De olho nas eleições, republicanos adotam o Twitter

Assessores são pagos para assistir a debates e discursos dos democratas e, em instantes, rebater e lançar polêmicas na rede social

The New York Times |

A imagem do presidente Barack Obama estava em uma das muitas telas de televisão penduradas no escritório do representante Eric Cantor. O presidente dizia a uma multidão na Carolina do Norte que estava aberto a "qualquer grande ideia" que os republicanos possam oferecer a respeito da criação de empregos.

AP
(Da esq. para dir.): Pré-candidatos republicanos Herman Cain, Mitt Romney e Rick Perry participam de debate em Las Vegas (19/10)

Em poucos segundos, os dedos de Brad Dayspring, assessor de Cantor, tocaram rapidamente o teclado, como se sob o efeito de cafeína. "Obama diz que está aberto a qualquer ideia ‘séria’ do GOP", digitou Dayspring, o agressivo porta-voz de Cantor, republicano de Virgínia que atua como líder da maioria na Câmara, em uma mensagem no Twitter. "Aqui temos 15 projetos de lei para a criação de empregos parados no Senado com os quais ele pode começar".

Ele colou um link do blog de Cantor, clicou no botão de enviar e sentou-se numa cadeira ligeiramente satisfeito. Menos de um minuto se passa entre o momento em que Obama – ou um membro do alto escalão de seu governo – faz um discurso, concede uma entrevista coletiva ou diz algo a um apresentador de programa de entrevistas, e uma equipe de jovens funcionários da Câmara Republicana, movidos a pizza e partidarismo, retrucam online.

É uma espécie de virada de mesa para Obama, cuja campanha de 2008 aproveitou magistralmente as redes sociais atordoando os republicanos. Agora, depois de uma ordem pós-eleitoral do oradora John A. Boehner, os republicanos adotaram o Twitter como um microfone que usam para passar a sua mensagem contra o megafone da Casa Branca.

A insta-tweet revolucionou as operações de resposta rápida que há apenas dois anos atrás dependia fortemente da televisão a cabo, de emails e coletivas de imprensa para espalhar a palavra da oposição, que muitas vezes demorava um dia ou dois para ganhar impulso. Aquele intervalo de tempo poderia atrasar a relevância da mensagem, algo que os republicanos estavam ansiosos por desfazer.

"No atual cenário, minutos contam muito", disse Dayspring, que tem a ajuda de seu colega Brian Patrick, administrador do blog de Cantor e um perito em Twitter, que é conhecido como Boomer por sua capacidade de bombear multidões republicanas, na publicação de mensagens no microsite. "Agora atuamos o tempo todo como em um ambiente de campanha", disse Dayspring.

Como candidato, Obama fez uso produtivo do Facebook, MySpace e seu site como instrumentos de divulgação e organização. Através das mídias sociais, dinheiro foi arrecadado, voluntários foram reunidos, eventos foram divulgados e vídeos do candidato se tornaram virais em instantes. Seu rival republicano, o senador John McCain, do Arizona, foi surpreendido na mesma arena - embora ele tenha sido um usuário fiel do Twitter desde então. Daquela experiência nasceu uma lista de cerca de 13 milhões de usuários do Twitter, como as famosas listas republicanas de envio de emails do passado.

Em um retiro em janeiro de 2009, onde os republicanos derrotados lambiam suas feridas, Boehner disse a seus colegas que eles precisavam "pensar sobre o potencial das novas mídias", segundo uma cópia de seus comentários. Ele encorajou os membros e os seus funcionários a se inscrever imediatamente no YouTube e Twitter, como ele fez. Sem o controle do plenário da Câmara, essas ferramentas se tornaram a principal via para os republicanos passarem sua mensagem e reconquistar o controle da Câmara. Agora, essas são suas armas de repetição.

Membros republicanos da Câmara tem mais que o dobro de seguidores que seus colegas democratas – cerca de 1,3 milhão, contra aproximados 600 mil – e são muito mais ativos no Twitter, com mais de 157 mil mensagens na plataforma, contra cerca de 62 mil dos democratas.

"Uma vez que os republicanos agem em conjunto, eles são realmente bons em se organizar", disse Andrew Rasiej, fundador Personal Democrazy Media, grupo que estuda como a tecnologia está mudando a política. Os republicanos na Câmara estão usando a tecnologia "a fim de enfraquecer o poder da Casa Branca em um novo ambiente de mídia política que se beneficia da velocidade", disse ele.

