Crimes antissemitas em NY provocam lembranças dolorosas

Vandalismo e pichações contra judeus chocam sobreviventes do Holocausto que vivem no Brooklyn

The New York Times |

Elas se reúnem em Nova York para falar sobre suas famílias, se divertir, aprender umas com as outras e desfrutar do famoso bolo de café com chocolate de Hilda Weiss. Além da receita do bolo, que Weiss trouxe da Hungria, coisas do passado são raramente mencionadas - mesmo que este tenha sido o motivo que originalmente fez com que se reunissem semanalmente em um grupo de apoio para sobreviventes do Holocausto.

Mas, nos últimos dias, essa comunidade de idosas frágeis - porém corajosas - do Brooklyn teve que revisitar detalhes de seu passado por causa de algo que aconteceu muito perto de suas casas.

Suásticas e a frase "Morram, Judeus" foram pichadas em uma garagem em Midwood e nas escadas de uma escola judaica, parte de uma onda de crimes antissemita que tem acontecido no Brooklyn, Manhattan, Nova Jersey e Long Island.

"Não dá para descrever o que sentimos", disse Dolly Rabinovich, sentada em uma longa mesa no escritório do Grupo Familiar Nachas. "É um absurdo isso acontecer em 2012. Esses pesadelos ainda estão presentes dentro de nós e nossa família toda ficou chocada.” Rabinovich disse que quando era criança em Berezovka, na antiga Checoslováquia, viu as mesmas suásticas na casa de sua família durante o início da ocupação nazista, junto com a palavra "Juden".

"Me assusta quando vejo algo assim", disse Rabinovich, que sobreviveu a Auschwitz e à infame marcha da morte. "Isso significou o início de um movimento."

Apesar de um homem judeu de 56 anos ter sido detido em conexão com os crimes, o fato de que um ato desse tipo possa acontecer nos Estados Unidos, mais especificamente no Brooklyn, provocou uma sensação de descrença e medo entre o grupo de Rabinovich.

Cerca de 33 mil sobreviventes do Holocausto viviam em Nova York em 2010, de acordo com o Conselho Metropolitano de Pobreza Judaica, e cerca de 20.500 viviam no Brooklyn.

Nachas, uma das várias organizações judaicas que oferecem aconselhamento e às vezes até mesmo apoio financeiro aos sobreviventes, criou os grupos para homens e mulheres há oito anos. Desde segunda-feira, as mulheres têm debatido a notícia.

"Tudo começou com uma discussão: 'Você viu o que aconteceu?'", disse Frumie Cisner, conselheira do grupo de 38 anos, cuja avó é uma sobrevivente do Holocausto. "As suas reações têm variado entre se sentirem indignadas e desprotegidas. Seus pesadelos são muito intensos".

Katherine Frommer se lembrou da caminhada que seu pai precisou fazer da sinagoga até sua casa em Budapeste. "Eu senti como se estivesse na Europa novamente. Eles o espancaram, ele chegou em casa todo ensanguentado. Foi assim que tudo começou."

Na quarta-feira, as mulheres compartilharam suas histórias de sobrevivência nos campos de concentração, embora algumas, visivelmente chateadas, tenham abandonado a discussão. Mais tarde, elas conversaram com Cisner sobre a leitura semanal da Torá em iídiche e comeram pizza. Algumas mulheres sutilmente colocaram algumas fatias em guardanapos e as guardaram em suas bolsas.

A maioria das mulheres está na faixa dos 80 anos. Muitas são viúvas e vivem com indenizações mensais do governo alemão. Nachas - que em iídiche significa "alegria" ou "orgulho" - ajuda a sustentá-las.

"É para isso que vivemos," disse Edith Kohn. "Não podemos viver apenas com as lembranças de Auschwitz, do crematório, do cheiro."

Mas estes pensamentos vêm à tona conforme as notícias de crimes antissemitas são transmitidas na televisão e nos jornais.

Em Flatbush, em novembro, quatro carros foram queimados, dois pintados com suásticas, dois marcados com as siglas "KKK". A polícia está investigando o caso como uma possível fraude de seguro. Em dezembro, uma placa que indicava a linha de metrô Avenida J foi pintada de uma maneira que dizia “Avenida Judeu”. Neste mês, suásticas foram rabiscadas em quatro lojas na Avenida das Américas.

No final de semana passado, uma garagem residencial perto da avenida L e escadarias que davam para uma escola judia foram pichadas com suásticas. Idosos que residem em Manhattan e em Sheepshead receberam telefonemas ameaçadores.

Na segunda-feira, a polícia prendeu David Haddad, acusado de assédio, como parte de um crime de ódio envolvendo vários atos. Haddad é suspeito de ter feito 10 ligações assediando pessoas, disse Paul J. Browne, porta-voz chefe do Departamento de Polícia. Haddad também é suspeito de ter pichado suásticas no prédio em que vive, disse Browne, e perto da avenida L com a Quinta Leste, no Brooklyn.

A polícia disse que ele estava envolvido em uma disputa comercial com duas das vítimas dos acontecimentos.

"Não me importo se a pessoa é judia", disse Wolf Sender, o gerente distrital do Conselho Deliberativo da Comunidade 12, no Brooklyn. "Ódio é ódio."

Dos 119 atos de vandalismo, agressões verbais e físicas, grafite e outros incidentes relacionados a atos antissemitas em 2011, 39 ocorreram no Brooklyn, de acordo com a Liga Anti-Difamação. Em 2010, 53 dos 133 ocorreram na região.

No ano passado, o Departamento de Polícia investigou 104 casos de antissemitismo, em comparação aos 134 em 2010, disse Browne.

"Essas pessoas querem atenção", disse Katz Shoshanah enquanto ia embora da reunião de quarta-feira. "Mas não iremos permitir esse tipo de atitude neste país."

Por Liz Robbins

    Leia tudo sobre: nova yorkeuajudeusholocaustoantissemitismobrooklyn

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG