Comentário: quem vai acabar com a dor?

No início desta semana, o Federal Reserve (banco central americano) divulgou o resumo da mais recente reunião de seu comitê para o mercado ¿ o grupo que define as taxas de juros. A maioria dos repórteres focou ou na diminuição no cenário a curto prazo, ou na adoção de uma meta de inflação de 2% a longo prazo.

The New York Times |

Mas os olhos se concentraram na arrepiante passagem a seguir (sim, as coisas estão tão ruins que os resumos das reflexões de bancos centrais podem tirar o seu sono): Todos os participantes anteciparam que o desemprego deve chegar ao final de 2011 ainda substancialmente acima de sua taxa sustentável a longo prazo, mesmo sem novos choques econômicos; alguns indicaram que mais de cinco ou seis anos vão ser necessários para a economia convergir para um caminho que, a longo prazo, será caracterizado por taxas sustentáveis de crescimento e desemprego, além de um taxa de inflação apropriada.

Então as pessoas no Fed estão atormentadas pela mesma questão pela qual estou obcecado ultimamente: o que vai acabar com essa depressão? Não há dúvida de que isso também vai passar ¿ mas como? E quando?

Para avaliar o problema, você precisa saber que essa não é a recessão de seu pau. É a recessão de seu avô ou até ¿ como vou explicar depois ¿ do avô de seu avô.

A recessão de seu pai foi algo como a grave queda dos negócios de 1981 e 1982. A recessão foi, na prática, uma criação deliberada do Federal Reserve, que aumentou as taxas de juro para até 17% em um esforço para controlar a inflação descontrolada. Uma vez que o Fed decidiu que nós tínhamos sofrido demais, demonstrou piedade, e a economia rapidamente voltou ao normal.

A recessão do seu avô, por sua vez, foi algo como a Grande Depressão, que aconteceu apesar dos esforços do Fed, não por causa deles. Quando uma bolha do mercado de ações e o boom do crédito entraram em colapso, levando grande parte do sistema de bancos com eles, o Fed tentou reavivar a economia com taxas de juros baixas ¿ mas até taxas que quase não estavam acima de zero não eram baixas o suficiente para acabar com uma prolongada era de alto desemprego.

Agora estamos no meio de uma crise que beira uma misteriosa e perturbadora semelhança com o início da Depressão; as taxas de juro já estão próximas a zero e a economia ainda está no abismo. Como e quando tudo vai acabar?

Para ter certeza, a administração Obama está agindo para ajudar a economia, mas está tentando suavizar a queda, não acabar com ela. O pacote de estímulo, nas estimativas da própria administração, vão limitar o aumento do desemprego mas não vai conseguir restaurar todo o emprego. O plano de hipotecas anunciado nesta semana parece bom, no sentido de que vai ajudar muitos proprietários, mas não vai estimular um novo boom da moradia.

O que, então, vai de fato encerrar a queda?

Bem, a Grande Depressão acabou eventualmente, mas isso foi graças a uma enorme guerra, algo que preferimos não emular. A queda que seguiu a economia de bolha do Japão também acabou eventualmente, mas só depois de uma década perdida. E quando o Japão finalmente começou a experimentar um crescimento sólido, foi graças a um boom de exportação, o que foi possível devido a um crescimento vigoroso do resto do mundo ¿ uma experiência que não há como repetir quando o mundo todo está caindo.

Então será que nossa queda vai durar pra sempre? Não. Aliás, as sementes da recuperação eventual já estão sendo plantadas.

Considere a habitação, que caiu a seu mais baixo nível em 50 anos. Essa é uma má notícia a curto prazo. Significa que os gastos com construção vão cair ainda mais. Mas também significa que a oferta de casas está ficando atrás do crescimento populacional, o que eventualmente vai estimular um revival da habitação.

Ou considere a queda na venda de automóveis. De novo, uma má notícia a curto prazo. Mas, como apontou o blog de finanças Calculated Risk, com a taxa de venda atual serão necessários 27 anos para substituir o estoque de veículos que já existe. A maioria dos carros vão ser jogados no lixo antes disso, ou porque vão estar gastos ou porque se tornarão obsoletos, então estamos construindo uma demanda por carros.

A mesma história pode ser usada para falar de propriedades e bens duráveis na economia: com o tempo, a queda atual vai acabar consigo mesma, assim como aconteceu no século 19. Como disse, essa pode ser a recessão do avô do seu avô. Mas a recuperação pode demorar.

O paralelo mais próximo que consigo encontrar no século 19 é a recessão que seguiu o Pânico de 1873. Aquela recessão acabou eventualmente, mesmo sem nenhuma intervenção governamental, mas durou mais de cinco ano, e foi sucedida por outra prolongada recessão cerca de três anos depois.

Você pode entender, então, o motivo de o Fed estar tão pessimista.

Vamos deixar bem claro: as políticas de incentivo da administração Obama vão ajudar nesse período difícil ¿ especialmente se começar a pegar os bancos fracos. Mas eu ainda me pergunto: quem vai acabar com a dor?

Por PAUL KRUGMAN

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