Currículo de americano condenado à morte no Irã pode ter levantado suspeitas

Amir Hekmati era principal contato de empresa de videogames que produziu o jogo Assault on Iran, que simulava ataque dos EUA no Irã

The New York Times |

A empresa Kuma Games, que tem sede em Nova York e desenvolve jogos de guerra virtual baseados na realidade - incluindo um chamado Assault on Iran, ou Ataque ao Irã em tradução livre - listou como seu principal contato, em um contrato de formação linguistíca feito com o Pentágono, Amir Mirzaei Hekmati, o ex-fuzileiro naval de Flint , Michigan, que agora está no corredor da morte em uma prisão iraniana , condenado por espionagem para a CIA.

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AP
Imagem da TV iraniana mostra Amir Mirzaei Hekmati, condenado à morte por espionagem (27/12/11)

O contrato de US$ 95,920, a formação militar de Hekmati, sua herança iraniana e alguns trabalhos de linguística que realizou para a Agência de Pesquisa Avançada em Projetos de Defesa, ajudam a explicar por que as autoridades iranianas, cada vez mais paranóicas e beligerantes a respeito de ameaças dos Estados Unidos, mandaram prendê-lo em agosto passado, enquanto ele visitava o Irã pela primeira vez.

Sua família, traumatizada com a notícia, afirmou a inocência de Hekmati, dizendo que estava apenas visitando parentes e caracterizando o julgamento como um equívoco grave. Mas a condenação e sentença de morte de Hekmati, 28, anunciada na segunda-feira, se transformou em uma extensão da já tensa relação entre o Irã e os Estados Unidos

A família de Hekmati - seu pai, Ali, é professor de microbiologia e sua mãe, Behnaz, é contadora - não respondeu a pedidos de entrevistas e encaminhou todas as perguntas sobre o caso a uma empresa de relações públicas. Seus três irmãos - uma irmã mais velha, uma irmã gêmea e um irmão mais novo - também não quiseram fazer comentários.

"Eles não querem dizer nada que possa ter repercussões negativas", disse Michael Kelly, porta-voz da Faculdade Comunitária Mott, localizada em Flint, onde o pai de Hekmati leciona. "Algo que parece inofensivo aqui pode ser interpretado de uma maneira diferente lá."

A família também pode estar agindo de acordo com os conselhos de seu advogado, Pierre-Richard Prosper, um ex-diplomata que negociou com sucesso a liberdade de outro americano de ascendência iraniana preso no Irã em 2010.

Mas os registros do serviço militar de Hekmati e seu trabalho corporativo – e a maneira como a mídia iraniana retratou sua acusação e confissão televisionada – dá uma ideia de como ele acabou envolvido na atual crise do Irã.

"Ele pode ter sido apenas uma pessoa inocente que queria visitar o Irã e recebeu garantias de que nada lhe iria acontecer", disse Hadi Ghaemi, diretor-executivo do grupo Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã. "É bem possível que eles estivessem apenas esperando a próxima vítima."

Enquanto a CIA não quis comentar sobre a detenção de Hekmati, pessoas bem informadas sobre as suas práticas de recrutamento dizem que é altamente improvável que a agência teria contratado alguém com um currículo militar tão óbvio quanto o dele. Hekmati serviu na Marinha durante quatro anos, passou cinco meses no Iraque e fez treinamento em linguística árabe no Instituto de Linguagem de Defesa, em Monterey, na Califórnia. Ele também carregava consigo sua identificação de ex-militar quando foi preso no Irã - um comportamento atípico para um espião.

No entanto, os investigadores iranianos devem ter ficado intrigados com seu currículo linguístico pós-militar. Em 2006 ele fundou sua própria empresa, a Lucid Linguistics, se especializando na tradução de documentos em árabe, persa e "assuntos militares", segundo sua página na internet.

"Nosso objetivo principal é auxiliar organizações cujo foco é a atual guerra global contra o terrorismo e que estão trabalhando para superar a barreira da língua das nossas Forças Armadas no Iraque e no Afeganistão", diz o site.

Possivelmente, o mais intrigante para os iranianos foi um trabalho feito alguns anos mais tarde por Hekmati enquanto ele trabalhava para a Kuma Games, que se especializa em recriar confrontos militares que permitem aos jogadores participar de jogos baseados em fatos reais. O chefe executivo da empresa, Keith Halper, não respondeu a pedidos para comentar o assunto.

De acordo com um documento publicado na internet por uma empresa de pequeno porte, Hekmati foi responsável pela Kuma ter ganho o contrato com o Departamento de Defesa para desenvolver "um conjunto de ferramentas eficazes, a um bom custo-benefício e de fácil implementação, que têm uma linguagem fácil para serem usadas por treinadores e soldados ao redor do mundo."

A Kuma é bem conhecida no Irã pelo jogo de 2005 em que recriou um suposto ataque dos Estados Unidos ao país. O site da empresa, descrevendo a grande demanda por esse jogo, o Assault on Iran, afirma se tratar apenas de um exercício "simulando um ataque dos Estados Unidos a uma instalação nuclear iraniana." Desenvolvedores do Irã responderam com sua própria versão do jogo.

Mesmo que Hekmati não tenha tido nada a ver com o jogo, relatos da mídia iraniana falam a respeito de sua suposta confissão, que inclui uma passagem em que ele afirmou em persa que havia sido recrutado pela Kuma, "uma empresa de jogos de computador que recebeu dinheiro da CIA para projetar e lançar jogos destinados a mudar a opinião pública no Oriente Médio e distribui-los entre os moradores da região gratuitamente.

"O objetivo da Kuma Games é convencer as pessoas do mundo e do Iraque de aquilo que os Estados Unidos fizeram ali e em outros países deveria ser aceito como algo positivo."

Por Rick Gladstone e Steven Yaccino

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