Coreia do Sul expande ajuda a viciados em internet

Após casal deixar bebê morrer de fome enquanto jogavam na web, país percebeu que dependência também afeta adultos

The New York Times |

Eles estavam desempregados, eram tímidos e nunca tiveram um relacionamento antes de se conhecer em um site de bate-papo em 2008. Eles se casaram, mas sabiam tão pouco sobre procriação que a mulher de 25 anos só descobriu que estava grávida quando entrou em trabalho de parto.

Mas, no mundo de fantasia dos videogames online, eles eram mestres em tudo o que faziam, explorando terras lendárias e matando monstros. Todas as noites, Kim Yun-Jeong e seu marido Kim Jae-Beom, de 41 anos, trocavam seu apartamento de um quarto pelo cybercafé no qual jogavam geralmente até o amanhecer.

Cada um tinha uma filha virtual, que os seguia por onde quer que fossem, e era alimentada, vestida e abraçada - tudo isso com apenas alguns cliques. Na manhã de 24 de setembro do ano passado, eles voltaram para casa depois de uma sessão de jogo de 12 horas e encontraram sua filha de três meses, Sa-rang (amor em coreano), morta por desnutrição.

Na Coreia do Sul, uma das sociedades mais conectadas do mundo, o vício em jogos online era tratado como um problema típico de adolescentes. Mas o caso da família Kim chamou a atenção para o crescente problema local do vício entre adultos.

Após seis meses em fuga, eles foram detidos em março e acusados de negligência e homicídio. Em 27 de maio, eles foram condenados a dois anos de prisão, mas o juiz suspendeu a sentença de Kim Yun-Jeong pois ela está grávida de sete meses e, segundo ele, precisa de "estabilidade mental".  "Lamento que tenha sido uma mãe tão ruim", disse Kim, soluçando, durante o julgamento do casal.

Graças parcialmente a programas de aconselhamento do governo, o número estimado de adolescentes com sintomas de vício em internet tem despencado, passando de mais de um milhão em 2007 para 938 mil em 2009, de acordo com o Ministério da Administração e Segurança Pública.

Mas o número de dependentes na casa dos 20 e 30 anos tem aumentado, chegando a 975 mil no ano passado. Muitos desses adultos dependentes cresceram com os jogos online e agora recorrem a eles quando estão desempregados ou se sentem alienados da sociedade, afirmou o psiquiatra Dr. Ha Jee-Hyun, do Hospital da Universidade de Konkuk.

Essa mudança e uma série de casos recentes como o da família Kim levaram o governo a anunciar planos para abrir centros de reabilitação voltados para adultos viciados e ampliar o aconselhamento a estudantes e desempregados, grupos considerados mais vulneráveis à compulsão.

Mais de 90% dos lares da Coreia do Sul são equipados com conexão de alta velocidade à internet. Quase todas as esquinas têm um cibercafé com computadores disponíveis a um baixo preço por hora. Os jogos online representam o maior produto cultural de exportação da Coreia do Sul e tiveram um crescimento de 50% nas vendas ao exterior com um lucro de US$ 1,5 bilhões no ano passado. Seus jogos são muito populares na China e outros países asiáticos.

* Por Choe Sang-Hun

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