Comentário: Um radical na Casa Branca

Por um dia, por uma hora, vamos agradecer como um país. Quase 233 anos depois de sua fundação, 144 anos depois do fim da Guerra Civil e 46 anos depois do discurso ¿I Have a Dream¿ (Eu tenho um sonho, em tradução livre) de Martin Luther King, essa multidão de imigrantes malucos chamados norte-americanos finalmente elegeu um homem negro, Barack Hussein Obama, como presidente.

The New York Times |


Olhando de novo para a posse, eu vejo um vendedor de rua afro-americano usando uma camiseta com uma impressão feita em casa que captou muito bem o momento ¿ e muito mais. Ela dizia: Missão cumprida.

Mas não podemos deixar que este seja o último molde que quebramos, deixar que essa seja a última grande missão que cumprimos. Agora que superamos a biografia, precisamos escrever uma nova história ¿ uma que irá reiniciar, reviver e revigorar os Estados Unidos. Isso, para mim, foi a essência do discurso inaugural de Obama e eu espero que nós ¿ e ele ¿ estejamos realmente dispostos a isso.

Eu realmente ouso dizer que espero que Obama de fato tenha se aproximado durante todos esses anos daquele velho radical de Chicago Bill Ayers. Eu espero que Obama realmente seja um radical em segredo.

Não um radical de direita ou esquerda, apenas um radical, porque esse é um momento radical. É um momento para mudanças radicais desde nos negócios como também em tantas outras áreas.

Não podemos mais ter sucesso como país apenas protegendo nossa reputação, adiando soluções para todo grande problema que envolva alguma dor e dizendo a nós mesmos que novas iniciativas dramáticas ¿ como as taxas de combustível, o plano de saúde nacional ou a reforma bancária ¿ são difíceis demais e fora de questão.

Portanto, minha esperança mais fervente quanto ao presidente Obama é de que ele será tão radical quanto este momento ¿ e de que ele colocará tudo na mesa.

A oportunidade de iniciativas ousadas e verdadeiros novos começos é rara em nosso sistema. Em parte por causa da inércia absoluta e paralisante que foi designada em nossa Constituição, com sua proposital separação de poderes. Em parte por causa da maneira como é o lobby financeiro, um ciclo de 24 horas de notícias e uma campanha presidencial permanente, tudo conspira para impedir grandes mudanças.

O sistema é construído para ser paralisado, disse Michael J. Sandel, teórico político da Universidade de Harvard. Em tempos normais, a energia e o dinamismo da vida norte-americana residem na economia e na sociedade, e o povo vê o governo com suspeita ou indiferença.

Mas em tempos de crise nacional, as pessoas esperam que o governo solucione seus problemas fundamentais que os afetam diretamente. E esse é o momento no qual um presidente pode fazer grandes coisas. Esses momentos são raros. Mas eles oferecem a oportunidade para um tipo de liderança que pode reformar o cenário político, e redefinir os termos da causa política para toda uma geração.

Nos anos 30, a Grande Depressão permitiu que Franklin D. Roosevelt lançasse o New Deal e redefinisse o papel do governo federal, acrescentou Sandel, enquanto nos anos 60, o assassinato de John F. Kennedy e a agitação moral do movimento dos direitos civis deixaram que Lyndon Johnson decretasse sua agenda da Great Society (Grande sociedade), que incluía a Medicare (tipo de seguro de saúde dos EUA), a Lei dos Direitos Civis e a Lei dos Direitos de Voto.

Essas presidências fizeram mais do que decretar novas leis e programas, concluiu Sandel. Eles reescreveram o contrato social e redefiniram o que significa ser um cidadão. O momento de Obama e sua presidência podem ter tamanhas consequências.

George W. Bush gastou completamente seu momento pós 11 de setembro para exigir ao país uma nova e dramática reconstrução doméstica. Isso nos deixou em buracos bem profundos. Eles ¿ e toda a amplitude de nossa consciência de estarmos no fundo deles ¿ são o que tornam esse um momento radical, pedindo por mudanças radicais nos negócios de sempre, liderados por Washington.

É por isso que este eleitor aqui espera que Obama dê uma guinada nas soluções. Mas ele também deve se lembrar de cumprir coisas básicas. George Bush deu impulsos para algumas soluções, mas frequentemente falhou no elemento mais básico da liderança ¿ uma administração competente e complementar.

O presidente Obama terá que decidir apenas quantas soluções ele poderá buscar em certo tempo: grandes acordos no direito e na reforma da imigração? Um sistema de plano de saúde nacional? Uma nova infraestrutura de energia sustentável? A nacionalização e recuperação de nosso sistema bancário? Isso será tudo de uma vez ou um de cada? Alguns agora e alguns depois? É muito cedo para dizer.

Mas eu de fato sei que: enquanto é terrível desperdiçar as chances que uma crise oferece, também é terrível desperdiçar um grande político, com um dom natural de oratória, um talento especial para unir as pessoas e a nação, particularmente jovem e pronto para intimar e servir.

Portanto, em resumo, enquanto é impossível exagerar o quão radical essa mudança é em relação ao passado, de que hoje temos um presidente negro, é igualmente impossível exagerar o quanto nosso futuro depende de uma mudança radical em relação a nosso presente. Como o próprio Obama declarou nos degraus do Capitólio: Nossa época imutável, de proteger interesses limitados e adiar decisões desagradáveis ¿ essa época com certeza já acabou.

Precisamos voltar ao trabalho em nosso país, em nosso planeta, de maneira completamente nova. Já é tarde e o projeto não poderia ser mais difícil, as apostas não poderiam ser mais altas, e o pagamento das dívidas não poderia ser maior.

Por THOMAS L. FRIEDMAN

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