Consumidores chineses migram para as lojas de Paris

Turistas da China gastaram cerca de US$ 890 milhões na França em 2010; lojas se adaptam ao novo público com atendentes bilíngues

The New York Times |

Já foram os americanos, depois os japoneses, depois os russos. Agora são os chineses. Nos últimos meses, Paris tem sido dominada pelos chineses, que começaram a viajar para o exterior em grandes números e que vão à capital francesa menos para comer e mais para fazer compras.

De acordo com a Atout France, a Agência Francesa de Desenvolvimento do Turismo, vistos individuais ainda são caros e restritos para os visitantes chineses. Então, eles vêm principalmente em excursões terrestres organizadas no seu próprio país, geralmente para viagens de dez a 15 dias que muitas vezes começam na Alemanha, com paradas na Suíça, Itália ou Holanda. E, quase sempre, terminam em Paris.

Em 2010, os visitantes chineses gastaram cerca de US$ 890 milhões na França, 60% mais que em 2009, de acordo com a Atout France. Mais americanos do que chineses visitam Paris, é claro, mas eles gastam menos. Os gastos americanos com compras são 40% dos gastos de um turista chinês. Somente o turista russo gasta ligeiramente mais do que o chinês.

NYT
Chineses fazem compras na Au Printemps, em Paris

Os chineses visitam, em sua maioria, as grandes lojas de departamento, os "grands magasins", como Galeries Lafayette e Printemps, que ficam lado a lado no Boulevard Haussmann, cada qual com sua própria glória, com cúpulas de vitrais, como duas igrejas do capitalismo.

Pang Hao e sua esposa Wang Wenting, ambos de 34 anos, vieram de Nanjing em uma viagem com a sua filha, em um ônibus com 30 turistas. Eles já tinham visitado a Itália, Alemanha e Áustria. Paris era a sua última parada. "Faremos todas as compras aqui", disse Wang, esperando na fila da boutique Chanel na Galeries Lafayette. "Nós vamos gastar muito aqui."

Pang disse preferir os "outlets" nos Estados Unidos, "onde tudo é mais barato". Mas a "Galeries Lafayette é muito famosa na China", disse Wang.

O mercado chinês se tornou muito importante para as duas lojas. Ambas anunciam pesadamente na China e trabalham assiduamente com operadoras de turismo e agentes de viagens, além de manter boas relações com a Embaixada da China e organizações empresariais para conquistar clientes VIP. Eles têm funcionários que falam chinês, mapas da loja em chinês e ajuda para os clientes preencherem um formulário de isenção de impostos sobre valor agregado. Eles aceitam cartões de crédito da China – o cartão CUP (China UnionPay) – e fornecem reembolso em dinheiro imediato sobre o imposto, para que os clientes possam gastar mais em itens facilmente transportáveis, como perfumes e relógios.

A Printemps tem uma entrada especial para grupos chineses e fornece um resumo em língua chinesa sobre a loja, disse Laurent Schenten, diretor do departamento de clientes internacionais. Há compradores pessoais que falam a língua chinesa e anúncios em chinês nos alto falantes. A loja oferece um cartão digital para que um cliente – com pouco tempo para gastar antes da partida do ônibus – não tenha que esperar em cada boutique para fazer suas compras, que são coletadas por eles após um único pagamento.

Clientes internacionais representam hoje cerca de 40% das vendas da Printemps e cerca de um terço de seus negócios é feito com chineses, disse Schenten. Os clientes chineses gastam uma média de US$1.660 cada na Printemps. "Nós trabalhamos para que eles gastem aqui e não na Avenue Montaigne ou Galeries Lafayette", disse.

A Galeries Lafayette, que recebe cerca de dez milhões de visitantes estrangeiros por ano, tem cultivado o mercado asiático há décadas, disse Thierry Vannier, o diretor de promoção internacional, “para garantir que tenhamos os funcionários certos, os serviços certos e a mercadoria certa", enquanto trabalham com agentes de viagens e grupos turísticos da China "para mostrar a nossa loja como a principal a ser vista”.

