Corrida pelo ouro toma conta dos esgotos de Bagdá

Situação ilustra os maiores problemas que ainda existem na economia do Iraque, que tem 40% da força de trabalho desempregada

The New York Times |

Bem abaixo das oficinas de um desgastado bairro de venda de joias de Bagdá, homens desempregados passam seus dias vasculhando o sistema de esgotos da cidade em busca da única coisa que dizem poder trazer-lhes algum dinheiro: flocos de ouro.


Várias vezes por mês, homens desesperados por alguma renda descem mais de 20 metros no escuro em busca de pedaços de ouro que tenham caído no ralo de artesãos quando eles limpavam sua mesa após um dia de trabalho na criação e reforma de joias. Com uma lanterna na mão e uma máscara para ajudar com o mau cheiro, eles passam horas vasculhando a lama espessa, colhendo com as mãos descobertas qualquer pedaço de ouro.

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Iraquiano busca pedaços de ouro no Rio Tigre, em Bagdá
Em um bom dia, os homens dizem recolher o suficiente para ganhar cerca de US$ 20 de uma fundição, que vende blocos de ouro reconstituído de volta para os mesmos joalheiros cujos ralos alimentam os desempregados. "Porque é nojento e sujo, eu não digo a minha família o que eu faço. Eu estou envergonhado", disse Mohammad Ali Freji, 30 anos.

Freji está entre um grupo de cerca de uma dúzia de homens que buscam ouro dessa maneira diariamente. Sua situação ilustra os maiores problemas que ainda existem na economia do Iraque, oito anos após a invasão dos Estados Unidos. Apesar dos bilhões de dólares gastos pelos americanos e outros estrangeiros para tentar reconstruir a infraestrutura do país e sua economia, ainda há poucos empregos, com cerca de 40% da força de trabalho desempregada ou dependente de trabalho de meio período.

Mas o bairro de joias é o único lugar onde a riqueza chega, literalmente, das lojas de joias para os esgotos. "Agradeço a Deus por tudo que temos. É uma coisa pequena que ninguém se preocupa, mas significa muito para mim", disse Abbas Abdul-Razzaq, 30 anos, que vasculha os esgotos em busca de ouro.

Os homens vasculham cerca de oito esgotos, uma vez por mês. Quando não estão no subsolo, eles varrem as ruas do bairro em busca de pó de ouro em pó criado no processo de montagem de joias. Os homens recolhem pontas de cigarro, embalagens de comida e sujeira de dentro e fora das lojas. Então, ao lado de um barco enferrujado nas margens do Rio Tigre, eles usam a água para filtrar o lixo até que suas panelas estejam cheias de pó de ouro e pequenos pedaços do metal precioso.

“Os donos das lojas de ouro trabalham com o material e, em seguida, limpam e lavam as mãos e os pedacinhos caem pelo ralo", disse Freji. "Os flocos de ouro ficam colados nos esgotos, mas a poeira vai com a água para o rio”.

Preço

Embora o preço do ouro tenha disparado nos últimos anos, os homens aqui dizem que estão ganhando menos dinheiro por causa da reverberação da guerra e os avanços da tecnologia na criação de joias. Depois que os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 e dos anos da guerra sectária que se seguiram, muitos dos joalheiros da cidade fugiram, deixando um vazio na produção de joias.

Com baixas tarifas sobre as importações, joias mais baratas e melhores, desenhadas e criadas nos Emirados Árabes Unidos e Turquia, invadiram o Iraque, o que torna difícil para os joalheiros locais competir com as importações. "Antes, nós nos considerávamos afortunados porque havia tantas oficinas", disse Freji. "A política do governo de não ter tarifas nos machuca, porque já não existem muitas lojas de ouro”.

Agora, as poucas oficinas que permanecem fazem apenas pedidos especiais, como a gravação.

"Eu só vendo joias importadas porque as pessoas preferem comprá-las, já que são modelos mais modernos ", disse Mohammad Hashim, 46 anos, dono de uma loja. "Existem catálogos das joias importadas e anúncios de televisão para as empresas que as produzem”.

Os ourives restantes contam com máquinas mais eficientes e menos ouro é despejado nos esgotos. "Sempre que há uma nova tecnologia para fabricação de joias nós saímos perdendo, porque os instrumentos modernos não criam muita poeira", disse Freji, que afirmou que vem tentando conseguir um emprego com o governo desde 2008. Ele disse que até pagou um suborno a um funcionário do governo há vários anos na esperança de se tornar um policial, mas nada aconteceu.

Trabalho 'sujo'

O trabalho de peneirar o esgoto é sujo, fedorento e, não surpreendentemente, os homens dizem odiá-lo. Seus pés e mãos ficam irritados de passar tanto tempo na água e as suas pernas doem por permanecerem tempo demais de cócoras nas margens do rio para peneirar o ouro. No inverno, a água fria faz tremer.

"Eu gostaria de poder encontrar um outro emprego. Eu faria qualquer trabalho – qualquer coisa, eu só queria um emprego permanente", disse Abdul-Razzaq. "Talvez quando ficarmos mais velhos isso irá afectar a nossa saúde".

Youssef Ibrahim, 25 ANOS, disse que ficou com inveja quando viu anúncios de ouro na televisão. "Na França e na Alemanha existem grandes fábricas de ouro, e eu penso em quanto dinheiro eu poderia fazer apenas limpando os seus esgotos", disse Youssef. “Aquelas pessoas não são inteligentes, porque elas não estão vasculhando o lixo e varrendo a poeira. Ninguém se preocupa com o pó”.

“Eu vejo relatos no Brasil de pessoas que vão para as minas de ouro naturais e pegam apenas as peças grandes e ignoram as pequenas. Sinto-me triste porque nós estamos atrás das menores, dos restos. Nós poderíamos fazer muito dinheiro lá”.

*Por Michael S. Schmidt e Yasir Ghazi

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