Comentário: Todos têm de fazer algo pela mudança climática

Há tantas coisas permitidas no projeto de lei de energia da Câmara para a redução de emissão de gases, que eu passei a odiá-lo. É muito fraco em suas principais áreas e muito complicado em outros. Uma taxa simples e direta faria muito mais sentido do que o instrumento de Rube Goldberg. É patético não termos conseguido fazer melhor. É espantoso que tanto teve de ser dado aos poluidores. Isso fede. É uma bagunça. E eu o detesto.

The New York Times |

Agora vamos aprová-lo no Senado e torná-lo uma lei.

Por quê? Porque, com todas as suas falhas, esse projeto é a primeira tentativa compreensiva dos americanos em acalmar as mudanças climáticas, ao precificar as emissões de carbono. Rejeitar este plano seria visto no mundo como um voto americano contra a realidade e a urgência das mudanças climáticas, além de minar as iniciativas de energia limpa no mundo todo.

Além disso, minha ousadia me diz que se o governo dos EUA colocar preços no carbono, mesmo que seja baixo, isso conduzirá os consumidores, investidores, fazendeiros, inovadores e empresários a uma nova forma de pensar. Algo que, com o tempo, fará uma grande diferença ¿ assim como as primeiras advertências de que o cigarro pode causar câncer. No dia seguinte ao aviso, ninguém mais olhou o fumo da mesma forma.

Idem se esse projeto for aprovado. De agora em diante, cada decisão de investimento feita nos EUA ¿ sobre como casas serão construídas, produtos serão fabricados ou como a eletricidade será gerada ¿ buscará pela opção mais barata de baixa emissão de carbono. E agregar esse fator em cada decisão empresarial levará a inovação e posicionamento estratégico de tecnologias limpas a um nível totalmente novo e a produção de energia eficiente a uma maior acessibilidade. Isso não é brincadeira.

Agora que o projeto está no Senado, claro que devemos tentar melhorá-lo, mas é também necessário ao menos evitar um posterior enfraquecimento. Para fazê-lo, precisamos da ajuda dos três partidos mais responsáveis pelas fraquezas atuais do plano: o Partido Republicano, o presidente Barack Obama e o We the People.

O plano não é fraco porque seus criadores, deputado Henry Waxman e Ed Markey, o queriam dessa forma. Eles tiveram de realizar os acordos que fizeram, disse Dan Becker, diretor da Campanha para um Clima Seguro, porque quase todos os republicanos da Câmara votaram contra o projeto e não fizeram nada para tentar melhorá-lo. Então, para aprová-lo, eles precisavam de todos os democratas, e isso quer dizer que tinham de torná-lo menos extremo para atrair seus votos.

O que os republicanos acham que estão fazendo? Eles não apresentaram uma estratégia diferente como o crédito de carbono. O Partido Republicano quer ser o partido de escândalos sexuais e poluidores ou querem ser parceiros na ajuda para que os EUA se tornem a próxima potência da indústria global: ET ¿ energia tecnológica? Como os republicanos se tornaram tão contra o meio-ambiente, logo quando o país está ficando verde?

Falando historicamente, os republicanos podem reivindicar o tanto de crédito para a liderança ambiental americana quanto os democratas, apontou Glenn Prickett, vice-presidente sênior da Conservação Internacional. Os dois maiores presidentes ambientais na história dos EUA foram Teddy Roosevelt, que criou nosso sistema de parque nacional, e Richard Nixon, cuja administração nos deu o Ato do Ar Limpo e a Agência de Proteção Ambiental. George Bush pai assinou em 1993 o Tratado do Rio, para preservar a biodiversidade.

Sim, esse projeto de reduzir as emissões de carbono para menos de 17% dos níveis de 2005, até 2020, não está nenhum pouco perto do que a ciência diz ser necessário para aliviar as mudanças climáticas. Mas ele também contém provisões significativas para prevenir que novas construções usem energia em excesso, para fazer nossas ferramentas gerarem a energia mais eficiente do mundo e ajudar a preservar florestas em lugares como a Amazônia.

Precisamos que os republicanos acreditem no tradicionalismo fiscal e na conservação, unindo-se à legislação no Senado. Nós queremos um projeto que transforme todo o país, não um que supere as dificuldades políticas. Eu espero que eles comecem a ouvir aos republicanos verdes como Dick Lugar, George Shultz e Arnold Schwarzenegger.

Eu também espero que nós consigamos mais de Obama. Parece muito calculado a forma como o presidente abordou esse projeto, como se não quisesse sujar suas mãos, como se estivesse pronto para cruzar os braços, mas não tanto que o fizesse ficar mal caso o projeto não fosse aprovado. Isso não é a forma de lutar esta guerra. Ele terá de mobilizar todo o país para pressionar o Senado ¿ educando americanos, com discurso atrás de discurso, sobre as oportunidade e necessidades de um projeto sério para a energia e o clima. Se ele não está pronto para correr o risco de fracassar, o fracasso será o resultado mais provável.

E, então, há o We the People. Atenção todos os jovens americanos: seu futuro climático está sendo decidido neste momento nos corredores do Capitólio, onde todo e cada lobby têm uma grande influência. Você quer fazer a diferença? Então saia do Facebook e encare alguém de frente. Consiga que milhões de pessoas no shopping center de Washington peçam pela taxa sobre o carbono. Isso chamará a atenção do Senado. Jogue duro ou, então, não jogue.



Por THOMAS L. FRIEDMAN


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