Contradições marcam festival de música na China

Evento, que reuniu 80 mil pessoas em Zhenjiang, teve patrocínio de US$ 2,1 milhões do Partido Comunista chinês

The New York Times |

Uma coisa curiosa aconteceu em outubro, no Midi Music Festival, uma mistura antiga e ousada de rock, funk, punk e electro da China. Artistas subiram ao palco com críticas aos líderes do país, estudantes tatuados venderam camisetas antigovernamentais e uma multidão de fãs incendiou uma bandeira japonesa que havia sido decorada com palavrões.

Curiosa, porque o evento, quatro dias de cerveja com acampamento e multidão, foi patrocinado pelo Partido Comunista local, que gastou US$ 2,1 milhões para transformar plantações de milho em uma área própria para o festival, pagar bandas e limpar o lixo deixado para trás por 80 mil pessoas.

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Festival de quatro dias reuniu cerca de 80 mil pessoas
A cidade também forneceu um exército de policiais de luvas brancas, usando protetores de ouvido, que escoltaram bandas de nomes como Miserable Faith e AK 47, enquanto os fãs atiravam lama uns nos outros.

A incongruência de agentes de segurança facilitando a venda de mercadoria com maconha como tema era evidente para o organizador do festival, Zhang Fan. "O governo costumava ver os fãs de rock como algo semelhante a uma devastadora enchente, ou uma invasão de animais selvagens", disse Zhang, que teve alguns eventos cancelados por burocratas nervosos desde que foi pioneiro no festival de música chinesa em 2000. "Agora somos todos parte da busca da nação por uma sociedade harmoniosa".

Ele não se queixa, nem as dezenas de músicos desnutridos que finalmente têm uma maneira de lucrar de seu ofício – embora ninguém esteja rico com isso ainda.

Nova postura

A mudança na postura oficial – e nas empresas apoiadas pelo Estado que pagam para ter seus logotipos espalhados pelos palcos – levou a uma explosão de festivais. Em 2008, houve cinco shows de vários dias de duração, quase todos em Pequim. Este ano já houve mais de 60, das pradarias do norte da Mongólia até as terras altas do sul da província de Yunnan.

Sem exceção, os festivais foram encenadas com a ajuda de governos locais que têm percebido que roqueiros com piercings não estão necessariamente interessados em derrubar o Estado. Mais importante, os governos decidiram, pelo menos por agora, que os festivais de música podem oferecer algo que nem mesmo os propagandistas mais experiente conseguem criar: a sensação de participar de algo "descolado".

"Todos esses ministérios locais querem que suas cidades sejam vistas como modernas e cheias de diversão, para que possam atrair mais turistas e reivindicar um troféu de relações públicas", disse Scarlett Li, promotor cuja empresa, a Zebra Media, promove festivais.

Censura

O ambiente mais permissivo para a música é um contraste com a censura na internet e a repressão aos defensores de uma mudança política. Os céticos dizem que o governo está simplesmente tentando cooptar a cultura jovem, mas outros consideram a disseminação de festivais um sinal encorajador de que o rock, punk e heavy metal podem finalmente ter um palco livre das amarras políticas e financeiras que os têm constrangido.

Mesmo que as autoridades ainda insistam em aprovar as atrações com antecedência, as rejeições são raras, dizem os organizadores, em parte porque os músicos cantam em Inglês, o que pode desafiar a maioria dos censores. "O governo não tem problemas com as bandas cantarem em inglês porque dessa forma os fãs não sabem o que estão dizendo", disse Yang Haisong, vocalista de uma banda pós-punk chamada PK14.

Mas uma coisa boa sempre tem suas desvantagens. A súbita proliferação de festivais criou uma multidão dispersa, conforme os eventos concorrem por uma quantidade limitada de fãs capazes de pagar 150 yuans por dia (cerca de US$ 22).

Depois, há a falta de banheiros em funcionamento, alimentos ou sistemas de som decentes. Quase todos os músicos experientes, ao que parece, já levaram choques de um microfone com aterramento inadequado.

"Não há nada como se ferir no palco e ter de mancar até o portão da frente de um festival, porque ninguém pensou em ter uma ambulância por perto", disse Hele Feng, um músico chinês-americano, referindo-se à sua própria queda durante uma apresentação recente.

Outro problema é que a cena musical independente da China está ainda na sua adolescência, com qualidade e originalidade em falta. Muitos festivais mostram os mesmos shows, alguns dos quais poderiam ser descritos bondosamente como musicalmente limitados.

*Por Andrew Jacobs

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