Comentário: seguindo a trilha de George Clooney

Eu ia começar essa coluna com um garoto de 13 anos, nascido no Chade e atingido por uma bala em seu joelho esquerdo, mas meu palpite é que você pode estar mais interessado em ouvir algo sobre outra pessoa, além do garoto, que está à margem do rio: George Clooney.

The New York Times |


Clooney voou comigo para a pequena cidade de Dogdore, próxima à fronteira com Darfur, no Sudão, para ver como a situação da região seis anos depois de ter começado o genocídio de Darfur. Clooney imaginou que, como as câmeras o seguem por toda parte, ele deveria redirecionar parte dessa atenção para pessoas mais necessitadas.

Não funcionou perfeitamente. Nenhum paparazzi apareceu. Mas, olha, fez com que você chegasse até aqui em mais uma opressiva coluna sobre Darfur, certo?

Então eu vou te dizer uma coisa. Você lê as minhas colunas sobre Darfur, escritas durante essa viagem, e eu dou as informações sobre todos os romances selvagens e acidentes de motocicleta de Clooney nesse remoto canto da África. Você vai ler aqui, muito antes de chegar à The National Enquirer, mas só se você passar com dificuldade por alguns parágrafos sobre genocídio.

O conflito de Darfur já dura mais do que a Segunda Guerra Mundial, mas esse ano pode ocorrer uma virada ¿ se o presidente Barack Obama mostrar liderança e se o mundo apoiar o esperado mandado de prisão da Corte Internacional de Justiça para o presidente do Sudão, Omar Hassan al-Bashir.

Os riscos são evidentes nessa pequena cidade de mercados, Dogdore, cuja população normal de só alguns milhares aumentou para 29 mil pessoas desesperadas e assustadas, vindas de vilarejos menores. Elas não se sentem seguras aqui, mas encontram alguma confiança em números ¿ e deixar a cidade também não é uma opção, porque voar por uma suja pista é o único jeito de evitar o banditismo das estradas.

Funcionários de agências humanitárias foram retirados de Dogdore recentemente devido à violência na área, deixando a população sozinha. Os funcionários acabaram de voltar, mas toda a cidade continua em situação crítica.

Uma das primeiras pessoas que conhecemos foi Qatri Ibrahim, uma jovem mulher que foge de seu vilarejo quando a milícia sudanesa janjaweed atacou e matou seus filhos de cinco e oito anos. Estou com medo, disse ela, severamente. Mas há outras pessoas aqui, então eu fico.

Em Darfur e na parte oriental do Chade, você pode se aproximar de qualquer grupo aleatório de pessoas e encontrar histórias de partir o coração. Clooney estava brincando com um grupo de meninos que tomava banho no rio ¿ tirando fotos digitais e mostrando-as a eles ¿ e foi quando conhecemos o garoto de 13 anos com a bala em seu joelho.

Ele é Suleiman Ahsan e estava usando uma bermuda azul ¿ a única peça de roupa que ele tem. Ele também tem uma cicatriz de faca de cortar cana em sua testa, que, assim como a bala, datam de um ataque janjaweed em seu vilarejo, há dois anos, que matou seu pai.
No ano passado, Suleiman se uniu a uma milícia e se tornou uma criança-soldado para vingar seu pai. Recrutas vem para os campos procurando meninos como eu para lutar, Suleiman nos contou. Garotos de 10 ou 12 anos têm idade suficiente.

Suleiman disse que aprendeu a atirar, mas achou a vida de soldado muito exaustiva, então desertou. Agora ele está de volta à luta para encontrar comida.

O mandado de prisão da Corte Internacional de Justiça para o presidente Bashir ¿ muito esperado para as próximas semanas ¿ faz com que a área esteja em situação particularmente crítica, devido ao medo de que Bashir possa retaliar invadindo o Chade.

O fato de que o massacre de civis patrocinado pelo Estado continua no Sudão, ano a´pos ano, dentro e fora de Darfur, é um monumento para a ineficácia da comunidade internacional. Um espasmo dessa mesma ineficácia se intrometeu nessa viagem com Clooney, que está viajando de forma não-oficial, mas é um embaixador da boa vontade das Nações Unidas.

Aparentemente preocupada com a possibilidade de Clooney fazer fortes críticas a Bashir ¿ talvez ser muito duro em relação ao genocídio? ¿ a ONU me ligou na quarta-feira para dizer que, a partir daquele exato momento, retiraria a escolta de segurança de Clooney, enquanto ele viajava por essas estradas ao longo da fronteira. Esse pareceu um ato mesquinho e de má-fé. Um homem francês que trabalha para a [organização] Save The Children foi morto nessas estradas no ano passado e a ONU pede escolta militar para seus próprios veículos aqui.

Se a ONU tem medo de proteger seus próprios embaixadores da boa vontade ¿ porque eles podem criticar o genocídio -, não surpreende que ela e a comunidade internacional tenham falhado ao proteger centenas de milhares de moradores de Darfur que não têm voz.

Ah, e agora vamos à toda a suculenta verdade sobre os romances selvagens e os acidentes de motocicleta de George Clooney. Droga, acabou meu espaço. Aguarde minha próxima coluna sobre a viagem, no domingo.

Por NICHOLAS D. KRISTOF

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