Crescem as expectativas sobre o discurso de Obama na terça-feira

Mesmo que seja o orador mais habilidoso que ocupou a Casa Branca nesta geração, Obama enfrentará um desafio intimidador na próxima terça-feira. Suas palavras precisarão ser transformadoras. Elas precisam iniciar a mudança da qual ele falou durante os 18 meses da campanha eleitoral. Seus discursos ajudaram o ainda não testado presidente a vencer as eleições.

The New York Times |

Obama subirá ao palanque de sua posse juntamente com uma recessão econômica. E enfrentará um desafio monumental ao tentar balancear uma mensagem de esperança e sacrifício com a realidade de que as notícias não irão mudar de direção do dia para a noite e que poderá levar anos ¿ talvez seu mandato inteiro ¿ para a economia se recuperar. 

Como de costume, os discursos da posse tentam elevar o espírito americano. Eles correm o mundo em nome da democracia. Eles clamam por bipartidarismo e união. E mesmo quando não é politicamente necessário, eles quase sempre pedem mudança.

Obama já carrega a crença internacional de que será o salvador do mundo. Ele tem, de maneira soberba, falado sobre o tempo que levará uma recuperação econômica e suavizou o calendário de retirada das tropas do Iraque.

Ele não mostrou nenhum traço de retórica desde a noite da eleição. Ele está amortecendo as expectativas, disse David Kusnet, que escrevia os discursos de Bill Clinton e é membro do Instituto de Políticas Econômicas.


Obama discursa no domingo no Memorial Lincoln, em Washington / AP

Ray Zeuschner, especialista em discursos políticos na California Polytechnic State University-San Luis Obispo, disse que o meio-termo é difícil de alcançar: Ele precisa manter as expectativas e esperanças altas, mas ele não pode colocá-las muito altas porque as pessoas se sentirão desencorajadas.

Geralmente, as posses acontecem em tempos difíceis. O discurso de Abraham Lincoln em 1861 aconteceu na véspera da Guerra Civil, e o de John F. Kennedy foi durante os espasmos da Guerra Fria, quando ele disse Não nos permita negociar com medo. Mas não nos permita ter medo de negociar.

Em meio à crises econômicas, é só olhar os discursos de 1933 e 1981 feitos por Roosevelt e Reagan respectivamente. Ambos discursaram sobre como acabar com a crise financeira nacional.

Depois de proferir que a única coisa que precisamos temer é o próprio medo, Roosevelt pediu o fim da especulação com o dinheiro dos outros, e deve haver uma provisão para uma moeda adequada, mas sólida.

Quando Reagan assumiu o gabinete antes da forte recessão, ele disse que a pesada carga dos impostos federais e o excesso de gastos governamentais deveriam ser minimizados. É hora de fiscalizar e reverter o crescimento do governo que mostra sinais de estar crescendo para além do consentimento dos governadores, disse ele.

Previsões

Especialistas em oratória e ex-escritores de discursos presidenciais anteciparam que Obama irá pedir aos americanos que sacrifiquem tempo e energia em nome do país ¿ um tema comum em seus discursos de campanha ¿ e talvez em 2009 seja ouvida a famosa frase que Kennedy disse em 1961: Não pergunte o que o país pode fazer por vocês; pergunte o que você pode fazer pelo seu país.

Isso não acontece há décadas, exceto por uma citação enterrada no discurso de Clinton em 1993 no qual ele pediu por um maior investimento no nosso povo, em seu trabalho, em seu futuro... Não será fácil; será preciso sacrifício.

Joe Truman, professor de comunicação política e legal na San Francisco State University, disse que os temas da campanha são geralmente reforçados no discurso de posse.

Você precisa falar uma única voz. Você está naquele ponto onde as pessoas ainda gostam de você. Você está muito atento ao que você disse antes, e amplifica a mensagem, disse ele.

Isso também significa que Obama, atento que vai assumir o gabinete das mãos de um presidente extremamente impopular e fracassado, deverá oferecer detalhes sobre o que espera fazer a partir de então. Isso normalmente é assunto dos discursos de posse.

Geralmente, os discursos são mais floridos que específicos. Olhando para o discurso de George H. W. Bush em 1989, ele disse que há tempos em que o futuro é tão confuso quanto neblina.

Mas uma leitura mais atenta das posses passadas mostra que em tempos de crise ¿ econômica ou de outra natureza ¿ os discursos são fortemente escritos para mostrar soluções que irão ajudar as pessoas a se sentirem melhor. Mesmo que apresentadas com eloquência, as ideias expressas na terça-feira parecerão reais.


Milhares de pessoas estão em Washington para as celebrações da posse de Obama / Reuters

Eu não acredito que haja qualquer dúvida de que no discurso da posse Obama deverá falar sobre o pacote de estímulo e das necessidades do Congresso, disse Tuman, ex-escritor de discurso. 

Provavelmente Obama também perseguirá um consenso, ao se posicionar como o presidente da mudança. Na posse, o conservador ministro evangélico Rick Warren irá fazer a oração e o reverendo Joseph Lowery, pastor que defende os direitos civis e luta pelo direito dos homossexuais, dará a benção. 

Nós não vamos muito para a direita nem muito para esquerda disse Clark Judge, que escrevia os discursos de Reagan e diretor do White House Writers Group. E acho que as pessoas estão completamente saturadas da mesquinharia de Washington, a maneira como eles se acusam e se atacam uns aos outros e depois fingem comprometimento. Eu acho que país não gosta disso.

Exemplos históricos

Os observadores de discurso também estão ávidos para ver se Obama atingirá a eloquencia e a maneira simples de Lincoln falar: Meu compatriota pensa bem e calmamente sobre esse assunto. Nada valioso pode ser perdido por isso.

Ou se ele optará pelas alegorias de Kennedy: Juntos podemos explorar as estrelas, conquistar os desertos, erradicar doenças, atingir as profundezas dos oceanos.

Ted Sorensen, que escrevia os discursos de Kennedy, disse que sabe o que Obama não fará na terça-feira.

Um discurso de posse não é uma aula de universidade. Não é feito de estatísticas ou análises complicadas, nem é uma oportunidade de exibir a personalidade, disse. Eu acho que será a definição da presidência de Obama perante o mundo. Isso definirá sua administração e irá marcar Barack Obama.

Por ALLISON SHERRY

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