Corruptos lucram com crianças órfãs na Rússia

Algumas autoridades mantêm fluxo nos orfanatos de olho em dinheiro do governo; número de órfãos é maior hoje do que na 2.ª Guerra

The New York Times |

Não há nada de sombrio a respeito do Orfanato Nº 11. Ele tem quartos cheios de bonecas e trenzinhos, além de bichos de pelúcia suficientes para fazer qualquer criança sorrir. Ele tem terapeutas de comunicação e enfermeiras e cozinheiros que gostam de dar um agrado doce às pequenas mãos. A sensação é de um lugar onde existe amor. Mas o lugar tem poucas visitas de possíveis pais.

Poucas de suas crianças serão adotadas - por russos ou estrangeiros. Quando chegam aos 7 anos, elas ficam velhas demais para essa instituição e são levados a outra, refletindo um sistema entrincheirado, que é melhor em armazenar crianças - e lucrar com isso - do que em lhes conseguir uma família.

O caso de um menino russo que voltou sozinho a Moscou, enviado por sua mãe adotiva americana, tem colocado a atenção nos problemas da adoção internacional. Mas o clamor ofuscou questões fundamentais sobre por que a Rússia tem tantos órfãos e orfanatos.

Nos últimos dias, funcionários russos de alto escalão começaram a reconhecer quão problemático é o seu sistema. A presidente da comissão parlamentar de família e crianças, Yelena B. Mizulina, ressaltou o que disse ser uma estatística alarmante: a Rússia tem mais órfãos agora (700 mil) do que no final da 2.ª Guerra Mundial, quando cerca de 25 milhões de cidadãos soviéticos perderam suas vidas.

Yelena observou que, apesar de todas as queixas sobre o retorno do menino, Artyom Savelyev, por sua mãe adotiva do Tennessee, a Rússia tem muita experiência com adoções fracassadas. Ela disse que 30 mil crianças foram devolvidas a instituições na Rússia nos últimos três anos. "Os especialistas chamam esse aumento na devolução de uma catástrofe humanitária", disse.

Ela mostrou mais números. A percentagem de crianças consideradas órfãs é de quatro a cinco vezes maior na Rússia do que na Europa ou nos Estados Unidos. Destas, 30% vivem em orfanatos. A maior parte são crianças que foram entregues pelos pais ou retiradas de casas problemáticas pelas autoridades.

Seus comentários revelam a frustração a respeito do estado do sistema de orfanatos na Rússia, que há muito resiste a uma reforma. Através dos anos, propostas para reduzir suas dimensões - a desinstitucionalização que ocorreu há décadas nos Estados Unidos e em outros países - não levaram a lugar nenhum.

Apesar das histórias de horror sobre orfanatos russos, especialistas em bem-estar social afirmam que as condições em muitos deles não são terríveis; alguns são excelentes. A questão mais urgente é o abrigo de crianças em prédios de grande estrutura, que, segundo os especialistas, podem atrasar seu desenvolvimento social e intelectual. Mas os defensores do sistema disseram que, até que o governo descubra como diminuir problemas sociais como o abuso de drogas e álcool para melhorar a vida familiar, não há alternativa.

"Seria muito melhor se não houvesse orfanatos e todas as crianças fossem felizes na sua família", disse Lidiya Y. Slusareva, diretora do Orfanato Nº11. "Mas se há más famílias, então é melhor que as crianças fiquem aqui."

A análise do sistema russo acontece no momento em que diplomatas americanos e russos determinam novas regras para adoções. Autoridades russas, que parecem envergonhadas com o fato de seu país não conseguir cuidar de suas crianças e ter de entregá-las a estrangeiros, exigiram novas regras depois que Artyom foi devolvido.

Nos últimos anos, o governo russo prometeu repetidamente apoiar os esforços para ajudar famílias a permanecer juntas, aumentar o número de crianças adotadas e expandir os cuidados com lares adotivos. Mas não teve êxito notável.

Sistema corrupto

Na verdade, ainda que a Rússia tenha seus problemas sociais, o grande número de órfãos vem em parte de uma política que não valoriza manter famílias juntas.

O governo russo gasta aproximadamente US$ 3 bilhões por ano em orfanatos e instalações parecidas, criando um sistema que é uma importante fonte de trabalho e dinheiro no nível regional - e alvo de corrupção.

Como resultado, é de interesse das autoridades regionais manter o fluxo de crianças nos orfanatos e depois não lhes deixar partir, explicam especialistas no bem-estar infantil. Quando adoções são permitidas, famílias, especialmente estrangeiras, têm de pagar taxas altas e passar por muita burocracia.

"O sistema tem um objetivo, que consiste em preservar a si mesmo", disse lorna L. Altshuler, presidente do Right of the Child (Direito da Criança), um grupo de advocacia de Moscou, e membro de um grupo consultivo do Kremlin. "É por isso que o processo de adopção da Rússia é como passar pelos círculos do inferno. O sistema quer que as crianças permaneçam órfãs."

Ele disse que em 2008, 115 mil crianças na Rússia foram designados como sem cuidados parentais, tipicamente após serem retiradas de suas casas por trabalhadores sociais. Apenas 9 mil crianças foram devolvidas a seus pais este ano. Nos Estados Unidos, onde a reunificação familiar é um objetivo primário, o percentual é muito maior, ela disse.

No total, 13 mil crianças foram adotadas oficialmente em 2008 - 9 mil por russos e 4 mil por estrangeiros, segundo as autoridades. A estagnação do sistema pode ser vista no Orfanato Nº 11, que abriga entre 45 e 50 crianças. A maioria tem problemas de saúde ou comportamento, mas a equipe fala maravilhas de todas elas.

No auditório em um dia recente, um grupo ensaiava uma dança usando trajes típicos do século 18, então voltaram ao vestiário para colocar uma roupa usada por camponeses russos para um dança tradicional. Era difícil não se encantar.

Mas apenas uma única criança foi adotado desse orfanato este ano. Desde o fim da União Soviética em 1991, um total de 74 crianças foram adotadas - uma média de cerca de quatro por ano, disse a diretora, Slusareva, que não desempenha qualquer papel na sua colocação. O total inclui 20 adoções a russos, 24 a americanos e 30 a outros estrangeiros.

O caso de Artyom causou inicialmente uma forte reação, com alguns russos dizendo que um país cuja população está encolhendo não deveria nunca enviar seus filhos ao estrangeiro.

Slusareva não concordou. O principal objetivo, disse ela, deveria ser estabelecer boas casas para essas crianças - preferencialmente na Rússia, mas se não aqui, então em qualquer outra parte. "O mais difícil é quando uma criança pergunta, 'Quando mamãe virá me buscar?'", ela disse. "Por isso o melhor momento para mim é quando uma criança deixa o orfanato com uma família."

Por Clifford J. Levy

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