Comentário: uma realidade assustadora

A semana passada foi muito boa para o presidente Barack Obama. Bill Clinton o ajudou muito ao retornar da Coreia do Norte com as jornalistas americanas Laura Ling e Euna Lee. Sonia Sotomayor foi aprovada para a Suprema Corte. E o relatório de desemprego de sexta-feira registrou uma minúscula queda na taxa de desemprego.

The New York Times |

Mas para os trabalhadores americanos que espreitam ansiosamente pelas janelas de suas casas, o barco da economia ainda está afundando. Você pode pôr o disfarce que quiser nas estatísticas de emprego da semana passada, mas a verdade é que, apesar de parecerem melhor do que os economistas esperavam, elas ainda estão péssimas.

Cerca de 247 mil empregos foram perdidos em julho, um número que, sob circunstâncias comuns, abalaria o país. Foi a menor queda mensal no número de empregos desde julho do ano passado. E por essa razão, foi considerado um sinal de esperança. A taxa oficial de desemprego mensal diminuiu de 9,5% para 9,4%. Mas, por trás dos números oficiais, há uma história assustadora que ilustra o maior desafio que os EUA enfrentam atualmente. A economia do país não parece apta a fornecer empregos o bastante ¿ e nem sequer algo perto de ser um bom emprego ¿ para manter o padrão de vida com que a maioria dos americanos está acostumada.

O país perdeu 6,7 milhões de empregos, desde que a recessão começou em dezembro de 2007. Ninguém está prevendo uma recuperação poderosa o suficiente para substituir os milhões de empregos que desapareceram nessa crise histórica. Analistas do Instituto de Políticas Econômicas apontam que a economia tem menos empregos agora do que tinha em 2000, mesmo que a força trabalhadora tenha crescido para cerca de 12 milhões de trabalhadores desde então.

Dois temas que questionam absolutamente qualquer avaliação do futuro, no relatório de emprego da semana passada, são os níveis de crescimento do desemprego no longo prazo e os números esmagadores de desemprego entre jovens americanos. Mais de cinco milhões de pessoas ¿ cerca de um terço dos desempregados ¿ estão sem trabalho há mais de seis meses. Esse é o número mais alto já registrado desde que números exatos começaram a ser arquivados.

Para aqueles que se preocupam com o avanço da viabilidade econômica da família americana, o comprometimento dos jovens trabalhadores, especialmente homens, é particularmente assustador. A porcentagem dos homens jovens que estão trabalhando de verdade é a mais baixa em 61 anos de registro, de acordo com o Centro de Estudos de Mercado de Trabalho da University of Northeastern, em Boston.

Apenas 65 de cada 100 homens com idade entre 20 e 24 anos trabalharam em dias determinados nos seis primeiros meses deste ano. No grupo de idade entre 25 e 34 anos, época em que tradicionalmente as pessoas costumam se casar e começar uma família, apenas 81 de cada 100 homens está empregado.

Para adolescentes do sexo masculino, o número foi devastador: apenas 28 de cada 100 homens estavam empregados no grupo de idade entre 16 e 19. Quanto à minoria dos adolescentes, melhor nem falar. Os números são mais do que assustadores: são catastróficos.

Essa deveria ser a maior preocupação dos EUA. Quando o desemprego atinge esse tipo de extremo, não são apenas as famílias que são prejudicadas, mas também toda a comunidade. Isso incentiva uma sensação de desesperança e leva à desordem.

O desemprego que tem promovido tal devastação na comunidade negra por décadas agora está sendo experimentado por um segmento muito mais amplo da população. Estivemos negando completamente este fato.

Em março de 2007, quando a taxa de desemprego oficial era uma porção enganadora de 4,5% e a multidão de Bush estava vociferando sobre a suposta força da economia, eu escrevi: as pessoas podem protestar o quanto quiserem sobre como a economia está indo bem. A simples verdade é que milhões de trabalhadores americanos comuns estão em um emprego seguro. Trabalhos fixos com bons benefícios estão funcionando como Ozzie e Harriet queriam. Especialmente jovens trabalhadores estão se prejudicando, o que diminui os prospectos da família americana. E os negros, particularmente, homens negros, estão em uma zona de muito perigo.

A taxa oficial de desemprego atual é duas vezes mais alta ¿ 9,4% - e mais enganadora ainda. Ela teve uma queda de 0,1% em julho, não porque mais pessoas encontraram trabalho, mas porque 450 mil saíram do mercado. Pararam de procurar emprego, então não são mais considerados desempregados.

Um retrato verdadeiro da crise do emprego aparece quando se combina o número de pessoas que são consideradas oficialmente desempregadas com aqueles que trabalham por meio período, porque não acham um emprego de período integral, e aqueles chamados de reserva de trabalho do mercado. Estes últimos são pessoas que não estão ativamente procurando por trabalho (porque, por exemplo, estão desestimulados), mas aceitariam um emprego se estivesse disponível.

A contagem dessas três categorias resulta no número impressionante de 30 milhões de americanos ¿ 19% da força de trabalho total. De longe esse é o maior problema do país e deveria ser sua prioridade número um.


Por BOB HERBERT


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