Comentário: trincheiras de papel higiênico

WASHINGTON ¿ Você deve se lembrar da sétima regra de ¿Clube da Luta¿: as lutas durarão o quanto precisar. Neste descontente verão, as brigas estão se espalhando como incêndios em montanhas ¿ de uma prefeitura no Líbano, da Autoridade Palestina, até Kinshasa, no Congo. Nunca antes contamos ou divulgamos tantas mortes. Ainda assim, a arte de falar, ouvir e apurar a verdade parece mais elusiva do que nunca nessa era da internet e da TV a Cabo, perdida em um rio amargo de besteiras e informações erradas.

The New York Times |

O mundo do pós-partidarismo, pós-racismo, pós-disfunção de Clinton, que Obama deveria conduzir quando alcançou o poder sobre seu concorrente branco, com pombas gorjeando, desapareceu.

O nocaute de Hillary, nesta segunda-feira, no congo foi capa dos tablóides de Nova York. As mãos fazendo gestos agressivos, que não eram vistos desde que o seriado The Sopranos saiu da HBO, Hillary reagiu à pergunta de um estudante africano sobre a crescente influência da China na África e que, de acordo com o tradutor, queria saber: o que o Sr. Clinton pensa sobre isso?.

Na verdade, o estudante tentava perguntar o que Obama achava da questão. Mas antes que pudesse esclarecer, a secretária de Estado chamejou: espere, você quer que eu te fale o que meu marido pensa? Meu marido não é secretário de Estado, eu sou.

Essa resposta fria e competitiva mostrou que o experimento em usar os Clintons como uma equipe de diplomacia não está indo tão bem quando esperavam. Mais uma vez, como aconteceu com o sistema de saúde, o psicodrama conjugal acaba com a contribuição positiva do casal na política.

Na terça-feira, em uma reunião do Departamento de Estado, o assistente da secretária Hillary Clinton, P. J. Crowley, explicou que ela estava particularmente irritada para se sentir subestimada pelos homens da África, onde está tentando prosseguir com seu tema permanente de dar mais poder às mulheres.

Bela tentativa, P. J. Mas todos sabemos que Hillary poderia ter feito o mesmo comentário em Paris (e parecendo atordoada com seu casamento no palco internacional dificilmente ela está demonstrando o poder da mulher). Ela deve ter ficado brava que Bill comemorará seu aniversário de 63 anos em Las Vegas, com sua turma. O jornalista do Times Adam Nagourney irritou os Clintons quando noticiou que Bill foi no caro restaurante Crafsteak no MGM Grand Hotel, na noite de segunda-feira, com pessoas os influentes hollywoodianos Steve Bing e Haim Saban e seus consultores Terry McAuliffe e Paul Begala, dentre outros.

Como explicou Brad Pitt, outra regra de Clube da Luta é: quando alguém grita pare ou fica inconsciente, a briga acabou. Infelizmente, para Arlen Specter e Claire McCaskill,  essa regra não se aplica à luta sobre o sistema de saúde na terça. Os senadores estavam socando sacos de bater para pessoas na audição, bravas com tudo, desde a dívida de trilhões e os imigrantes ilegais até o limite no número de mandatos e papel higiênico.

Assim como Katy Abram disse ao Fox News após confrontar calorosamente Specter: eu sei que, daqui a alguns anos, não quero que minhas crianças venham até mim e perguntem mãe, por que você não fez nada? Por que temos que esperar na fila por papel higiênico ou qualquer outra coisa que precisamos?

Além disso, as chances aterrorizantes dos EUA do século 21 se transformar em um Estado de Guerra Fria ¿ com Sheryl Crow no controle do racionamento de papel higiênico. Também há medos ilusórios de que o governo vigie contas bancárias e reúna uma equipe de morte, como a chamou Sarah Palin, para explorar o potencial de economizar gastos com a eutanásia para velhos e debilitados.

Nesta terça, na cidade mais plácida de Portsmouth, New Hampshire, o presidente teve de explicar que não tinha a intenção de puxar o plugue das vovós. Ele disse que o espectro de uma equipe de morte partiu de uma proposta de um republicano, senador Johnny Isakson da Geórgia, que já apoiou a ajuda a pacientes da Medicare para que aprendessem sobre as opções de cuidado no fim de suas vidas.

Em uma entrevista para The Washington Post, na segunda-feira, Isakson chamou a interpretação de Palin de sua proposta de maluca. O exército de jovens das regiões rurais do país, que colocaram Obama no cargo, ainda tem de se mobilizar agora que a luta é sobre algo complicado e não, simplesmente, um carismático vendedor de esperanças. Não, eles não podem?

Ao invés de um quadro multicultural de jovens idealistas brilhantes em uma tela, vemos cenas feias de velhos e brancos descontentes, atrapalhando fóruns nos quais outras pessoas vão para entender algo. Ao invés de esperança, recebemos suásticas, ameaças de morte e camisetas com a frase Integrante Orgulhoso da Multidão.

Obama já provou ter instintos rápidos e valiosos, mas não nesse caso. Você pensaria que um político escolarizado em uma comunidade organizada e o complicado ambiente de uma campanha presidencial estariam prontos para calar esse tipo de maluquice (goste ou não, essa é a democracia em ação, porta-voz Pelosi). Ao invés disso, a confiança exagerada em sua análise unilateral de Harvard Law prevalece à espera de um debate magnânimo.

Ele sabe como chegar à oportunidade, mesmo quando outros estão na lama. Mas seu prazo pode estar acabando.

Por MAUREEN DOWD


Leia mais sobre Obama

    Leia tudo sobre: euaobamapolítica

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG