Darwin aos 200: a contínua força de uma ideia não convencional

Eu não consigo deixar de imaginar o que Charles Darwin pensaria se pudesse analisar sua conquista intelectual hoje, 200 anos depois de seu nascimento e 150 anos depois da publicação de A Origem das Espécies, o livro que mudou tudo.

The New York Times |

Sua ideia central ( evolução através da seleção natural ) foi de certa forma fruto de sua época, como Darwin sabia bem. Ele era neto de Erasmus Darwin, que percebeu que havia algo errado na noção tradicional de espécies fixas. E sua teoria foi apressada à impressão e a uma apresentação conjunta pelas descobertas independentes de Alfred Russel Wallace do outro lado do mundo.


Darwin é o pai da teoria da evolução / AFP

Mas a teoria de Darwin foi produto de anos de paciente observação. Nós adoramos acreditar na ciência por intuição, mas o trabalho de cientistas de verdade é testar rigorosamente suas epifanias depois que elas foram traduzidas em hipóteses funcionais. A maior parte da vida de Darwin foi dedicada à reunião de evidências para tais testes. Ele escreve com um ar inconcluso porque estava ciente de que seria necessário o trabalho de muitos cientistas para confirmar sua teoria em detalhes.

Eu duvido que muito da história que sucedeu a ideia de Darwin o teria surpreendido. As descobertas mais importantes (a genética de Mendel e a estrutura de DNA) certamente o teriam gratificado porque revelam a base física para a variação que permeia a evolução. Seria gratificante para ele ver suas ideias testadas com tamanho cuidado e muitas delas confirmadas. Ele não poderia ter esperado estar certo com tanta frequência.

Talvez um dia não chamemos a evolução de "Darwinismo". Afinal de contas, não chamamos a mecânica clássica de "Newtonismo". Mas isso também gera questões sobre a possibilidade da existência de um Einstein biológico, alguém que demonstre que a teoria de Darwin é um caso limitado.

O que Darwin propôs não eram fórmulas matemáticas imutáveis. Era uma teoria de história biológica que por si mesma estrutura a história. O fato dos detalhes terem mudado não invalida sua conquista. Na verdade, a amplia. Suas palavras não foram escritas com o objetivo de se tornarem uma escritura rígida. Elas foram feitas para serem testadas.

Quanto ao outro destino do chamado Darwinismo ( a controvérsia do reducionismo gerada por conservadores religiosos ) bem, Darwin também sabia bastante a respeito disso. A oposição cultural à evolução era naquela época, como agora, cientificamente irrelevante. Talvez a persistência da oposição à evolução seja um lembrete de que a cultura não é biológica, ou talvez pudéssemos ter evoluído para além destas sensibilidades irritadiças. De certa forma, nossa falha peculiarmente americana em aceitar a teoria de Darwin e o que ela se tornou desde 1859 é um sinal de algo mais amplo: nossa falha em aceitar a ciência e o ensino da ciência.

AFP
Charles Darwin
Charles Darwin

Darwin não se assemelha à ideia que temos de um cientista. Do século 21, ele tem mais semelhanças com um naturalista amador como Gilbert White no século 18. Mas isso não passa de uma interpretação visual.

O patrocínio de Darwin era privado, seus hábitos eram reclusos e ele não tinha o tipo de apoio institucional que associamos com a ciência porque isso não existia naquela época. Mas a extensa correspondência científica de Darwin deixa claro que ele não era intelectualmente recluso e que entendia o caráter da ciência como era então praticada.

As viagens de Darwin

Hoje em dia esperamos que uma criança obcecada com besouros encontre espaço em uma universidade ou laboratório ou museu. Mas a vida de Darwin era um museu, e ele era seu próprio curador. Em junho de 1833, no começo da viagem de cinco anos do Beagle, ele escreveu sobre contornar o Cabo Horn: "É um grande espetáculo ver toda a natureza assim revolta; mas os Céus sabem que todos no Beagle viram o suficiente este verão para que lhes dure toda sua vida natural". (Na mesma carta, ele comemora o ataque parlamentar contra a escravidão na Inglaterra.)

O resto da vida de Darwin girou em torno daquela viagem. Quando se observa as anotações e cartas e publicações geradas pelos anos no Beagle, pode-se começar a entender quão cuidadosa, inquisidora e variada sua mente era. A viagem do Beagle (e de um jovem naturalista que tinha 22 anos na época) ainda é uma das mais interessantes histórias da ciência. 

Darwin retrocede, mas sua ideia não. Ela foi absorvida, com adaptações, na fundação das ciências biológicas. Em um sentido muito real, ela é a pedra fundamental do que sabemos sobre a vida na Terra.

A versão de Darwin desta grande ideia pertencia muito a seu tempo, e ainda assim todo seu tempo ficou contra ela. De uma perspectiva, Darwin parece completamente convencional (branco, homem, bem nascido, estudado). Mas de outro, ele transformou a sorte de suas circunstâncias em uma ideia nada convencional: a que mostrou aos humanos seus verdadeiros ancestrais na natureza...

- VERLYN KLINKENBORG

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