Cortes na ajuda às crianças prejudicam americanos

Sem conseguir creches para os filhos, mães solteiras têm de deixar o emprego e pedir assistência do governo

The New York Times |

Saudável, sociável e acostumada a trabalhar, Alexandria Wallace, 22 anos, quer receber um salário. Mas isso exige que alguém cuide de sua filha de três anos e Wallace, que é mãe solteira, não pode pagar uma creche.

No mês passado, ela perdeu seu emprego como cabeleireira depois que a babá deixou de aparecer inúmeras vezes e ela teve de faltar com frequência ao serviço.

Wallace pode se beneficiar de um subsídio estatal para programas de creches. Mas como muitos outros Estados, o Arizona, onde ela mora, fez cortes no programa ao longo do ano passado, relegando sua filha, Alaya, a uma lista de espera composta por quase 11 mil crianças.

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Alexandra Wallace brinca com a filha Alaya, de três anos

Apesar de um aumento substancial no apoio federal à creches subsidiadas, que tem permitido que alguns Estados evitem cortes, outros têm aparado o apoio e a maioria não consegue acompanhar o aumento na demanda, de acordo com especialistas em pobreza e oficiais federais.

Isso aumentou o número de famílias de baixa renda que lutam para conciliar as exigências do trabalho e os cuidados com seus filhos, em um momento no qual enfrentam o pior mercado de trabalho das últimas décadas.

Os cortes feitos aos subsídios para creches desafiam um dos temas centrais da reforma da previdência social adotada em 1996, que instituiu um período de cinco anos de vigência limite à assistência governamental feita em dinheiro. Com a mudança, pais de baixa renda foram obrigados a renunciar aos cheques de bem-estar social e procurar trabalho, com a promessa de que receberiam ajuda para cuidar de seus filhos para que pudessem trabalhar.

Agora, neste momento de dolorosos cortes no orçamento, com o Arizona e outros Estados colocando crianças que deveriam receber ajuda em listas de espera, apenas dois tipos de famílias têm ajuda garantida: aquelas sob a supervisão de serviços de proteção à criança e aquelas que ainda recebem assistência em dinheiro.

Wallace detesta a ideia de receber ajuda em dinheiro, que associa a pessoas preguiçosas que enganam o sistema. Ainda assim esse é o único caminho prático para que possa procurar um emprego.

"Não faz sentido para mim", ela disse. "Eu sou obrigada a - não posso dizer ser uma 'folgada' - mas a ser aquela pessoa que é obrigada a viver do dinheiro governo. Não é isso que eu queria. Mas agora eu estou tentando usar isso como apoio para que possa desenvolver meu próprio caminho".

Conforme o bem-estar social americano sofre seu maior desafio desde a Grande Depressão, orçamentos estatais são cortados enfraquecendo componentes essenciais. O subsídio às creches - financiado pelos governos federal e estadual - é um exemplo conspícuo.

Quando o presidente Bill Clinton assinou em lei as alterações que disse que "acabariam com a previdência social como a conhecemos", ele prometeu que os americanos que perdessem os cheques do governo receberiam ajuda para que pudessem trabalhar.

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Mãe solteira, Jamie Smith, 23 anos, teve que tirar licença para ficar com a filha, Wren, de três anos

"Nós iremos proteger o direito à saúde, nutrição e creche, que são fundamentais para ajudar as famílias que deixarão de receber assistência social em dinheiro para trabalhar", Clinton prometeu em um discurso no rádio naquele ano.

Agora, com o índice de desemprego, chegando a dígitos duplos e cerca de 6,7 milhões de pessoas desempregadas há seis meses ou mais, alguns Estados estão cortando as creches.

"Estamos praticamente anulando um compromisso e uma promessa que fizemos às famílias", disse Patty Siegel, diretor executivo da Rede de Recursos para Assistência às Crianças da Califórnia. "Não se pode esperar que uma família com filhos pequenos consiga um emprego para se manter se não tiver uma creche."

Como parte do pacote de medidas destinadas a estimular gastos na economia no ano passado, o governo Obama acrescentou US$ 2 bilhões ao subsídio de programas de assistência às crianças para 2009 e 2010, além dos US$ 5 bilhões já esperados por ano. O governo propôs um aumento de US$ 1,6 bilhões para 2011. Mas mesmo que este dinheiro extra tenha limitado os cortes e permitido que alguns Estados expandissem seus programas, as autoridades reconhecem que não têm acompanhado a demanda.

"Dizer que estamos em um ambiente difícil em termos de orçamentos públicos seria pouco", disse Sharon Parrott, conselheiro de Kathleen Sebelius, secretário de saúde e serviços humanos, que administra concessões federais para creches. "O governo sozinho não conseguirá preencher o buraco, ainda que o Ato de Recuperação tenha oferecido uma ajuda crítica".

Mesmo alguns responsáveis pela reforma do bem-estar social dos anos 1990 agora reconhecem que as famílias de baixa renda não estão recebendo ajuda necessária para que possam trabalhar.

Entre muitas famílias de baixa renda, os cuidados com as crianças representam a maior parte dos gastos depois da moradia. Entre famílias com mães que trabalham e têm renda abaixo da linha da pobreza - US$18.310 ao ano em uma família de três pessoas - os cuidados com as crianças absorvem quase um terço do orçamento total, segundo dados do Censo.

Por Peter S. Goodman

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