Em meio à revolta popular, união de maior minoria étnica contra regime representaria obstáculo para presidente sírio

Em uma aldeia lamacenta batizada em homenagem a uma revolta fracassada contra as autoridades sírias, Qamishli, uma história de fuga e exílio se repete.

Ao longo dos últimos meses, dezenas de curdos começaram a fugir para o curdistão iraquiano, tentando escapar das forças de segurança e da violência que está ameaçando colocar os curdos no foco das revoltas que estão ocorrendo na Síria.

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Os curdos Radwan Madhan al-Ali, Rosif Mohammed e Sharif Suleiman, que deixaram a Síria e estão em campo para refugiados no Iraque (02/03)
NYT
Os curdos Radwan Madhan al-Ali, Rosif Mohammed e Sharif Suleiman, que deixaram a Síria e estão em campo para refugiados no Iraque (02/03)

Embora os números até agora tenham sido pequenos, os recém-chegados falam de uma possível mudança no pensamento da maior minoria ética da Síria, o que poderia alterar a força dos opositores do presidente Bashar Al-Assad bem na hora em que suas forças militares estão começando a ganhar cada vez mais o controle da situação.

Os curdos, um grupo que se queixa de ser vítima de repressão e discriminação por parte do regime de Assad, não conseguiu se unificar e se recusa a juntar-se à oposição dominada pelos sunitas, preocupados com a possibilidade de que um governo pós-Assad liderado pelos líderes das revoltas possa não ser a solução para o problema - e até mesmo ser pior que o atual governo.

Milhares de curdos - que hoje representam 10% dos 23 milhões de moradores na Síria, estiveram dispostos e ansiosos para protestar contra décadas de discriminação. Eles disseram ter sido proibidos de falar curdo nas escolas, ter perdido sua voz política e se sujeitarem a intimidações e prisões caso exigissem tratamento igual ao dos demais cidadãos.

Os curdos da Síria formaram seus próprios grupos de oposição e confrontaram as forças de segurança nas ruas. Em outubro do ano passado, cinco manifestantes foram baleados e mortos no funeral de Mashaal Tammo, um líder da oposição curda que muitos acreditam ter sido assassinado pelo governo.

Mas os ativistas curdos permanecem divididos, e por isso não são uma força muito ameaçadora para derrubar Assad. Assim como os cristãos da Síria, muitos estão profundamente desconfiados e temem que um novo governo sunita possa marginalizá-los ainda mais. Em reuniões realizadas por líderes da oposição síria, os representantes curdos brigaram sobre quais seriam os direitos, liberdades e poderes que os curdos teriam – ou que lhes seriam negados - sob um novo governo sírio.

"Os curdos na Síria têm seus próprios problemas", disse Mahmoud Othman, membro curdo do Parlamento iraquiano. "Eles são contra o regime de Assad. Eles têm sido contra já faz muitos anos. Eles não têm direitos. Mas eles não têm certeza sobre quais governadores assumirão o poder em um futuro próximo."

Assad foi capaz de manter seu poder mesmo durante o levante popular cortejando grupos minoritários da Síria que buscaram a polícia estadual como forma de proteção. Ao reconhecer o potencial perigo de uma oposição curda unificada e uma oportunidade de explorar suas divisões, Assad ofereceu direitos a milhares de curdos e convidou os líderes à mesa de negociações.

Mas Abdul Basit Sida, um líder da oposição curda, disse que a resposta brutal do governo contra as manifestações gradualmente fez com que os curdos se posicionassem contra Assad e tentassem resolver suas diferenças com os líderes da oposição.

O número de curdos refugiados hoje no Iraque – entre 100 e 500 – é muito pequeno quando comparado com os milhares de curdos que se deslocaram para outros países. A agência de refugiados da Organização das Nações Unidas (ONU) disse que não existe uma situação de emergência humanitária urgente dentro do Curdistão e que as pessoas que atravessam a fronteira tinham conseguido encontrar abrigo com os moradores.

No Iraque, os refugiados curdos são vistos como estrangeiros, acolhidos em acampamentos e nas casas de amigos da família e de parentes distantes, mas mesmo assim ainda vivem no limbo.

As autoridades curdas estão permitindo que os refugiados curdos permaneçam no país por motivos humanitários, embora se recusem a tomar partido em uma guerra civil síria que se transformou em um problema internacional.

"Não temos esperança nenhuma de voltar para a Síria neste exato momento", disse Mohammed Jafo, 26, um estudante curdo na Universidade de Damasco, que fugiu da Síria após se recusar a entrar para o Exército.

Há duas semanas, Jaffo disse que pagou um contrabandista cerca de US$ 850 para levá-lo para perto da fronteira iraquiana. Na calada da noite, andou três horas para poder cruzá-la. Aldeões iraquianos deram abrigo a ele por uma noite e depois o levaram para a força de segurança curda, o pesh merga, que o interrogou e depois o trouxe para Qamishli.

"Preciso encontrar um trabalho, preciso encontrar uma moradia", disse ele. "Não conheço ninguém aqui. Este é o meu problema."

Ele está hospedado no quarto de hóspedes de um exilado chamado Adnan Yousef, que ainda fala com muita amargura a respeito de como as autoridades sírias fizeram com que ele mudasse o seu nome curdo - Shiro - para um outro nome de origem árabe. Yousef disse que é o seu dever receber os curdos que hoje estão fugindo da Síria.

"Quando vim para cá", disse, "alguém me ajudou também."

Por Jack Healy

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