Conflitos abastecem discussões sobre onda anti-imigrante na Itália

MILÃO - As persianas de metal estão fechadas no Shining Bar, uma cafeteria perto da estação central de trem. Na fachada, alguém escreveu ¿orgulho de ser negro¿ e pichou ¿Abba vive¿ em vermelho.

The New York Times |

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Abba era o apelido de Abdul William Guibre, que nasceu em Burkina Faso, cresceu na Itália e foi espancado até a morte no mês passado pelos proprietários do bar, que são pai e filho. Os dois, Fausto e Daniele Cristofoli, suspeitaram que Guibre, 19, estava roubando dinheiro e, segundo disseram as autoridades, o atacaram com uma vara de metal quando pensram ele havia roubado um pacote de bolachas. Durante a briga, os agressores gritaram negro sujo, disseram os advogados de ambos os lados.

Embora haja algum debate sobre o assassinato ter sido motivado por racismo, a agressão à Guibre foi a mais severa dentre a grande quantidade de ataques recentes contra imigrantes por toda a Itália. Eles têm abastecido uma conversa nacional, sobre racismo e tolerância em um país que, recentemente, passou de uma nação de emigrantes para um dos principais destinos de imigrantes.

Tudo bem um negro ser inglês, francês ou holandês, disse Giovanni Giulio Valtolina, psicólogo e acadêmico na ISMU Fundação em Milão, que estuda a sociedade multiétnica. Mas um italiano negro é uma coisa muito nova.

Nas últimas semanas, Emmanuel Bonsu Foster, 22, nascido em Gana, ficou ferido em uma briga com a polícia em Parma; o chinês, Tong Hongshend, 36, foi espancado por um grupo de garotos em uma vizinhança violenta em Roma; e uma mulher da Somália, Amina Sheikh Said, 51, disse que foi despida para ser revistada e interrogada por horas no Aeroporto Ciampino, em Roma. No último mês, seis imigrantes africanos foram baleados em Castel Volturno, local sob domínio da máfia napolitana.

Os confrontos estão ressoando até nos mais altos níveis da sociedade. Em encontro com o Papa Bento 16, no Palácio do Quirinal em Roma, no último domingo, o presidente Giorgio Napolitano pediu que a Igreja e o Estado trabalhassem juntos para superar o racismo. Ele citou um recente discurso no qual o papa apontou para os preocupantes novos sinais do aprofundamento das tensões sociais.

Na semana passada, o parlamento debateu sobre a possibilidade de a Itália estar enfrentando o que os jornais chamam em suas manchetes de emergência racista. O ministro do Interior, Roberto Maroni, do partido separatista da Liga Norte, disse que os ataques foram isolados e que o alarme foi um exagero.

Muitos esquerdistas discordaram. Não se pode dizer que todos os italianos são racistas, mas também pode ser perigoso subestimar o que está acontecendo, disse Jean-Leonard Touadi, primeiro negro a ser membro do parlamento. Houve uma sequência preocupante de eventos, que não podem simplesmente serem catalogados como ocorrências isoladas.

Touadi é originalmente do Congo. O ex-chefe da política de segurança da prefeitura de Roma foi eleito em abril pelo partido Itália dos Valores, que apoia a reforma judicial. É fácil descontar a raiva e a frustração nos estrangeiros ao se enfrentar uma crise econômica e social, disse ele, acrescentando que o governo deveria trabalhar para criar mais oportunidades para todos. Isso não deveria se tornar uma guerra entre italianos pobres e imigrantes pobres.

De fato, a profunda tradição italiana de tolerância católica romana está sendo atingida pela incerteza da economia. E, às vezes, a Igreja faz pressão contra o Estado.

Uma edição recente do semanário católico Famiglia Cristiana perguntou se a Itália está mudando sua pele e ofereceu uma investigação sobre o número crescente de episódios de intolerância e violência. Na capa havia uma foto de três jovens negros que participaram da marcha anti-racismo em Milão, após a morte de Guibre.

Na semana passada, o monsenhor Agostino Marchetto, um oficial de algo cargo do Vaticano, falou sobre a discriminação, xenofobia e racismo contra imigrantes. Marchetto, secretário do Pontifício Conselho da Pastoral para Imigrantes e Itinerantes, disse que refugiados frequentemente são tratados sem se considerar as razões que os forçaram a fugir.

Isso está levando, disse ele, a medidas que tentam evitar a entrada de imigrantes em países de chegada e à adoção de medidas que dificultam esse processo. Ele as chamou de corrosão dos padrões humanitários.

Também na última semana, o partido Liga do Norte pediu um maior controle dos imigrantes como parte de uma lei de segurança pendente no parlamento, incluindo um sistema no qual imigrantes legais seriam deportados caso acumulassem certo número de pontos em seus registros criminais.

Isso estimulou uma charge política na primeira-página do "Corriere della Sera", principal jornal diário da Itália, no qual um oficial pede para ver a permissão de residência de um negro. O homem aponta para a atadura em sua cabeça e diz sete pontos; em italiano, punti significa tanto pontos de pontuação como também pontos para fechar ferimentos.

Por RACHEL DONADIO

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