Conflito em Gaza estremece relações entre Israel e Turquia

ISTAMBUL, Turquia - Os quatro voos diretos para Tel Aviv continuam. O contrato de segurança assinado em dezembro não foi abandonado. Mas desde a ofensiva militar israelense em Gaza, as relações entre Israel e Turquia, seu principal aliado muçulmano, foram prejudicadas.

The New York Times |

Os aliados árabes de Israel apoiaram o país durante a guerra, mas a Turquia, membro da Otan cujos esforços mediadores no ano passado colocaram Israel em negociações indiretas com a Síria, protestaram a cada etapa do trajeto em um mês no qual irritadas declarações foram proferidas quando o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan abandonou o palco durante um debate em Davos, Suíça, no dia 29 de janeiro. 

Na semana que se passou depois do incidente, ambos os lados sofreram para remediar a situação, com oficiais de Israel e Turquia fazendo declarações conciliadoras. 

"Turquia e Israel atribuem importância especial a sua relação bilateral", afirmou nesta semana o primeiro-ministro da Turquia, Cemil Cicek. "Nós queremos proteger nossas relações com este país".

Erdogan deixa reunião em Davos após discutir com presidente de Israel / AP

Mas ambos os lados reconhecem que algum dano foi causado e muitos analistas políticos dizem sentir uma mudança. "Nossas relações não estão iguais a antes", disse Cengiz Candar, colunista do jornal turco Radikal. "A convivência está muito incerta na região".

A Turquia é um país único no Oriente Médio por sua relação robusta com Israel. O país foi a primeira nação muçulmana a reconhecer Israel como um Estado e construiu mais de US$3 bilhões em comércios anuais com Israel, muito mais do que qualquer outro país do Oriente Médio.

Erdogan encorajou o relacionamento, visitando Israel em 2005 com um grupo de empresários turcos e se tornando o primeiro premiê do país a visitar o gabinete do principal rabino da Turquia, depois que uma sinagoga foi bombardeada em 2003.

Hamas

Mas quando o assunto é o Hamas, que controla Gaza, eles os países discordam.

Israel o vê como um grupo terrorista e se concentra em seu compromisso doutrinal em destruir o Estado sionista. Erdogan vê outros aspectos: o Hamas teve início como um movimento popular islâmico e como seu próprio partido de Justiça e Desenvolvimento, também islâmico, foi democraticamente eleito.

"Eles se identificam com algumas partes da história do Hamas", disse Femi Koru, colunista do jornal turco Today's Zaman. "Eles também foram marginalizados na política nacional". 

Oficiais turcos argumentam que a posição de Erdogan em relação à guerra não passou de um saudável crítica - palavras de alerta de um amigo próximo que sinceramente acredita que Israel foi longe demais.

Israel, por sua vez, sente que Erdogan não é mais um desinteressado no processo de paz e, ainda que os países permaneçam aliados, a confiança já não é tão grande.

"Ele queimou todas as pontes que levavam a Jerusalém", disse um dos oficiais, que falou sob condição de anonimato. "Ele não será visto como mediador honesto daqui para frente".

Enquanto Israel dizia ter ido à guerra para impedir os ataques com mísseis do Hamas, Erdogan via o conflito sob o prisma da democracia.
"O mundo não respeitou a vontade do povo palestino", ele disse em uma entrevista à revista Newsweek no dia 31 de janeiro. "De um lado defendemos a democracia e tentamos mantê-la viva no Oriente Médio, mas do outro não respeitamos seus resultados".

Ele também rejeita que o uso da violência pelo Hamas. "Eu não estou dizendo que o Hamas é uma boa organização e que não comete erros", ele disse.

A posição de Erdogan foi elogiada nas sociedades árabes, que se opuseram à campanha militar israelense e entraram em conflito com o apoio de seus líderes a ela.

Por SABRINA TAVERNISE e ETHAN BRONNER

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