Curiosidades sobre supostos espiões russos começam a surgir

Acusados pelos EUA de espionar para Rússia, supostos agentes levavam vida comum nos subúrbios americanos

The New York Times |

Uma delas explicou seu sotaque russo dizendo que era belga. Ela consultou uma paisagista que achou estranho o fato da sala da casa estar cheia de pilhas de madeira, mas pensou que o marido fosse carpinteiro e que faria algum móvel com o material.

Outro colocou um Papai Noel inflável sobre uma motocicleta no jardim da frente perto do Natal, um toque kitsch em um bairro de ruas íngremes majestosas, e mantinha dois schnauzers no quintal. O homem disse a um vizinho que os cães eram uma lembrança de seus anos na América do Sul, quando uma invasão domiciliar havia deixado sua mulher traumatizada.

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Fotos divulgadas pela imprensa americana mostram a suposta espiã Anna Chapman em locais turísticos de Nova York, como região de Times Square
Outra parecia pertencer à tribo do laptop-com-café, matando o tempo em um café de Manhattan, Nova York, - só que ao invés de escrever mais um capítulo do Grande Romance Americano, ela transmitia mensagens para uma van suspeita que transitava pela rua em frente. Mais tarde, quando comprou um celular, ela disse a um funcionário da loja da operadora Verizon que seu endereço era "Rua Falsa, 99".

Eles pareciam tão normais, comprando casas nos subúrbios, levando seus filhos ao ponto de ônibus na parte da manhã, trazendo flores para casa à noite, dizendo aos vizinhos que trabalhavam em indústrias da moda como a de serviços financeiros. Mas o Departamento de Justiça dos EUA diz que eles eram espiões russos disfarçados e que sua missão era entrar nos "círculos de decisão política" dos Estados Unidos.

Dois dias após a prisão dos supostos espiões, ainda não está claro quais segredos eles conseguiram descobrir. As acusações não incluem espionagem. Os 10 suspeitos foram acusados de não se registarem como agentes estrangeiros.

Thriller policial

A história tem todos os elementos de um thriller policial ou, considerando alguns dos detalhes descritos nos documentos judiciais, uma comédia sobre pessoas que tinham passaportes falsos e usavam linguagem em código.

Os suspeitos aprenderam gírias americanas para se comunicar - o suficiente, pelo menos, para começar com a frase "Tudo legal". Eles também aprenderam a recitar frases que apenas outro espião conseguiria reconhecer e responder, apesar de algumas terem sido infiltradas por um agente do FBI que fingia ser um funcionário do consulado russo em Nova York.

O agente secreto do FBI disse a uma das suspeitos, a russa Anna Chapman, que procurasse por alguém que falasse a frase "Desculpe, mas não nos encontramos na Califórnia no ano passado?", em um encontro a respeito de passaportes. "E você vai responder: 'Não, eu acho que foi em Hamptons'", instruiu o agente do FBI.

O governo americano afirmou que todos os suspeitos trabalhavam para a SVR, agência sucessora da KGB soviética. E apesar de tudo o que sabiam sobre a tecnologia de espionagem - e o Departamento de Justiça diz que sabiam muito - eles foram bem instruídos a evitar chamar atenção.

Eles usaram nomes comuns: Sra. Chapman, de Manhattan, Sr. e Sra. Foley, de Cambridge, Massachusetts, casal Murphy, de Montclair, Nova Jersey, onde jovens vizinhos perceberam que eles iriam colocá-los sob os holofotes. No Facebook, Joelle Capone, 12, escreveu: "Meus vizinhos foram detidos por espionarem para a Rússia!! Eu vou ficar famosa na TV!!!!"

Casal de latinos entre os suspeitos

E, na cidade de Yonkers, no Estado de Nova York, havia Vicky Pelaez e Juan Lázaro. Ela era colunista do El Diário-La Prensa, o jornal de língua espanhola de Nova York, e tinha recebido elogios em seu país natal, o Peru, como repórter de televisão. Um colega do El Diário-La Prensa, onde funcionários disseram que não estão autorizados a falar sobre o caso, disse que a Sra. Pelaez havia escrito comentários críticos sobre a política externa americana.

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Waldomar Mariscal, um dos filhos de Vicky Pelaez e Juan Lázaro, conversa com jornalistas na porta da casa da família em Yonkers
O Sr. Lázaro ministrava um curso de política da América Latina e Caribe na Faculdade Baruch e seus alunos disseram que ele era um professor como nenhum outro. O motivo? Sua denúncia apaixonada da política externa americana. Ele sustentava que as guerras no Iraque e Afeganistão foram uma manobra para fazer dinheiro para a América corporativa. Ele elogiava o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, e desacreditava o presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, como peão usado por grupos paramilitares que têm amplo controle sobre o tráfico de drogas.

"Ele nos desafiava intelectualmente", disse um estudante que se formou em maio. "Ele criticava muito o que acontece nos Estados Unidos e é isso que eu acho que deixava algumas pessoas indignadas".

