Coreia do Sul utiliza população em 'guerra contra a demência'

Com 9% da população acima de 65 anos, país investe dinheiro em centros, 'apoiadores' e campanha por diagnóstico precoce

The New York Times |

Eles andavam curvados, mancando, desorientados, tateando ao redor da casa. Eles ficaram confusos na banheira e tiveram problemas com a escada que parecia se mexer diante deles.

"Oh, isso dói", disse Noh Hyun-Ho, afundando no chão.  "Pensei que ia morrer", disse Yook Seo-hyun.

Havia surpreendentemente pouco riso, considerando que Hyun-Ho, Seo-hyun e os outros eram na verdade crianças entre 11 e 13 anos, perfeitamente saudáveis.

Mas eles tinham talas, amarras e óculos embaçados presos a si e receberam tarefas de nomes como Experiência Maçaneta e Experiência de Banho, tudo para ajudá-los a sentir como é ser velho, frágil ou demente. "Mesmo que eles estejam sorrindo para nós todos os dias, 24 horas, é difícil para eles", Jeong Jae-hee, 12 anos, disse ter aprendido.

O projeto faz parte de uma campanha notável da Coreia do Sul para lidar com um problema cada vez maior: a doença de Alzheimer e outras demências.

Como um dos países de envelhecimento mais rápido no mundo, com quase 9% da sua população já acima de 65 anos, a Coreia do Sul abriu uma "guerra contra a demência", investindo dinheiro e expondo uma doença que é - tanto na Coreia do Sul quanto em muitos outros lugares - repleta de vergonha e medo.

A Coreia do Sul está formando milhares de pessoas, incluindo crianças, como "apoiadores da demência", para reconhecer os sintomas e cuidar dos doentes.

Essas crianças, por exemplo, estavam no programa do governo conhecido como Experiência Completa de um Envelhecimento Amigável, perto de Seul. Além do exercício de simulação de envelhecimento, elas viram uma apresentação que explicou a demência e foram treinadas no Centro de Experiência de Demência, para realizar massagem manual nos lares para idosos.

Em outra medida surpreendente, a Coreia do Sul também está pressionando para que as pessoas sejam diagnosticadas precocemente, apesar de não haver tratamento.

"Isso costumava ser escondido. Ainda há estigma e preconceito", disse Kim Hye-jin, diretor sênior da política para o Ministério da Saúde e Bem-Estar. "Queremos tirá-los de suas conchas, de suas casas e diagnosticá-los para ajudar as famílias a se ajustar e dar aos pacientes uma maior chance de atendimento em casa", explicou.

Centros e lares

Centenas de centros comunitários de diagnóstico de demência foram criados. Os lares para idosos quase que triplicaram desde 2008. Outros programas para a demência, como a prestação de cuidados e o apoio em domicílio, quintuplicaram desde 2008. O cuidado é fortemente subsidiado.

Um banco de dados sobre a demência mantido pelo governo permite que as famílias se registrem e recebam números identificação. Cidadãos que encontram pessoas vagando pelas ruas informam seus números às autoridades, que entram em contato com as famílias.

Para financiar isso, a Coreia do Sul criou um sistema de seguros de longo prazo para os cuidados médicos, pagos com aumentos de 6,6% nos prêmios dos seguros nacionais de saúde.

"Pelo menos um membro da família tem de deixar de trabalhar para fornecer os cuidados", disse Kwak Young-soon, diretora de bem-estar social. Como a Coreia do Sul incentiva as pessoas a trabalhar muito além de sua idade de aposentadoria, as famílias também podem sentir falta da renda daqueles que sofrem de demência. A maioria das famílias já não tem gerações vivendo juntas para ajudar com os cuidados.

Algumas instalações têm longas listas de espera, mas "não podemos continuar a construir casas de repouso", disse Kwak.

*Por Pam Belluck

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