Cuspidas equivalem à folga remunerada em Nova York

Motoristas de ônibus tiram férias ao descobrir que a saliva pode ser uma arma; das agressões de 2009, um terço "envolveu cuspe"

The New York Times |

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Motorista de ônibus para perto da Primeira Avenida em Nova York (23/12/2005)
Pode ser por causa dos cortes no sistema de transportes da cidade ou por um declínio geral na civilidade urbana. Talvez as pessoas estejam apenas de mau humor coletivo. O que mais poderia explicar por que os nova-iorquinos - notoriamente insensíveis às dificuldades do cotidiano na cidade - têm cuspido em motoristas de ônibus?

De todas as agressões que justificaram afastamentos remunerados em 2009, um terço delas, 51 no total, "envolveram cuspes", de acordo com estatísticas divulgadas na segunda-feira pela Autoridade de Transporte Metropolitano.

Nenhuma arma esteve envolvida nesses episódios. "Apenas o cuspe", disse Carlos Seaton, porta-voz do órgão de trânsito da cidade de Nova York.

E os incidentes, ainda que perturbadores, parecem ter um resultado surpreendente: os 51 motoristas que receberam férias remuneradas após serem alvo de cuspidas por passageiros tiveram em média 64 dias de afastamento do trabalho - o equivalente a três meses de salário. Um motorista, que não foi identificado pelo órgão de trânsito, teve 191 dias de férias remuneradas.

Funcionários da instituição, que enfrenta um corte de US$ 400 milhões no orçamento, dizem que o número é preocupante. "Temos de analisar o que faremos sobre isso", disse Joseph Smith, que supervisiona as operações de ônibus na cidade de Nova York.

O cuspe está na categoria de agressões incluída no contrato que os motoristas assinam com a Autoridade de Transporte Metropolitano, e seu sindicato representante afirma que as ausências prolongadas são justificadas. "Ser cuspido - ter um passeiro cuspindo no seu rosto - é uma experiência física e psicologicamente traumatizante", disse John Samuelsen, presidente do sindicato.

A sensibilidade têm aumentado desde 2008, quando Edwin Thomas, um motorista de ônibus do Brooklyn, foi apunhalado até a morte por um passageiro após uma discussão sobre a tarifa. Em resposta, o órgão de trânsito ofereceu treinamento aos motoristas para evitar situações de conflito. Divisórias de plástico também foram testadas, mas ainda não se chegou a um projeto final.

Ainda assim, os ataques com cuspe têm aumentado. Mais de 80 motoristas relataram incidentes no último ano, disse a autoridade.

Evitar esse tipo de incidente pode ser difícil. Quase nenhuma prisão foi feita de alguém que cuspiu em um motorista, disse Smith, que constatou que o policial "precisa testemunhar o cuspe para poder notificar o agressor". Outras cidades, incluindo Londres, optaram por uma solução diferente: coletar o DNA de quem cospe.

* Por Michael M. Grynbaum

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