Controle de militantes impõe silêncio em zona de risco do Iraque

Militares tentam convencer moradores da cidade de Mosul, a mais violenta do país, a colaborarem com o exército iraquiano

The New York Times |

O coronel Ismail Khalif Jasim, principal oficial de inteligência militar na província Niniveh, examinava os rostos pelos quais passava ao caminhar no bairro mais perigoso da cidade de Mosul, a mais violenta do Iraque, segundo a polícia. O lugar é tão arriscado que alguns de seus colegas se desculparam oferecendo inúmeros motivos pelos quais não seriam capazes de acompanhá-lo na incursão.

Um major admitiu estar simplesmente assustado demais. No entanto, ele foi forçado a ir ao bairro, conhecido como Amil, juntamente com outros 200 soldados e policiais. Forças de segurança iraquianas dizem controlar a região. Mas, na realidade Amil está no meio de outra onda de mortes, que acontece conforme os militares americanos trabalham para expulsar os militantes islâmicos da região antes da redução do número de suas tropas no Iraque de 90 mil para cerca de 50 mil até ao final de agosto.

A visita de Jasim tinha como objetivo persuadir grupos de moradores que se escondiam por trás de rostos sem expressão facial alguma a cooperar com o exército iraquiano - uma entidade quase universalmente odiada por causa da maneira rude como trata as pessoas da área. Mas, segundo ele sugeriu, as autoridades foram melhores do que os insurgentes escondidos na região.

"Eles não são apenas bandidos", disse o coronel, sugerindo que eles são muito mais perigosos e não têm nenhum do romance por vezes associado a criminosos. Os homens olhavam para ele impassíveis.

"Eles dizem que vocês têm que matar soldados e policiais", continuou. "Nós encontramos informação de que eles querem matar mais pessoas. Vocês querem que mais pessoas morram?"

Mas não teve sorte. Os homens não responderam. O coronel, com óculos escuros escondendo seus olhos, mas não o olhar de desprezo que curvou seus lábios, seguiu para o próximo grupo de homens.

Soldados caminhavam a seu lado, na frente e atrás. Veículos blindados da polícia e militares estavam estacionados em cada esquina do bairro, a sua entrada bloqueada ao trânsito. A rua havia sido fechada com arame farpado. Apenas algumas poucas pessoas se atreveram a sair de suas casas.

Amil é um reduto da Al-Qaeda na Mesopotâmia, um grupo formado principalmente por insurgentes sunitas, mas isso é algo que o bairro não quer discutir. Perguntas sobre o grupo obtêm apenas respostas nervosas e evasivas no enclave em grande parte sunita. Ninguém se atreve a mencionar o seu nome.

Durante as últimas semanas, as forças americanas começaram a tentar erradicar de forma agressiva os agentes da Al-Qaeda em Amil antes que a última das tropas de combate americanas deixe o país. Este mês, os militares americanos disseram em um comunicado que haviam detido um homem que cometeu "assassinatos contra policiais iraquianos, e que teria coordenado ataques com dispositivos explosivos improvisados" contra a polícia e o exército iraquianos. A identidade do homem não foi divulgada.

Quatro dias depois, tiros disparados num bairro adjacente mataram dois policiais iraquianos em patrulha. Nesse mesmo dia, na região central de Mosul, o vice-governador sobreviveu a uma explosão que destruiu seu carro blindado. No dia seguinte, uma bomba em um mercado público próximo a Amil matou duas pessoas e feriu 27.

Vários dias depois, as forças americanas anunciaram a prisão de outro membro do alto escalão da Al-Qaeda em Mosul, junto com vários outros homens.

A violência continua, no entanto, aparentemente inabalável. Carros bombas explodem todos os dias. Alguns são desarmados.

A patrulha de Jasim representava um problema específico para as pessoas de Amil: ser visto conversando com um soldado do exército iraquiano ou policial, alvos regulares da Al-Qaeda, significaria problemas. Conversar com um soldado americano, mesmo que seja apenas um cumprimento, poderia significar tortura e morte.

"Nós acreditamos que eles têm muitos defensores no bairro, por isso temos medo deles", Riyadh Majid Ahmed, 40, disse sobre um grupo de homens que em plena luz do dia executou um político em uma calçada recentemente. "É um ponto quente", disse ele, usando o termo que se tornou sinônimo de Amil.

Como muitos aqui, Ahmed diferencia entre os tipos de violência que acontecem.

"Existem algumas ações de terrorismo e algumas ações de jihad", disse. Ações de jihad são as que visam as forças americanas e seus aliados nas forças de segurança iraquianas. Ações de terrorismo são aquelas dirigidas ao moradores.

Questionado se ele se sentia seguro, Ahmed, pai de quatro filhos, não hesitou. "Estou com medo", disse.

Nesta manhã quente, Amil estava repleta de soldados e policiais. As pessoas olhavam pelas janelas e expressavam surpresa. Elas disseram que normalmente poucos membros das forças de segurança são vistos na cidade, fazendo com que os membros da Al-Qaeda possam vagar livremente, extorquindo comerciantes e intimidando moradores.

"Eu pergunto por que a polícia, que sabe que essa área é perigosa, não age sobre ela", disse um morador.

Mas Atheel Al-Nujaifi, o governador da província, disse que a questão é mais complicada.

"As forças de segurança estão alocadas em toda a Mosul, mas há áreas que nós qualificamos como inseguras, porque é fácil para a Al-Qaeda cometer ações e em seguida se esconder entre a população local", disse ele. "Um ponto quente não significa que não há qualquer exército ou polícia. O bairro está sob o controle da polícia federal".

Ele disse que a Al-Qaeda foi capaz de operar em Amil, porque "as pessoas ou são simpáticas [à causa] ou têm medo".

"Não há confiança entre as forças de segurança e as pessoas", disse um morador, Hazim Al-Mahmud Sahan, cujo filho foi morto recentemente em Amil, não muito longe de um posto de controle do Exército iraquiano.

Durante anos, porém, o desprezo foi direcionado principalmente contra os americanos. Mas em poucos meses eles vão embora, independentemente de lugares como Amil desenvolverem cenas de violência muito piores.

"Teremos problemas muito maiores, quando os americanos partirem", disse Didar Abdulla Al-Zibari, membro do conselho provinciano local. Ele fez uma pausa antes de dizer que a América "será responsabilizada" por partir.

Por Timothy Williams

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