Alguém estava tão chateado que ele ou ela se queixou sobre o Sr. Lázaro, disseram os estudantes, acrescentando que ele foi demitido no final do semestre. Alguns alunos assinaram uma petição buscando a sua reintegração, mas não adiantou.

Thomas Halper, presidente do departamento de ciência política na Baruch, disse que o Sr. Lázaro tinha sido contratado como professor auxiliar "na última hora" para o ano letivo de 2008-09. Ele lecionou por um semestre, porque as suas aulas não estavam à altura da instituição, Dr. Halper disse. Ele acrescentou que não se lembrava de qualquer burburinho sobre a visão anti-americana do Sr. Lázaro ou de uma petição dos alunos para mantê-lo na faculdade.

"Nós pedimos que uma terceira pessoa observasse a sua aula e ela não achou que ele não fazia um trabalho muito bom", Dr. Halper disse, observando que todos os novos adjuntos são monitorados.

O El Diário citou o filho de 17 anos de idade do casal dizendo que os agentes federais que prenderam seus pais o tinham interrogado sobre suas filiações políticas e suas finanças - e sobre a possibilidade de haver esconderijos na casa.

"Eles sabiam meu apelido", ele disse ao El Diário. "Eles sabiam absolutamente tudo". Eles sabiam que ele é um aspirante a pianista que estava pensando em se inscrever em uma escola de música, disse, acrescentando: "Eles me perguntaram se eu tinha olhado conservatórios na Rússia, se eu falava russo ou alemão".

Um vizinho disse que eles nunca varriam as folhas do quintal, algo considerado ruim entre os suburbanos que se orgulham do paisagismo limpo. Mas eles tentavam agir direito quando havia problemas: um vizinho disse que quando um galho de uma das suas árvores caiu no seu quintal, a Sra. Pelaez passou para pedir desculpas e chegou a contratar alguém para remover o galho.

O Casal Murphy

O casal Murphy, de Montclair, também se encaixava direitinho no cotidiano suburbano americano. Quando eles se mudaram há mais de um ano, disseram às pessoas que tinham vivido em Hoboken, Nova Jersey. A mudança para Montclair, eles garantiram a seus chefes em Moscou, era "apenas uma progressão natural de nossa longa permanência aqui. Era uma maneira conveniente de resolver o problema habitacional, além de 'fazer como os romanos' em uma sociedade que valoriza a posse de imóveis".

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Vizinhos são vistos do lado de fora da casa dos supostos agentes da Rússia Richard e Cynthia Murphy em Montclair, New Jersey

Não que eles sejam os donos da casa: "Nós não esquecemos que a casa foi comprada em nomes fictícios", a denúncia judicial cita como uma conversa entre o casal e Moscou. O imóvel custou US$ 481 mil. O casal Murphy contratou Maria Chalek para projetar o paisagismo de seu quintal, mas depois de pagar pelos projetos preliminares eles contrataram outra pessoa, disse Chalek. A Sra. Murphy explicou a Chalek que sua família tinha incorrido em algumas despesas inesperadas enquanto reformava a casa.

Chalek disse que ela havia dito a Sra. Murphy, "Recebo muitas reclamações de pessoas porque eu cobro o que eu sinto que mereço". Segundo ela, a Sra. Murphy respondeu: "Eu tenho a mesma queixa o tempo todo das pessoas quando lhes digo a mesma coisa".

Chalek disse que perguntou a Sra. Murphy que ela fazia. A Sra. Murphy respondeu que trabalhava na indústria de serviços financeiros. Ela contou a mesma coisa a Elizabeth Lapin, que mora algumas portas rua abaixo. E a Sra. Lapin disse que na semana passada havia considerado pedir aconselhamento financeiro à Sra. Murphy.

"Mas o FBI chegou primeiro ", disse ela. "Para alguém que cresceu durante a Guerra Fria, isto me parece muito estranho. É como se de repente minha infância estivesse viva a quatro portas de distância".

Foi Chalek que viu a madeira na sala. Ela descreveu o resto da casa como algo "escasso". Ela disse que a Sra. Murphy usava roupas elegantes e pegava um ônibus todas as manhãs para Manhattan, retornando por volta das 19h30. Chalek disse que acreditava que o Sr. Murphy era um pai que ficava em casa porque ela o via levando os dois filhos em idade escolar até o ponto de ônibus.

"Nós falávamos sobre jardinagem e cães e crianças", disse Corine Jones, que mora nas proximidades. "Reclamávamos de empreiteiros porque nunca fazem o trabalho direito".

Os vizinhos disseram que o FBI tomou a casa - de 15 a 20 agentes em furgões pretos. O casal Murphy foi retirado em algemas e colocado em carros separados. Os vizinhos disseram que sua filha mais nova estava em casa e a mais velha, que entra no ensino médio no outono, estava na festa de aniversário de um amigo. Ela foi conduzida para casa por um amigo quando o incursão acontecia. Ela e sua irmã mais tarde deixaram a casa carregando sacos de dormir.

* Por James Barron

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