre as instituições afegãs sobreviverem.

Dez dias atrás, um tribunal especial convocado pelo presidente afegão, Hamid Karzai, que autoridades eleitorais e a comunidade internacional dizem ser ilegal, ordenou que quase um quarto dos assentos no Parlamento fossem derrubados. O Parlamento respondeu votando em censurar oficiais judiciais. "Sempre que a poeira baixa, ele tem de ser um Parlamento que é aceito pelo povo afegão", disse Eikenberry.

Banco Cabul

A crise do Banco de Cabul é outra grande preocupação, segundo assessores internacionais, incluindo o representante especial da ONU para o Afeganistão, Staffan de Mistura, porque o Fundo Monetário Internacional se recusou a renovar o seu principal programa de crédito para o Afeganistão, efetivamente travando a ajuda de vários dos principais doadores. Esforços afegãos para chegar a um acordo com o Fundo Monetário ficaram aquém. Problemas econômicos de longo prazo também estão se aproximando.

Cerca de 95% da atividade econômica do país deriva da ajuda externa e de gastos militares ocidentais, e Eikenberry advertiu para um colapso econômico no Afeganistão conforme os doadores comecem a reduzir seus gastos no país.

Esse ano, a ajuda estrangeira dos Estados Unidos atingiu o pico de US$ 4 bilhões, mas no próximo ano fiscal apenas US$ 2,5 bilhões estão previstos para o Afeganistão. O orçamento militar anual é atualmente de cerca de US$ 120 bilhões e inclui grandes quantidades de projetos de desenvolvimento, mais de US$ 600 milhões em contratos de transporte rodoviário para os afegãos que servirão as tropas da Otan e cerca de US$ 12 bilhões anuais para pagar as forças de segurança do Afeganistão. "Estamos preocupados que possa haver uma recessão econômica ou efeitos de recessão que serão sentidos em 2013 e 2014", disse Eikenberry.

Rodriguez, que fez sua incursão de despedida do leste do Afeganistão na semana passada, com paradas em Paktika, Ghazni e na Base Aérea de Bagram, tem plena consciência da quantidade de dinheiro e empregos que os militar levam para a economia do Afeganistão e disse que ele também está preocupado sobre como cimentar os ganhos. "Temos de descobrir como construir durabilidade", disse ele. "O progresso tem de melhorar de forma exponencial". O general acrescentou: "Isso é claramente possível de se fazer”.

O embaixador americano disse que está deixando o país com orgulho especial por duas realizações. "Vou sair daqui com o apelido de ser o pai do Exército afegão, e para mim isso é algo muito importante porque essa é uma das poucas instituições aqui que é vista como nacional e confiável”.

"A segunda grande conquista é ter liderado a ação de civis", disse ele, referindo-se ao aumento de diplomatas enviados pelo Departamento de Estado ao Afeganistão - de 325 para 1,2 mil, sendo 400 deles nas províncias em reconstrução. "Eu acho que sob o nosso cuidado, nós fizemos a diferença”.

*Por Alissa J. Rubin e Rod Nordland

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