Coreia do Norte semeia negócios estrangeiros em 'zonas livres'

Conurbação conhecida como Rason busca investimento externo, principalmente da China, para impulsionar economia do país

The New York Times |

Um resort-casino localizado à beira-mar na Coreia do Norte coordenado por uma empresa de Hong Kong transporta oficiais chineses e empresários da fronteira vizinha em um Humvee vermelho.

Uma empresa chinesa está em busca de expandir um bazar, no qual os empresários norte-coreanos vendem bens feitos na China para os seus compatriotas a preço de mercado, um sinal do capitalismo nascente. Caminhões trazem carvão de minas localizadas no nordeste da China até um píer alugado pelos chineses de onde ele é enviado para Xangai. Uma empresa russa aluga o outro píer.

AFP
Líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Il, inspeciona uma fazenda de patos em Pyongyang, capital do país

Essas são algumas das sementes de negócios estrangeiros nessa cidade portuária que as autoridades norte-coreanas estão encorajando. Lidando com uma economia estagnada por décadas de planejamento central comunista, os líderes norte-coreanos estão lentamente abrindo sua nação isolada ao investimento estrangeiro.

Uma das vertentes de sua estratégia é desenvolver as "livres zonas econômicas e de comércio" nas fronteiras do país, que estavam até então abandonadas. A cerca de 48 km da China, as cidades de Rajin e Sonbong, que juntas são conhecidas como Rason, são fundamentais para um novo impulso econômico.

Desde que Rason foi designada uma zona especial em 1991, autoridades norte-coreanas têm tentado atrair investimento para a região, com poucos resultados. Alguns analistas estrangeiros e empresários estão céticos, dizendo que o clima de investimento no país continua a ser demasiado instável, mas outros argumentam que a Coreia do Norte poderia estabelecer no local o tipo de laboratório que o Partido Comunista Chinês criou na cidade de pesca de Shenzhen em 1980 para ajudar a impulsionar o país adiante.

Jornalistas estrangeiros obtiveram um vislumbre de Rason quando acompanharam empresários chineses em uma excursão de investimento recente. Na superfície, o local é improvável para uma cidade próspera. Ela fica a três horas de viagem em uma estrada de terra esburacada da fronteira chinesa. Na zona rural circundante, verde e tomada por plantações de milho e pinheiros, os homens montam cavalos e carros de bois, enquanto as mulheres secam lulas nos telhados. A área sofre com apagões. No centro da cidade, ciclistas usam as ruas de terra. Há poucos carros, lojas ou restaurantes.

Mas Rason permanece livre de gelo, uma raridade no nordeste da Ásia, e as autoridades aqui veem o transporte marítimo como um pilar de crescimento econômico, juntamente com o processamento de frutos do mar e o turismo. Há rumores de que eles também querem fábricas estrangeiras de montagem e de alta tecnologia no local. Como estímulo, as autoridades dizem que ofereceriam isenções fiscais, total controle aos estrangeiros e salários mensais de US$ 80 por trabalhador, menos do que na China.

"O governo de Rason fará o melhor para proporcionar condições favoráveis para o investimento", disse Hwang Nam Chol, o vice-prefeito encarregado do desenvolvimento econômico. "Por favor diga isso ao mundo."

A questão central é saber se as ideologias do líder atual, Kim Jong Il, e dos oficiais de alto escalão do Partido dos Trabalhadores da Coreia permitirão a longo prazo as reformas necessárias para estimular o crescimento econômico. Alguns analistas acreditam que a visita de Kim a Rason em dezembro de 2009 foi um sinal de que pelo menos essa cidade deve abraçar a experimentação.

Mais do que qualquer outro país, a Coreia do Norte é governada por uma economia de comando que tem influência limitada das forças de mercado. Erros e equívocos levaram à fome em massa na década de 1990 e uma revalorização da moeda em 2009 acabou com a poupança. O Produto Interno Bruto (PIB) do país é um dos mais baixos do mundo.

A Coreia do Norte também foi atingida por sanções da ONU destinadas a forçar Kim a abandonar seu programa de armas nucleares. Além disso, a Coreia do Sul, um importante fornecedor de ajuda e parceiro comercial durante a maior parte da última década, tem endurecido sua posição em relação ao país desde 2008, por causa da política doméstica e conflitos com os militares norte-coreanos.

Os líderes norte-coreanos estão em busca de novos investimentos A poderosa Comissão de Defesa Nacional, recentemente criou o Banco de Desenvolvimento do Estado e o Grupo Internacional de Investimento Taepung, que é responsável por trazer investimento estrangeiro ao país. Park Chol Su, um coreano com cidadania chinesa, ocupa posições de destaque em ambas as organizações. Park tem um escritório em Pequim e liderou a recente visita a Rason, bem como um cruzeiro a bordo de um navio antigo pelo parque natural do Monte Kumgang.