Mas se os oficiais da Casa Branca adotassem uma hashtag para definir os esforços da oposição no Twitter, ele seria: #poucoimpressionante.

"Os republicanos no Congresso estão usando a tecnologia das novas mídias para competir pela atenção dos repórteres", disse Josh Earnest, vice-secretário de imprensa da Casa Branca. "Nós usamos essa ferramenta para competir pela atenção do povo americano", disse, apontando para fóruns interativos que a Casa Branca conduz. "Esses são dois objetivos diferentes."

Em uma reunião diária no gabinete de Boehner, a equipe de comunicação decide o que deve ir para o Twitter e para os blogs, disse Don Seymour, o diretor de comunicações digitais do orador. Ele se senta em uma mesa com um computador para o seu email e outro monitor para o seu Tweet Deck, seu iPad no colo e uma Coca-Cola na mão. Meia dúzia de televisões mostram várias emissoras, além da Câmara e do Senado – tudo para que saibam quando algo pede uma reação instantânea.

Se assim for, há uma reprodução rápida do vídeo para verificar o que foi dito, uma pesquisa rápida – determinar como a declaração pode ser inconsistente com outras anteriores é algo muitas vezes vetado pelos formuladores de políticas – então uma resposta é publicada, muitas vezes em poucos minutos.

Esses esforços são muitas vezes coordenados com assessores dos comitês quando uma questão relevante pode ser o centro do debate do dia. "O que o torna eficaz é que ele trabalha em conjunto com o resto", disse Seymour.

Recentemente, quando o deputado Sander M. Levin, de Michigan, o principal democrata no Comitê de Formas e Meios, disse durante uma reunião que os republicanos não tinham uma agenda de trabalho, Patrick do escritório de Cantor lembrou que Levin tinha chamado um projeto de lei bipartidário de comércio livre de um "projeto de lei de empregos" durante um debate. Isso virou conteúdo no Twitter e em emails a partidários em questão de 15 minutos. "Nós fazemos pesquisas durante todo o dia", disse Patrick.

Reuters
Presidente Barack Obama faz discurso na escola Greenville County, no Estado da Virginia (18/10)

Na noite do discurso de Obama perante o Congresso sobre a questão do emprego, no mês passado, os republicanos da Câmara escreveram em seus blogs e no Twitter antes, durante e logo após o discurso. Eles analisaram números, desacreditaram programas e apresentaram áreas de compromisso, sempre com links. Isso criou um eco imediato, apesar de ter começado basicamente com republicanos da Câmara conversando entre si. Mas o objetivo e a esperança é que a mensagem seja retuitada por jornalistas influentes, blogueiros ou pelo site Drudge Report.

Membros da equipe tendem a ter a confiança de seus chefes de que são tão profissionais nas redes sociais quanto seriam em um comunicado à imprensa. Muitos desses chefes deixam seus funcionários alimentar suas próprias contas no Twitter.

Na segunda-feira, os republicanos usaram o slogan de Obama para seu projeto de criação de empregos, "We Can’t Wait” (Nós Não Podemos Esperar, em tradução literal), e começaram a usar a hashtag #WeCantWait para criticá-lo no Twitter, destacando que a Câmara aprovou uma legislação anti-regulamentação que ainda não passou pelo Senado.

Ainda assim, Obama tem mais de 10 milhões de seguidores no Twitter, e sua equipe, como o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, são conhecidos por retrucar no Twitter – como na briga entre Carney e Brendan Buck, porta-voz de Boehner, sobre o plano para a criação de empregos de Obama ter se tornado o assunto de um relatório noticiário noturno.

Além disso, organizações de esquerda como a Moveon.org e a Think Progress são amplamente vistas, mesmo entre os republicanos, como à frente dos conservadores nas novas mídias.

À medida que a campanha de 2012 se aquece, as disputas políticas que costumavam acontecer na mala direta e nos anúncios de televisão devem migrar para o Twitter. "Essa é a primeira vez que ambos os partidos têm pessoas na equipe voltadas especificamente para as mídias sociais e dispostas a usá-las", disse Rasiej, da Personal Democracy Media. "Não serão tanques contra a cavalaria agora. Ambos os lados têm tanques, ambos os lados têm caças e ambos os lados podem ter bombas nucleares."

Por Jennifer Steinhauer

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