Conto de fuga embala sonho olímpico

CHICAGO - Misturar política internacional com esportes olímpicos pode ser complicado, mesmo para alguém com motivos de sobra, que teve até que enganar a morte para escapar dos abusos praticados por seu governo, como Michelle Hong fez.

The New York Times |

Por sorte ela acompanhou sua filha Ivana na primeira coletiva de imprensa do time olímpico norte-americano nesta segunda-feira para narrar sua história.

Ivana Hong é ginasta e espera competir nos Jogos Olímpicos de Pequim, uma garota americana de ascendência chinesa que teve que responder perguntas sobre suas origens, aos repórteres presentes para se familiarizar com os competidores. Ela explicou que seus pais nasceram no Vietnã e fugiram de lá separadamente antes de se conhecerem nos EUA, sua mãe em um barco que enfrentou tempestades a caminho da Tailândia.

A versão detalhada, fornecida por Michelle Hong, é muito mais complexa e assustadora.

Ela tinha 15 anos, a idade que sua filha tem hoje, quando a família fugiu em 1976.

"Um ano, um mês e um dia depois da queda de Saigon", ela disse.

Noventa e quatro pessoas apertadas em dois pequenos barcos a caminho de Hong Kong, ela se lembra. A tempestade chegou primeiro. Seu barco encheu d'água até a altura de suas mãos, que seguravam uma lata de leite condensado.

Ela lembra dos homens tentando desesperadamente cortar a corda que unia os dois barcos por medo de colisão entre eles, as mulheres choravam e abraçavam seus filhos.

"É incrível que eu tenha sobrevivido", disse Michelle Hong, como também é a próxima parte de sua história.

O abastecimento de comida e água acabou, os refugiados logo se viram aprisionados por pescadores, que se recusavam a ajudá-los a seguir adiante e ameaçavam devolvê-los ao governo comunista.

No início de uma manhã os refugiados decidiram que haviam sobrevivido a tempestade e não seriam forçados a usar esse direito de viver num Vietnã pós-guerra. Seu pai, um executivo, comandou o levante. Depois de tantas batidas na porta, palpitações cada vez que a polícia o levava para interrogatórios, ela entendeu seus motivos.

"Eles decidiram, ou morremos aqui ou lutamos por uma chance de sobreviver", ela disse. "Se não lutarmos, iremos apodrecer naquele País. Os homens irão para a cadeia e as mulheres serão reeducadas".

Eram cerca de 10 homens capazes de lutar, segundo ela, mais ou menos o mesmo número de pescadores - o que era razoável, apesar das armas. Ela recorda algumas cicatrizes sangrentas ganhas na batalha, uma delas em sua irmã. De alguma forma os pescadores terminaram na água e os refugiados na costa da Tailândia, onde a família de Michelle ficou por um mês antes de seguir para a Califórnia com a ajuda de uma tia.

Ela conheceu Mike Hong (eles assumiram nomes americanos quando se naturalizaram), cuja família de 12 perdeu cinco membros na fuga. Eles tiveram quatro filhos. A filha do meio, Ivana, começou a treinar ginástica olímpica aos cinco e se tornou tão profissional que a família se mudou para Kansas, onde ela pode treinar com Al Fong, um técnico de origem chinesa. Todos menos Mike, que ficou para trás, onde trabalha no campo de tecnologia da computação, o que dificulta o dia de Michelle com as crianças.

Ivana sai para a escola às 6h30 e volta do treino de ginástica 13 horas depois. "Tudo gira em torno dos treinos dela", diz Michelle Hong. "Nossa família não têm férias desde que ela começou a treinar, há mais de dez anos".

A China pode não ser as férias dos sonhos, mas é a casa ancestral de sua família. Ivana participou do time norte-americano em 2007 e conquistou medalhas de bronze nos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, no Brasil. Ela irá participar dos testes na Filadélfia em junho, com grandes chances de conquistar um lugar no time olímpico, nem que seja como substituta.

Com a alta nas tarifas e preços de hotéis, como os Hong conseguirão ir a Beijing? Os pais e irmãos terão que ir, assim como a mãe de Michelle. Ela também sobreviveu ao mar.

Essa é a pergunta que está na cabeça de Michelle, e não como ela faria alguma diferença ao pressionar a China a adotar uma postura melhor em relação aos direitos humanos. Ela ri nervosamente quando questionada a respeito do Tibete e Darfur e diz que não quer prejudicar as chances da filha no time olímpico.

Quem sabe como as autoridades olímpicas querem lidar com essa questão, juntamente com seus patrocinadores? Anteriormente, Kate Markgraf, jogadora de futebol afirmou que as autoridades olímpicas encorajam os atletas a expressarem suas opiniões políticas. Alguns certamente irão. Mas a maioria provavelmente irá tratar do sonho da medalha de ouro, anos de treinamento que levam a uma única chance.

Ninguém sabe disso melhor que a família de uma ginasta adolescente. "O fato dos Jogos Olímpicos serem na China é algo muito especial para nós", diz Michelle Hong. Você consegue imaginar porque ela acredita que isso seja destino, uma jornada que começou e quase terminou nas águas asiáticas em 1976.

    Leia tudo sobre: olimpíada

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG