Crise no Senado ameaça paralisar governo Lula

BRASÍLIA, Brasil - O líder do Senado brasileiro, José Sarney, sofre forte pressão para renunciar ao cargo em meio a um escândalo de nepotismo e corrupção que ameaça paralisar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu último ano no cargo.

The New York Times |

O líder do Senado, José Sarney, é um ex-presidente do Brasil que tanto apoiou a ditadura quanto liderou o país em sua transição para a democracia civil. Agora ele é considerado um aliado importante de Lula, que tem planos para aprovar uma legislação contenciosa que afetará a indústria do petróleo e escolher um candidato para sua sucessão nas eleições presidenciais do próximo ano.

Mas Sarney tem sido alvo de reportagens locais dizendo que ele abusou de seu poder como senador ao conceder empregos e favores a amigos e familiares. Entre as acusações estão a permissão para que seu neto se beneficiasse de contratos governamentais, a manutenção de uma conta ilegal no exterior e a permissão para que a fundação com seu nome conseguisse cerca de US$ 250 mil em verba concedida pela companhia petrolífera nacional, a Petrobras.

Sarney, 79, se recusa a renunciar, dizendo que as acusações são falsas ou exageradas. Ele também agiu ligeiramente surpreso a respeito de preocupações com nepotismo e patronato, dizendo que sua conduta não é incomum para um senador.

"Eu não favoreci um neto ou neta", ele disse no Senado na quarta-feira, com a mão tremendo ao segurar uma declaração previamente preparada. "Eu sou vítima de uma campanha sistemática e agressiva".

As acusações contra Sarney envolveram o Senado em mais uma conturbada disputa sobre o futuro de sua liderança. Dois anos atrás, Renan Calheiros, membro do mesmo partido de Sarney, o PMDB, renunciou à presidência do Senado depois de enfrentar uma investigação disciplinar do Comitê de Ética do Senado relacionada à fraude de fiscal e a questionável compra de uma estação de rádio.

A última crise acontece em um momento difícil para Lula, que suportou escândalos em seu próprio Partido dos Trabalhadores (PT) que forçaram a renúncia de oficiais de alto escalão. Apesar de sua alta popularidade pessoal, Lula depende de uma aliança com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) para formar uma maioria insignificante no Senado.

O governo brasileiro está preparando uma proposta que daria à companhia nacional de petróleo, a Petrobras, um controle sem precedentes sobre o desenvolvimento da exploração de campos submarinos do produto, que poderia transformar o Brasil em uma potência petrolífera, de acordo com uma pessoa com conhecimento da proposta de lei. Além disso, o presidente busca apoio do Congresso para a candidatura de Dilma Rousseff, sua ministra-chefe da Casa Civil, escolhida por ele para concorrer a sua sucessão nas eleições de 2010.

A queda de Sarney também complicaria as investigações em andamento no Senado sobre possíveis acordos impróprios na companhia de petróleo nacional, um processo que pode durar até 180 dias. Lula espera manter a investigação sob controle através de aliados do governo no comitê investigativo. Mas com o Senado em desordem e em meio a alegações que envolvem tanto Sarney quanto a companhia petrolífera, a investigação pode "ficar menos previsível", disse Erasto Almeida, analista do Eurasia Group, uma consultoria de risco político.

"O conflito no Senado está paralisando o Congresso", disse Alexandre Barros, analista de risco político local. "É muito difícil que uma lei seja votada com tudo isso acontecendo".

De muitas formas, Sarney, que assumiu a presidência do Senado em fevereiro, é o último de uma geração que operava sob uma antiga máquina política na qual os chamados coronéis de famílias poderosas como a família Sarney dispensavam favores em troca de lealdade, dizem os analistas. O sistema permitia que oligarcas agrários dominassem a política local, especialmente nas pobres regiões norte e nordeste do Brasil.

Sarney e sua filha Roseana serviram juntos no Senado e são ex-governadores do Maranhão, onde a família Sarney tem vastas propriedades e um conglomerado de mídia que controla uma das mais importantes emissoras de TV. Este ano, sua filha voltou a ser governadora do Maranhão.

"Nós estamos vivendo os últimos momentos da cultura política que ele representou", disse o Tasso Jereissati, senador da oposição pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) que acredita que Sarney deveria renunciar. "Tudo isto está sendo demolido agora."

Alguns senadores defendem Sarney agressivamente. Em uma sessão calorosa na segunda-feira, Fernando Collor de Mello, ex-presidente que foi forçado a renunciar diante de escândalos de influência mas agora é senador do país, ameaçou expor corrupção envolvendo outros senadores caso eles não parem de criticar Sarney.

"Eles transformaram o Sarney em um monstro", disse Romeo Juca, senador do partido de Sarney. "Ele não é um monstro."

Lula tem caminhado sobre uma corda bamba nos últimos dias, defendendo Sarney e pressionando senadores do Partido dos Trabalhadores para que o apóiem, enquanto se distancia de qualquer responsabilidade por éticas do Senado.

No final da quarta-feira, o Comitê de Éticas do Senado votou pelo arquivamento de quatro das 11 alegações contra Sarney.

Forte defensor do golpe militar de 1964, Sarney foi governador do Maranhão nos anos 1960, depois se tornou vice-presidente em 1985 durante a transição do Brasil para democracia.

Sarney assumiu  presidência após a morte do presidente Tancredo Neves, ficando no cargo até 1990. Durante seu mandato, ele se tornou muito impopular em um período de inflação excessiva. Desde então, ele tem sido senador, também presidindo o Senado entre 2003 e 2005.

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