"É o mercado que direciona o desenvolvimento nacional", disse Park. "Nós operamos de acordo com os princípios do mercado econômico."

Park disse que a Coreia do Norte recebeu investimentos de todos os países, incluindo dos Estados Unidos, mas que está observando atentamente a China, um aliado crítico, porque "a China abriu seu mercado com sucesso e passou por uma reforma. Nesse ponto, a China tem ampla experiência, por isso é mais fácil para as empresas chinesas atuarem no mercado norte-coreano."

Alguns analistas perguntam quanto o desenvolvimento vai ajudar o povo de Rason e quanto ele vai reabastecer os cofres de Pyongyang. Bradley Babson, um ex-consultor do Banco Mundial que estuda a Coreia do Norte, disse que os líderes estavam colocando "uma grande prioridade e visibilidade" nas zonas econômicas próximas da China para "restabelecer controle central sobre o possível comércio com a China."

Kim visitou a China quatro vezes desde 2010. Em junho, Pyongyang aprovou o arrendamento de duas ilhas na zona econômica de Sinuiju por 50 anos para a China. Hwang, o vice-prefeito, disse que autoridades norte-coreanas haviam se reunido com os responsáveis políticos chineses para obter conselhos sobre uma lei de investimentos para as zonas econômicas.

Uma empresa chinesa importante para o desenvolvimento de Rason, a Yanbian Tianyu International Trade Co., se envolveu aqui há 13 anos. Ela começou construindo o bazar, depois construiu o casino, um hospital, uma fábrica de pão e um edifício de telecomunicações. Agora, a empresa está trabalhando em uma fábrica de cimento e opera duas minas de ferro.

"O ambiente político tem melhorado continuamente", disse Zheng Zhexi, 58, o vice-presidente da empresa. "Ele está se movendo em direção a uma economia de mercado."

Zhexi apontou para a tolerância oficial ao bazar, onde comerciantes alugam barracas do governo para vender produtos que compram de comerciantes chineses. Os preços flutuam e existe a pechincha entre os compradores. O bazar tem se mostrado tão bem-sucedido que está sendo expandindo para seis vezes o seu tamanho atual.

Esses tipos de mercados têm surgido em todo o país para suprir o sistema de distribuição de alimentos do governo. Ainda assim, o governo é sensível à sua natureza capitalista e alguns oficiais de alto escalão têm tentado definir limites para eles. Os jornalistas estrangeiros foram autorizados a um passeio de 15 minutos pelo mercado Rason com a condição de que não fotografassem ou tomassem notas.

O mercado, aberto apenas por algumas horas por dia, estava movimentado, com bens como peles de coelhos, sofás, fones de ouvido Sony e mouses Dell.

Um soldado com uma Kalashnikov pendurada nas costas andava pelos corredores, olhando em busca de algo para comprar, e as mulheres usavam coletes vermelhos, o uniforme dos comerciantes registrados oficialmente.

Em um canto havia um escritório com a palavra "Câmbio" escrita em inglês acima da porta. Em Rason, a moeda é trocado à taxa de mercado – um renminbi chinês para 350 won da Coreia do Norte – em vez de pela taxa oficial, que valoriza um renminbi em 15 won.

Para Rason realmente atrair o investimento estrangeiro, a cidade deve resolver o "problema urgente" de infra-estrutura, disse Hwang. Uma empresa chinesa está pavimentando uma estrada da fronteira. A cidade também pretende comprar eletricidade da China e construir uma usina a carvão com experiência chinesa. Hwang disse que os oficiais contrataram uma empresa tailandesa, o Grupo Roxley, para estabelecer serviços de telefonia celular e internet na região e fizeram acordos com os guardas de fronteira para não confiscar os telefones celulares dos estrangeiros, como fazem agora.

O Instituto Peterson de Economia Internacional, com sede em Washington, publicou recentemente as conclusões de uma pesquisa realizada em 2007 com 250 empresas chinesas que fazem negócios na Coreia do Norte. Os autores descobriram que, enquanto quase 90% são rentáveis, as empresas "têm geralmente uma avaliação negativa no ambiente de negócios" por razões como infra-estrutura precária e falta de um Estado de Direito.

"No futuro, claro que eu quero vir aqui para investir", disse Wang Zhijun, um empresário chinês na visita recente. "Por enquanto, as condições ainda não estão maduras."

Por Edward Wong

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