Conflito na Geórgia mostra sinais de limpeza étnica

TBILISI, Geórgia - Os conflitos entre a Rússia e a Geórgia entram na segunda semana e a evidência de saques e limpeza étnica aumenta em diversas vilas de toda a região disputada.

The New York Times |

Os ataques (alguns testemunhados por repórteres ou documentados por grupos humanitários) incluem roubos, incêndio de vilas inteiras e possíveis assassinatos. Alguns são etnicamente motivados, enquanto outros parecem ser trabalho de mercenários atuando em áreas abandonadas pelas autoridades.

A identidade dos responsáveis varia, mas o padrão de violência dos ossétios contra os georgianos aparece e foi confirmado por algumas autoridades russas. "Agora os ossétios estão assassinando os georgianos que se encontram na sua região", disse o major general Vyacheslav Nikolaevich Borisov, comandante responsável pela cidade de Gori, ocupada pelos russos.

Um tenente de uma divisão de veículos blindados que esteve na Chechênia anteriormente disse: "Para ser honesto, os ossétios estão mesmo atacando".

As hostilidades começaram na semana passada, quando os militares georgianos entraram no território da Ossétia do Sul e os russos responderam enviando tropas à região e depois à própria Geórgia.


Morador da Ossétia do Sul refletido no espelho observa apartamento destruído na capital Tshinvali / Reuters

Dezenas de casas foram incendiadas na terça-feira no subúrbio de Tskhinvali, capital da Ossétia do Sul. Repórteres viram homens armados caminhando pelas ruas, saqueando eletrônicos e outros bens domésticos. Não ficou claro quem eram esses homens, mas eles não faziam parte das forças russas, que por sua vez não impediram o roubo.

"Não somos uma força policial, somos uma força militar", disse um tenente coronel russo, em resposta ao questionamento de um repórter. "Nosso trabalho não é patrulhar a região".

Ainda assim, havia evidência de que os militares russos tentaram impedir a pilhagem em alguns lugares. Uma fila de 12 homens com as mãos sobre a cabeça, muitos deles uniformizados, foi levada à base militar russa em Gori na tarde de quinta-feira. A identidade dos homens não foi informada.

O grupo Human Rights Watch divulgou um relatório na quinta-feira que documentou os ataques dos ossétios na região de Tskhinvali na quarta-feira. Pesquisadores viram diversas casas incendiadas na cidade de Java e citaram um agente da inteligência da Ossétia do Sul como tendo afirmado que seus combatentes fizeram isso para "garantir" que os georgianos não retornem.

As descobertas do relatório também parecem indicar que o número de casualidades apontado inicialmente pelos russos, que nos primeiros dias de combate chegou a 2 mil, era alto demais. Em Tskhinvali, onde o conflito foi maior, o hospital local recebeu 44 corpos e 273 feridos entre 6 e 12 de agosto, de acordo com um médico do local.

O relatório citou o médico dizendo que a maioria dos feridos pertencia às forças militares, apesar de não estar claro se fazia referência ao exército russo ou georgiano, ou ainda aos combatentes da Ossétia do Sul. No dia 13 de agosto, nenhum dos feridos restava no hospital, afirmou o relatório. Muitos foram transferidos para hospitais móveis no Ministério de Emergência Russo.

Ameaças e saques

Uma senhora da vila de Kurta que informou apenas seu primeiro nome, Elene, disse que foi forçada a caminhar por três dias por sua segurança depois que homens russos a expulsaram de sua casa. Um ossétio estava entre eles, afirmou a mulher. "Eles entraram nas casas, pegaram tudo que queriam e queimaram o resto". Eles ameaçaram atirar nela depois de pegar seus objetos de valor, mas sua vizinha, uma russa, interveio a seu favor.

"Ela disse, 'Por favor, não façam isso'", afirmou a senhora, segurando um santo numa sacola plástica. Os homens atiraram contra o chão inúmeras vezes, e então foram embora. Ela fugiu.

Cinco vilas da sua região foram saqueadas e as pessoas expulsas, ela disse. Em uma delas, Oreti, a senhora viu os corpos de duas mulheres decompondo ao ar livre. A caminhada foi terrível e ela teve que passar uma noite numa casa abandonada.

Ela relembrou da violência que tomou a vida de seu marido há 14 anos, quando os ossétios e georgianos travaram guerra. "Eu queria ter morrido com meu marido", ela disse. "Tantas pessoas morreram".

Uma autoridade georgiana disse que algumas das piores "limpezas étnicas" aconteceram nas cidades de Eredvi, Ditsi, Tirdznisi e Kuraleti. Um homem da vila de Karetezhvyari disse que voltou para verificar sua casa na quinta-feira, apenas para descobrir muitas moradias da região incendiadas. Ele passou a tarde ajudando seus vizinhos a apagar o fogo.

O homem, que forneceu apenas seu primeiro nome, Nukri, estava assustado com os saques e o avanço dos russos."Eles foram um grande império e caíram, mas não pararam de agir como tal", ele disse.

Saqueadores agiram em toda a região georgiana ao longo do caminho para Tskhinvali, a capital da Ossétia do Sul.

Por SABRINA TAVERNISE and MATT SIEGEL

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