Como eram realizados abortos clandestinos nos EUA, antes da legalização

Com a Suprema Corte se tornando mais conservadora, muitas pessoas que apóiam o direito da mulher de optar pelo aborto temem que a Roe v. Wade, decisão de 1973 que deu a elas esse direito, esteja ameaçada de desaparecer.

The New York Times |

Quando essas preocupações aparecem, geralmente ouvimos falar dos maus e velhos tempos da época anterior à decisão. Ainda assim, existem poucos médicos hoje que podem comentar sobre o tema a partir de uma experiência pessoal. Eu sou um deles.

Sou um ginecologista aposentado, estou na casa dos 80 anos. Meu primeiro treinamento formal na minha especialidade foi na cidade de Nova York, de 1948 a 1953, em dois dos maiores hospitais municipais.

Lá, vi e cuidei de praticamente todas as complicações decorrentes de abortos ilegais que se pode imaginar, causadas ou pela própria paciente ou por um médico que realizava abortos ¿ que geralmente eram negligentes e não qualificados. Ainda assim, a paciente nunca nos dizia quem havia realizado o procedimento, nem onde, nem em que condições. Ela precisava urgentemente da nossa ajuda para terminar o processo ou, como era freqüente, corrigir os danos causados.

A paciente tampouco explicava o motivo de ter tentado um aborto, e nós também não perguntávamos. Era uma decisão tomada por ela, e as razões cabiam somente a ela. Ainda assim, estava claro: a mulher havia arriscado completamente a si própria, e literalmente não sabia se iria sobreviver ou não.

Isso também estava claro: sua necessidade desesperada de interromper a gravidez era a força por trás da escolha de qualquer método disponível.

O conhecido símbolo do aborto ilegal é o infame cabide ¿ que pode ser o símbolo, mas nem de longe é somente um mito. Durante muitos anos em Nova York, muitas mulheres chegavam com o cabide ainda no corpo. Quem quer que o tenha colocado lá (talvez a própria paciente), prendeu-o no colo do útero e não conseguiu retirá-lo.

Não tínhamos ultra-som, tomografia computadorizada, nem outras técnicas de radiologia usadas atualmente. A mulher era anestesiada e, enquanto removíamos a peça de metal, prendíamos a respiração, porque não sabíamos se o cabide havia penetrado no útero e entrado na cavidade abdominal. Felizmente, nos casos que eu presenciei, isso não aconteceu.

No entanto, não eram usados somente cabides.

Praticamente qualquer utensílio que você possa imaginar era usado para provocar o aborto ¿ agulhas de tricô e crochê, pedaços de vidro de saleiro, garrafas de refrigerante, às vezes intactas, às vezes com a boca quebrada.

Outro método que não encontrei, mas ouvi falar através de colegas em outros hospitais, era uma solução de sabão inserida no canal cervical com uma seringa. Isso podia causar morte imediata se uma bolha da solução penetrasse em um vaso sangüíneo e fosse transportada até o coração.

O pior caso que presenciei, e espero que ninguém tenha que enfrentá-lo algum dia, foi o de uma enfermeira que deu entrada no hospital com o que aparentava ser um cordão umbilical parcialmente para fora. Mas então, assim que a examinei, percebi que o que pensávamos ser o cordão umbilical era na verdade parte do intestino da mulher, que havia sido enganchado e rasgado por qualquer que tenha sido o utensílio que ela usou para fazer o aborto. Foram necessárias seis horas de cirurgia para retirar o útero e os ovários infeccionados e reparar a parte do intestino que ainda poderia funcionar.

É importante lembrar que a decisão Roe v. Wade não significou que a partir de então abortos poderiam ser realizados. Eles têm sido feitos desde sempre, desde os tempos da Grécia Antiga.

O que a decisão Roe declarou é que a interrupção da gravidez pode ser auxiliada por uma equipe médica, em um ambiente médico aceitável, e assim conferir às mulheres os direitos plenos de cidadãos ¿ e liberando os médicos para tratá-las como tal.

Waldo L. Fielding foi ginecologista e obstetra em Boston por 38 anos. É autor de Pregnancy: The Best State of the Union (Thomas Y. Crowell, 1971).

Por Waldo L. Fielding, M.D.

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