"Somos mais visitados do que a Torre Eiffel", disse Vannier com orgulho. A Galeries Lafayette planeja abrir uma loja em Pequim no próximo ano.

Em uma excursão de Hong Kong, Dr. John Wu e sua mulher, Christine Au, esperavam para comprar uma carteira Louis Vuitton "para a tia".

"As novidades estão sempre aqui”, disse ele. "O que tem de melhor está aqui."

Perguntado sobre o que mais o surpreendeu em sua primeira viagem a Paris, ele disse: "Fiquei surpreso com a quantidade de chineses aqui!" Um casal de jovens funcionários do governo de Xangai, em sua lua de mel, esperava em uma fila para entrar na boutique da Louis Vuitton. Paris é uma espécie de sonho, eles disseram. Eles iriam comprar “algo para amigos e colegas”. E para o chefe? Eles riram. "E talvez alguma coisa para nós mesmos", disse a mulher, que deu seu nome apenas como Xiao.

O turismo chinês na França cresce cerca de 15% ao ano e de acordo com Atout France, em 2010, cerca de 550 mil chineses visitaram o país. O turista chinês médio é do sexo masculino, tem cerca de 45 anos, vive em uma grande cidade e visita os lugares mais óbvios – a Torre Eiffel, o Louvre e, claro, as lojas. Eles gastam cerca de US$1.800 cada em compras, 60% do seu orçamento de viagens, de acordo com a Global Azul, uma empresa internacional que lida com restituições de impostos para os compradores internacionais.

Em geral, grupos turísticos chineses se hospedam em grandes hotéis mais baratos nos arredores de Paris e comem refeições pré-planejadas em restaurantes chineses. Mas eles compram marcas de luxo para si mesmos e para seus amigos – especialmente os itens que têm logotipos e são originais. Na China, esses bens podem custar de 20% a 30% mais.

"A França está distante, mas nós a conhecemos bem", disse Nong Kang, que trabalha para Atout France na China. "Nossos maiores escritores passaram anos na França, e todo mundo aqui já leu um livro de Balzac ou viu um filme estrelado por Alain Delon."

Kang citou um conhecido autor chinês, Lin Yutang, que escreveu que a França e a China se entenderam, porque compartilhavam a mesma precisão sobre a linguagem e a gastronomia. Os chineses dizem que eles também sentem afinidade política, consciente do passado revolucionário da França, e que "A Internacional" – o hino de zelo revolucionário – é francês.

Para Paul Roll, diretor do Gabinete de Turismo de Paris, o visitante chinês é "um tipo peculiar de cliente". "Os turistas chineses fazem uma turnê pela Europa, como os japoneses faziam há 25 anos, com pouca integração local", disse.

Ao longo do tempo isso deve mudar, disse. "Queremos atrair aqueles que vieram aqui uma vez e gostariam de voltar a viajar de uma forma mais sutil", disse.

Jackie Ho, de Hong Kong, chegou a Galeries Lafayette com sua família, incluindo sua filha Yuki, 14. "Os preços são caros, mas as marcas estão aqui", disse.

"E temos a certeza dos produtos aqui", disse Yuki. Ho riu. "Uma grande quantidade de produtos em Hong Kong são cópias", disse. "Os taiwaneses são bons em fazer objetos falsos."

Apenas os taiwaneses? Ele riu de novo, um pouco envergonhado. "O que é bom é poder comprar uma marca aqui que você não pode comprar em Hong Kong", disse.

Paris era o que imaginava? "Bem, a cidade não é tão limpa quanto pensávamos", disse. Mas eles planejam comprar lembranças e um relógio – "e cosméticos", disse Yuki, dando a seu pai um daqueles olhares enojados de adolescente.

Por Steven Erlanger

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