Crianças vítimas de prostituição não são mais vistas como criminosas

NOVA YORK ¿ A história de Miranda é o comportamento típico de muitas meninas que fogem de casa e se jogam nos braços de homens mais velhos que elas acham serem protetores. A maioria dos adultos poderia reconhecer esses homens pelo o que eles são. Cafetões.

The New York Times |

Ela tinha apenas 14 anos quando fugiu da casa de sua mãe e no Brooklyn e se achou na vida - no mundo da prostituição nas ruas. Eu realmente não sabia para onde eu estava indo, disse Miranda, quem, por razões que deveriam ser óbvias, evita dar o sobrenome ou mesmo o primeiro nome verdadeiro.

Não muito tarde, ela já estava na prostituição. Essa não seria a última ilegalidade que ela cometeria.

Pelo menos este cafetão não batia nela. O seu segundo cafetão batia, chegando até a arrancar-lhe alguns dentes e mandando-a para o hospital. Miranda tinha 16 na época. Ela tentou voltar para casa, mas sua mãe perdeu a paciência com ela e mandou-a embora de casa. Eu pensei por um momento que eu era louca, e que eu era uma criança diabólica, disse.

Como dissemos, a história de Miranda parece o padrão de família com garotas e predadores sexuais. Talvez seja atípica a maneira como ela reverteu a direção - com a ajuda da organização Girls Educational and Mentoring Services baseada no Harlem que a cada ano oferece aconselhamento e outras assistências para mais de 200 garotas de NY, como Miranda.

Aos 18, Miranda acabou de se formar no colégio e procura possíveis universidades. Que ela seja tão firme com os estudos na idade apropriada não é algo a ser desprezado, dado o seu passado. Eu me sinto como uma flor de lótus, disse Miranda. Uma lótus nasce em um solo turvo e se transforma em algo lindo.  

Também não muito típicas são as suas viagens para Albany para pedir aos legisladores que repensem a maneira como o Estado lida com as crianças ¿ garotas principalmente ¿ alvos de exploração sexual. O esforço dela e de outros valeu a pena quando, na semana passada, o poder Legislativo votou com unanimidade a lei de asilo seguro para crianças vítimas de exploração sexual

Ao invés de serem tratadas como criminosas, como são agora, garotas com idade de 15 anos ou menos poderão ser vistas como vítimas da primeira vez que forem presas por prostituição. Elas poderão ser classificadas como pessoas com necessidade de supervisão e receberão serviços de proteção e asilo. 

Essencialmente, a lei de asilo seguro entra em alinhamento com o tratamento que o governo federal dá aos estrangeiros que fazem dos EUA um ninho de traficantes sexuais. Os não-americanos são considerados vítimas, não criminosos.

Agora, pessoas nascidas no Brooklyn receberão o mesmo tratamento que pessoas nascidas na Ucrânia, Tailândia ou qualquer outro lugar, disse Mishi Faruqee, diretora programa de justiça para jovens do Fundo de Defesa da Criança em Nova York. 

Não está claro, entretanto, se o governador David A. Paterson assinará a lei. Um porta-voz declarou que o governador analisará o caso quanto este chegar formalmente em suas mãos. 

Caso Paterson ainda estivesse no Senado, "essa seria uma questao com a qual ele se envolveria", disse Robert Gang, diretor executivo da Correctional Association de Nova York, uma organização sem fins lucrativos focada em política prisionais. Grupos como esse estão preocupados com um possível veto do governador, em parte para evitar uma nova despesa multimilionária em tempos difíceis.

E apesar da unanimidade dos votos do legislativo, um veto não poderá ser anulado, disse o membro da Assembléia William Scarborough, democrata do Queens. Ele é responsável pela medida, juntamente com o senador Dale M. Volker, republicano que representa o oeste de Nova York.

Um importante oponente da lei é a gestão Bloomberg, apesar de não mais clamar por um veto, pelo menos não publicamente. A prefeitura concorda que as garotas são vítimas, disse John Feinblatt, coordenador de justiça criminal da prefeitura de NY. Mas o programa de proteção não tem funcionalidade alegou, e é preferível manter essas crianças em um sistema mais rígido de custódia.

Nós acreditamos que a melhor maneira de atingi-las não é descriminalizando, mas sim usar serviços determinados por julgamentos legais, disse Feinblatt em entrevista. 

Sua avaliação sobre a lei foi muita mais rígida em um artigo que escreveu para o jornal The New York Post em junho sob o título A lei pró-cafetões de NY. Se isso se tornar lei, escreveu, essas garotas se sentirão mais livres para voltar para seus exploradores.

Ele está errado, disse Rachel Lloyd, fundadora e diretora executiva da organização Girls Educational and Mentoring Services. Nascida na Inglaterra, Lloyd estava na vida quando era adolescente. Em parte, o problema é a percepção de cada um, disse. Essas não são crianças com câncer ¿ essas não são crianças pelas quais as pessoas sentem simpatia. "Apesar dos estereótipos, conclui, quando você senta e conversa com elas, você vê que criança é criança.

Por CLYDE HABERMAN

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