Da segurança de NY, estrangeiros escrevem sobre países de origem

Distante de casa, jornalistas que vivem no exílio nos EUA usam internet para publicar notícias sem correr riscos

The New York Times |

Quando aparece uma notícia quente na Nigéria, Omoyele Sowore está lá. Seu site de notícias foi o primeiro a publicar uma foto do nigeriano conhecido como " terrorista da cueca ", preso em dezembro de 2009 acusado de tentar explodir uma bomba em um avião nos EUA. Ele foi o primeiro a publicar reportagens e fotos sobre a explosão em um prédio da ONU em Abuja, a capital. Em abril, durante a eleição presidencial , ele publicou fotos, vídeos e relatos em tempo real, expondo casos de fraude eleitoral e atraindo mais de oito milhões de visitantes em um mês.

Sowore, 40, não trabalha em Abuja ou Lagos, mas em um escritório desordenado no sétimo andar de um prédio em Manhattan, em Nova York, nos EUA. Armado com um laptop e um servidor, ele estabeleceu seu site, o Repórteres do Saara, como um importante veículo na imprensa nigeriana, apesar de estar a milhares de quilômetros de distância.

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De Nova York, Omoleye Sowore publica notícias sobre seu país de origem, a Nigéria (13/10)

Ele é parte de um número crescente de jornalistas que vivem no exílio em Nova York e aproveitam a tecnologia barata e fácil de publicação na rede e o acesso crescente à internet no mundo em desenvolvimento para divulgar notícias.

Um recente relatório do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, organização dedicada à promoção da liberdade de imprensa, contabilizou pelo menos 649 jornalistas de todo o mundo forçados ao exílio durante a última década. Destes, 91% não podem voltar para casa e apenas 22% trabalha na profissão. Entre eles estão repórteres de ditaduras como Cuba, mas também de lugares como Rússia e México – democracias onde trabalhar como repórter em busca da verdade pode ser perigoso.

Na Nigéria, "agora que temos, por assim dizer, uma democracia, seria de se esperar que a mídia fosse mais vibrante, mas acontece exatamente o oposto", disse Sowore em uma entrevista. "Não é tanto um problema de liberdade de expressão, mas de liberdade após a expressão", afirmou, " Você pode dizer um monte de coisas na Nigéria, mas a questão é: será que você ainda será uma pessoa livre? Você ainda estará vivo depois de se expressar livremente?"

Sowore cresceu em uma pequena vila às margens do delta do rio Niger, onde, segundo ele, funcionários corruptos do governo colhem os benefícios da riqueza em petróleo da região ao fazer pouco para melhorar a vida de seus moradores empobrecidos. Essa experiência o levou a se tornar um líder entre ativistas contra o governo quando estudava na Universidade de Lagos, algo que o levou a ser perseguido, sequestrado e torturado nas mãos da polícia pró-governo.

Em 1999 ele participou de uma conferência de paz na Universidade Americana em Washington. Colegas ativistas recomendaram que ele procurasse ajuda nos Estados Unidos para as sequelas psicológicas e um colega o colocou em contato com o Programa Bellevue para sobreviventes de tortura, da Universidade de Nova York, uma iniciativa que ajuda as vítimas a reconstruir sua saúde física e mental. Ele planejava voltar para a Nigéria, mas os médicos aconselharam que adiasse um retorno imediato. Em vez disso, ele buscou asilo político nos Estados Unidos e se matriculou como estudante de pós-graduação em administração pública na Universidade de Columbia. Frustrado com a distância de sua terra natal, ele logo percebeu que o seu retorno ao ativismo político nigeriano poderia acontecer online.

"Sempre fui um amante da mídia", disse Sowore, relembrando um cenário midiático relativamente robusto no período em que a junta militar liderava a Nigéria entre 1983 e 1998. "Esses caras eram então realmente ousados, publicavam o que queriam e não tinham medo dos militares."

Em 2004, Sowore e Jonathan Elendu, um colega de exílio da Nigéria que vive em Michigan, criaram uma publicação online chamada Reports Elendu. Eles se concentraram principalmente nas atividades questionáveis de políticos nigerianos no exterior, publicando fotografias de casas extravagantes e coleções de carros de luxo, alegadamente comprados com dinheiro ganho com corrupção.

Na Nigéria, seus relatos inflamaram uma indignação generalizada. A imprensa nacional poderia estar intimidada demais para relatar a corrupção, mas Sowore e Elendu estavam livres da violência patrocinada pelo governo.

Enquanto isso, o acesso à internet aumentava na Nigéria – o Banco Mundial estimou que a Nigéria tinha quase 44 milhões de usuários de internet em 2009, contra menos de 1 milhão em 2003. Em vários casos, seus artigos levaram à prisão de políticos proeminentes.

"Aquilo foi crescendo e crescendo à medida que avançávamos", disse Sowore. "As pessoas na Nigéria achavam que tínhamos algum tipo de magia, porque sempre encontrávamos essas histórias. Mas estávamos apenas seguindo o dinheiro e ninguém era capaz de nos parar."

Sowore disse que teve uma briga com Elendu em 2006 (que não pôde ser contatado para comentar o assunto). Elendu continuou com seu site, mas Sowore logo abriu o Repórteres do Saara, um nome que buscava simbolizar seu desejo de "criar uma tempestade em toda a Nigéria" a partir do porão de sua casa em Englewood, Nova Jersey. Usando uma rede de contatos nos Estados Unidos e na Nigéria, ele continuou a reportar a corrupção, mas também passou a publicar notícias quentes.

Logo, repórteres em Lagos começaram a enviar ao site histórias controversas que seus próprios editores haviam recusado. Sowore tem o prazer de publicá-las, protegendo os nomes dos repórteres quando necessário, para sua proteção.

"Nossos repórteres têm uma camada de proteção que não podem ter na Nigéria, onde a polícia pode prendê-los e atormentá-los", disse Sowore. "Eles não podem bombardear nossos escritórios. Eles não podem fazer com que a polícia feche nossas portas."

Em 2008, com o apoio financeiro da Fundação Ford e da Rede de Informação Global, uma organização independente sem fins lucrativos focada nas notícias do mundo em desenvolvimento, Sowore mudou suas operações para Manhattan, embora ele também trabalhe em sua casa, em seu carro, em cafés ou onde quer que esteja quando uma história chega do outro lado do Atlântico.

Sua jornada de trabalho muitas vezes começa à meia-noite de Nova York, quando a Nigéria acorda e ele começa a verificar dicas recebidas por telefone e email.

Em contraste com Sowore, "a maioria dos jornalistas não consegue contribuir do exílio", disse Lonnie Isabel, diretor do Programa Internacional de Reportagem da Escola de Jornalismo da Universidade da Cidade de Nova York.

"É uma transição muito difícil", disse ele. "Há uma língua a dominar, novas tecnologias com as quais lidar e muitas outras barreiras."

Para reforçar o corpo de imprensa in absentia, Isabel ajudou a fundar o Programa de Residência do Jornalista Internacional da Universidade da Cidade de Nova York, uma iniciativa conjunta com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas que concede a um repórter internacional completo acesso aos recursos da escola de jornalismo.

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De Nova York, Roozbeh Mirebrahimi traduz notícias internacionais sobre o Irã para o persa (13/10)

A residente de 2010 foi Sonali Samarasinghe, uma jornalista do Sri Lanka cujo marido, também jornalista e crítico ferrenho do presidente Mahinda Rajapaksa, foi assassinado em 2009. Samarasinghe fugiu imediatamente após receber ameaças de morte.

Aulas de tecnologia digital e jornalismo empresarial a ajudaram a se preparar para abrir o seu próprio site, o Lanka Standard. Em seus primeiros três meses, o site recebeu 65 mil visitantes, disse ela, muitos deles do Sri Lanka.

A mais nova jornalista em residência é Agnes Taile, 31, uma repórter de Camarões que passou vários anos escrevendo sobre corrupção e abusos dos direitos humanos na região norte de seu país antes de receber ameaças de morte e fugir em 2009. Este ano ela começou o Le Septentrion Info, um site de língua francesa dedicado a notícias da região. Ela espera em breve expandir o site e adicionar uma versão em inglês.

Roozbeh Mirebrahimi, outro ex-aluno do programa, trabalhou por 10 anos como repórter e editor no Irã e foi um dos primeiros jornalistas do país a manter um blog. Em 2004 ele foi preso e mantido em confinamento solitário durante dois meses, até que concordou em escrever uma confissão pública dizendo que era um espião. Em 2006 ele deixou o país e desembarcou no Brooklyn.

O site de Mirebrahimi, o Iran da Jahan (O Irã no Mundo, em tradução livre), apresenta algumas reportagens originais, mas sua principal missão é traduzir notícias internacionais sobre o Irã para o persa, para que os leitores iranianos possam saber o que a imprensa mundial tem a dizer sobre seu país.

O Irã tinha 28 milhões de usuários da rede em 2009, de acordo com o Banco Mundial, a maior participação do Oriente Médio. E embora o governo bloqueie o acesso ao Iran da Jahan, muitos iranianos são adeptos do uso de servidores proxy para obter acesso a sites proibidos.

Mirebrahimi, que foi condenado in absentia por um tribunal iraniano a dois anos de prisão e 84 chicotadas, disse que seu site recebe cerca de 70 mil visitantes por mês.

"Seria impossível fazer esse tipo de trabalho dentro do Irã", disse ele. "Nova York tem sido um ótimo lugar para trabalhar, porque existem muitos recursos e porque a comunidade é tão acolhedora aos imigrantes de todo o mundo."

É claro que o sonho de cada um desses editores distantes é causar tamanha mudança política em seus países que um dia possam abandonar o exílio e voltar para casa.

"Certamente espero publicar o Repórteres do Saara na própria Nigéria um dia", disse Sowore. "Parte do que estamos fazendo agora é lutar por um espaço para fazer isso legitimamente, aumentar nossa influência até o ponto em que será inútil lutar contra nós."

Por Brendan Spiegel

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