Crise financeira americana começa a preocupar líderes latinos

SÃO PAULO - Enquanto a crise financeira americana ganhava força, o presidente do Brasil parecia ignorar, quase alegremente, os problemas no norte do continente.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

"Que crise?", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando questionado sobre a situação no mês passado.

Mas na segunda-feira, pouco depois do Congresso rejeitar um pacote de resgate de US$700 bilhões, Lula adotou um tom diferente, dizendo em seu programa semanal no rádio que o Brasil, afinal de contas, não está imune às dificuldades.

"Uma crise de recessão num país como os Estados Unidos", ele explicou aos brasileiros, "pode trazer problemas para todos os países".

Em poucos dias, os líderes da América Latina passaram do contentamento ao temor. Apesar do forte crescimento econômico desta década e esforços agressivos em abandonar a órbita americana, há um crescente nervosismo de que mais uma vez a América Latina não consiga escapar das ligações globalizadas do setor financeiro que passam pelos Estados Unidos.

Depois de aparentemente celebrar o colapso do Lehman Brothers, o presidente da Venezuela Hugo Chávez faltou à abertura da Assembléia Geral da ONU na semana passada para visitar a China, dizendo que agora Pequim é muito mais relevante do que Nova York.

Mas na terça-feira, depois que o mercado de ações americano caiu quase 778 pontos, arrastando consigo as bolsas latinoamericanas, Nova York e Wall Street voltaram a ter importância, com Chávez dizendo num encontro no Brasil que a crise financeira terá a força de "cem furacões".

As oscilações no mercado mundial já atingem a América Latina. Enquanto investidores assustados optavam por retirar seu dinheiro de mercados emergentes, a moeda brasileira caia 16% em relação ao dólar no mês passado.

No México, a queda no envio de dinheiro dos Estados Unidos também preocupa, com o ministro das finanças Augustin Carstens alertando que o dinheiro enviado através da fronteira pode diminuir US$2,8 bilhões, ou 8%, este ano.

Na Venezuela, uma forte queda no valor das ações do país nas últimas duas semanas reflete temores sobre a queda no valor do petróleo, especialmente porque os Estados Unidos continuam a ser de longe os maiores compradores do produto nacional apesar do relacionamento cada vez pior entre os dois países.

A questão, segundo os economistas, é amplamente sobre acesso ao crédito, que é preciso para manter as economias latinoamericanas orientadas pela exportação em ordem.

"A crise financeira e as limitações de liquidez que vemos afetarão todo o mundo", disse Alfredo Coutino, economista da agência de crédito Moody's. "Isso significa que o custo para as companhias da América Latina, particularmente para aquelas que dependem de fundos estrangeiros, será maior".

A queda no preço dos commodities também pode prejudicar o crescimento em países como Argentina e Equador, enquanto o efeito psicológico de uma crise nos Estados Unidos já afeta as bolsas de valores na América Latina.

Por ALEXEI BARRIONUEVO e SIMON ROMERO

Leia mais sobre crise financeira

    Leia tudo sobre: crise nos eua

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG