Comentário: tiros em Pequim

Foram há exatos 20 anos que eu estava na esquina noroeste da Praça da Paz Celestial e assistia o ¿Povo da China¿ abrindo fogo contra as pessoas.

The New York Times |

Era noite, os tiros urravam em nossos ouvidos e a Avenida da Paz Celestial foi inundada de sangue. Tropas do exército sem uniforme se concentraram em um canto da praça, periodicamente levantando seus rifles e atirando diversas vezes contra a multidão em que eu estava, enquanto nós corríamos para trás, aterrorizados, até que o fogo parasse.

Então a artilharia acabou e no silêncio atordoante pararíamos e olharíamos para trás. Nas centenas de metros que havia entre os soldados e nós havia crianças que foram atingidas, estavam deitadas mortas ou feridas no chão.

Alguns manifestantes gritaram insultos às tropas ou jogaram tijolos ou coquetéis Molotov que pousavam impotentes na área aberta. Mas nenhum de nós ousaria ir lá ajudar os feridos enquanto padeciam. Eu era chefe de agência do The New York Times em Pequim e eu estava escolhido de medo atrás de uma porção de outras pessoas que eu esperava que fossem absorver as baladas, o notebook em minhas mãos ficou cheio de suor de medo.

As tropas já tinham começado a disparar em uma ambulância que tentava coletar os feridos, então outros carros de emergência mantiveram distância. Finalmente, alguns salvadores duvidosos começaram a surgir ¿ pessoas dirigindo carroças.

Eram camponeses e trabalhadores que ganhavam a vida pedalando carroças de bicicleta, carregando passageiros ou cargas por Pequim. Foram eles quem vagarosamente pedalaram em direção às tropas para coletar os corpos dos mortos e feridos. Então eles correram de volta para nós, com as pernas se esforçando furiosamente, precipitando-se ao hospital mais próximo.

Um forte carroceiro tinha lágrimas caindo de seu rosto enquanto passava por mim, revelando um estudante muito ferido, para que eu pudesse fotografar ou recontar o fato. O motorista talvez não pudesse definir democracia, mas havia arriscado sua vida para tentar chegar mais perto dela.

Isso acontecia em toda Pequim. Na antiga estrada do aeroporto naquela mesma noite, caminhões cheios de tropas entravam na cidade pelo oeste. Um motorista de ônibus de meia-idade os viu e rapidamente bloqueou a estrada com o veículo.

Saia da frente, gritaram as tropas.

Eu não vou deixá-los atacar os estudantes, o motorista respondeu desafiante.

As tropas apontaram suas armas para ele e ordenaram que ele tirasse o ônibus da frente. Ao invés disso, ele puxou a chave da ignição e jogou-a no mato ao lado da estrada, para garantir que ninguém o retirasse do caminho. O homem foi preso, não sei o que ocorreu com ele.

Então, 20 anos depois, o que aconteceu com esse ousado desejo pela democracia? Por que a China ainda está politicamente congelada ¿ o regime controla a imprensa mais firmemente hoje do que o fazia nos anos 1980 ¿ mesmo que a China tenha se transformado economicamente? Por que há tão poucos manifestantes hoje?

Alguém responde que a maioria da energia foi desviada para ganhar dinheiro, em parte, porque é uma saída mais segura. Outro de meus amigos chineses explica que se ele protestasse em voz alta, seria preso, se ele protestasse em silêncio, seria uma perda de tempo. Eu devo apenas passar tempo assistindo DVD pirata, disse.

Outra resposta é que muito daqueles motoristas de carroça e de ônibus e outros em 1989 não estavam pedindo, precisamente, por uma democracia parlamentar, mas por uma vida melhor ¿ e eles a conseguiram. O Partido Comunista fizeram um trabalho extraordinariamente bom ao gerenciar a economia da China e elevar economicamente as mesmas pessoas a quem oprimem politicamente.

Viver nos padrões decolou e as pessoas em Pequim podem não ter de votar, mas eles possuem, sim, uma taxa de mortalidade que é 27% menor do que a da cidade de Nova York.

Nem tudo é perfeito: o meio-ambiente é uma catástrofe, um nacionalismo horrível está surgindo entre alguns jovens chineses e mesmo chineses apolíticos reclamam contra a corrupção e a censura na internet (incluindo o bloqueio do Twitter, do Flickr e do Hotmail). Tirando o resto, suas crianças agora têm educação incomparavelmente melhor do que as gerações anteriores ¿ melhores sobretudo do que muitas crianças nos EUA.

Quando você educa seus cidadãos e cria uma classe média, você alimenta suas aspirações pela participação política. Nesse sentido, China está seguindo o mesmo caminho que Taiwan e a Coreia do Sul nos anos 1980.

Em 1986, em Taiwan, um jovem oficial ambicioso chamado Ma Ying-jeou costumava dizer que uma democracia forte no estilo ocidental não satisfaria totalmente as pessoas de Taiwan. Ele revisou sua perspectiva e agora é a ilha com um presidente eleito democraticamente.

Alguns de meus amigos são oficiais do Partido Comunista e estão aguardando seu tempo. Nós de fora também devemos ser pragmáticos e pacientes da mesma forma, porque não há muito que possamos fazer para acelerar o processo. E, enquanto esperamos, podemos nos inspirar naqueles carroceiros de 20 anos atrás.


Por NICHOLAS D. KRISTOF


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