Congo combate seus males com educação e um exército de mulheres

Mulheres vítimas de estupro são reunidas com o objetivo de se erguer e transformar política de histórico delicado do país

The New York Times |

Eve Ensler tem um plano audacioso. Durante anos, diplomatas, agentes humanitários, acadêmicos e funcionários do governo local têm enfrentado a polêmica de como lidar com o crescente problema de violência sexual na República Democrática do Congo, em que centenas de milhares de mulheres foram estupradas, muitas de maneira bastante sadista, por grupos armados que rondam as montanhas do leste do país africano.

Para Ensler, a dramaturga feminista que escreveu Os Monólogos da Vagina e que tem trabalhado de perto com as mulheres congolesas, a resposta é simples. "Você constrói um exército de mulheres", disse ela. "E quando você tiver um número suficiente de mulheres no poder, elas assumirão o governo e tomarão decisões diferentes".

No último fim de semana, Ensler deu o primeiro passo para a construção deste exército: a abertura de uma base em Bukavu chamada Cidade da Alegria. As instalações novas, formadas por casas de tijolos, grandes salas de aula, pátios e varandas serão uma espécie de campus onde pequenos grupos de mulheres congolesas, na maioria vítimas de estupro, serão preparadas para se tornar líderes em suas comunidades e possam, eventualmente, erguer-se e mudar a política do país. Pelo menos é isso que Ensler espera.

Elas farão cursos de autodefesa, aprenderão a usar computadores e terão aulas sobre direitos humanos. Também aprenderão ofícios e agricultura, e tentarão exorcizar seus traumas em sessões de terapia e dança, para depois voltar a suas aldeias de origem e capacitar outras mulheres.

O centro, construído em parte pelas mãos das próprias mulheres, custou cerca de US$ 1 milhão. A Unicef contribuiu com uma quantia substancial do valor e o resto foi arrecadado de fundações e doadores privados pelo grupo de defesa de Ensler, o V-Day.

É um conceito corajoso, investir tanto em um pequeno grupo de mulheres em grande parte analfabetas – serão cerca de 180 recrutas de liderança por ano – na esperança de que elas catalisem mudanças sociais. "Esse pode ser o ponto de virada", disse Stephen Lewis, ex-funcionário da Unicef, cuja fundação privada está ajudando a Cidade da Alegria. "Tem havido crescente preocupação internacional sobre o que está acontecendo na República Democrática do Congo, mas até agora nada foi percebido no país. Talvez este seja o momento em que as mulheres lá mostrarão que podem virar esse jogo”.

Quando a Cidade da Alegria abriu oficialmente na sexta-feira, centenas de mulheres, na maioria vítimas de estupro, bateram tambores e cantaram com toda a força de seus pulmões. Elas vestiam camisetas pretas que diziam: "Pare o estupro de nosso recurso mais precioso".

*Por Jeffrey Gettleman

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG