Como dirigir uma Ferrari na cidade de Nova York? Com muito cuidado

Carro de US$ 200 mil não é muito propício para ser utilizado como veículo urbano e não se adapta bem a baixas velocidades

The New York Times |

Eu costumava ter medo de dirigir na cidade de Nova York, mesmo me considerando um bom motorista. Aprendi a dirigir em Boston, onde as pessoas dirigiam antigamente da mesma maneira que dirigem hoje em Pequim - acreditando que semáforos e placas são optativos - e se você não tem reflexos rápidos e olhos na nuca, acabava voltando para casa em um guincho. Então, por que será que eu tinha tanto medo das ruas de Nova York?

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Parte desse medo devia-se ao carro que eu e minha esposa dirigíamos, que na época era um modelo pequeno e frágil que parecia que ia desmontar a qualquer momento. Mas a maior parte do meu pavor atribuía-se aos táxis, pela maneira como tomavam conta das ruas, as sirenes dos carros de bombeiros e os pedestres que se comportavam de uma maneira caótica.

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Diária de Ferrari F430 que foi testada custou mais de US$ 1 mil
Você precisa de muita coragem para dirigir em Nova York e eu simplesmente não tinha. A situação era tal que quando minha mulher ficou grávida eu precisei praticar o trajeto entre a nossa casa e o hospital para garantir que não teria uma crise de pânico atrás do volante enquanto ela estivesse em trabalho de parto. Alguns trechos da Broadway ainda me lembram daquele trajeto.

Eu ainda vivo em Nova Jersey e em algum momento, cerca de 20 anos atrás, percebi que já não me importava tanto de ter de dirigir por Nova York. Eu não dirijo o tempo todo, pelo menos não o suficiente para me tornar um especialista. Mas eu me viro. Já conheço os melhores caminhos e sei fechar motoristas folgados.

A menos que eu esteja dirigindo uma Ferrari F430 de US$ 200 mil que pertence a outra pessoa.

Semana passada, em homenagem ao Salão de Automóveis de Nova York, eu aluguei a máquina de uma empresa chamada Gotham Dream Cars, que se especializa em alugar automóveis que são classificados como “ultraexóticos”. Na verdade, a Ferrari não foi minha primeira opção. Eu queria um Porsche, em homenagem a Ferdinand Porsche, o designer desse grande automóvel, que morreu na semana passada, ou um Lamborghini. Mas eles estavam todos indisponíveis.

Aparentemente as pessoas alugam carros da Gotham Dream Cars para passar semanas, ou até mesmo meses, com eles, apesar de sua diária que pode chegar a US$ 1 mil.


Existe um motivo pelo qual não se veem muitas Ferraris circulando por Nova York. Elas não são muito propícias para serem utilizadas como veículos urbanos. Elas já não têm problemas com o superaquecimento a baixas velocidades, mas elas tampouco se adaptam muito bem a baixas velocidades. Eu raramente coloquei o motor a mais 3.000 rpm, e não apenas por medo, embora houvesse um pouco deste fator.

Os funcionários que deixaram o carro na minha casa tiraram fotografias de cada centímetro do carro, me avisando que eu seria penalizado por qualquer risco e colocando uma reserva de US$ 7,5 mil no meu cartão de crédito antes mesmo de eu sair da calçada. (O aluguel por 24 horas custou US$ 1.160,60.)

Pânico

Ao seguir para Nova York e passar pelas disputadas pistas de pedágio na ponte George Washington eu imediatamente voltei a sentir o antigo pânico.

Como muitos dos carros esportivos, a Ferrari permite que você alterne entre câmbio automáticao e manual. A troca automática de marchas em baixas velocidades é um pouco piegas, a troca manual é melhor, mas cansativa na cidade, onde tantas outras coisas demandam a sua atenção.

Melhor ainda, você não precisa ultrapassar o limite de velocidade para se divertir. O carro tem um desempenho perfeito mesmo a 140km/h que chega a ser um pouco chato. A verdadeira emoção é ver quão rápido ele vai de 0 km/h a 90km/h, por exemplo, e aqui vai uma dica: Rua Lafayette até Avenida Houston. Vá em frente.

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Ferrari modelo F430 passa pelo Central Park, Nova York
O passeio pela Quinta Avenida, passando pelos museus e pelo parque e depois a volta pelo outro lado constituem um ótimo passeio para qualquer um independente do seu modelo de veículo. Vale a pena também ver Manhattan vindo do Brooklyn ou do Queens através da ponte Robert F. Kennedy. Ela realmente nos dá a sensação de que é uma cidade que precisa ser vista de perto.

Vagas

Isso tudo sem contar o fato de que você precisa encontrar um lugar para estacionar. O ato de procurar uma vaga na cidade pode ser uma aventura única. Em um livro do escritor Calvin Trillin, ele descreve uma situação em que o protagonista encontra uma vaga tão boa que ele nunca mais sai dela - uma metáfora para o que acontece com os visitantes quando vêm para Nova York.

Eu estava com medo de estacionar a Ferrari. Não tinha uma visão muito boa ao olhar pelo vidro de trás, além do fato de que o carro é tão baixo que eu tinha medo de que se eu estacionasse muito perto da guia eu não seria capaz de abrir a porta. E imagine se alguém fizesse algo que a danificasse enquanto estivesse sozinha?

Na Union Square, duas mulheres olharam para mim com puro desprezo enquanto atravessavam lentamente na faixa de pedestres, mas eu tenho quase certeza de que outras pessoas compartilharam desse mesmo sentimento. E por causa disso eu acabei passando pela vaga perfeita e continuei dirigindo minha super máquina, que também não parecia querer parar.

*Por Charles McGrath

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