Comentário: Quanto tempo é tempo suficiente?

Aparentemente, ninguém sabe quantos anos Mohammed Jawad tinha quando foi pego pelas forças afegãs em Cabul, há seis anos e meio, e acabou se tornando prisioneiro dos EUA. Algumas informações dizem que ele tinha 14. Outras dizem 16. O governo afegão acredita que ele tinha 12 anos.

The New York Times |

O que não está em discussão é se ele não era mais do que um adolescente, e que desde sua captura ele foi torturado, se não, passou por um inferno de coisas. A evidência contra ele foi desacreditada. Ele tentou cometer suicídio. Mas os EUA não o libertou.

O tratamento do jovem capturado foi tão rude que o um oficial do exército cheio de medalhas assinou o documento para processá-lo ¿ um homem cheio de entusiasmo para conseguir a condenação do acusado, que ele acreditava ter cometido um grave crime contra o exército dos EUA ¿ acabou saindo do caso e declarando que não poderia mais em boa consciência participar das comissões militares para julgar acusados de terrorismo.

Jawad foi acusado de lançar uma granada em um veículo ocupado por dois soldados americanos e seu intérprete afegão, em dezembro de 2002. Todos os três ocupantes do veículo foram gravemente feridos.

O coronel Darrel Vandeveld do Exército Reserva dos EUA, receptor de uma medalha de bronze, entre outras condecorações, foi nomeado promotor do caso, em 2007. Naquela época, Jawad já estava preso há quase cinco anos. Vandeveld supôs que o caso seria simples e que a condenação seria facilmente garantida.

Jawad confessou o ataque e, de acordo com as acusações contra ele, que agiu como integrante do grupo insurgente chamado Hezb-e-Islami Gulbuddin.

Enquanto Vandeveld começava um esforço diligente para reunir o que ele considerava a evidência que condenaria Jawad, o promotor começou a ficar cada vez mais angustiado e consternado. Como mais tarde um juiz militar determinou, os captores afegãos de Jawad conseguiram sua confissão torturando-o. Então o garoto foi levado por autoridades americanas a Base de Bagram, instalação militar dos EUA no Afeganistão, onde ele foi mantido antes de finalmente ser transferido para a Baía de Guantánamo, em Cuba.

Vandeveld ¿ por acaso do destino, como ele próprio colocou ¿ encontrou um resumo escrito de uma entrevista com Jawad feita por um agente especial da Divisão de Investigação Criminal do Exército. O resumo, que era parte de um registro oficial de um caso totalmente diferente em Bagram, detalhava abusos extensos que o detento dizia ter sofrido em Bagram.

Em um depoimento sob juramento, Vandeveld disse, O abuso inclui bater na cara de Jawad enquanto sua cabeça estava coberta por um capuz, como também empurrá-lo escada abaixo, encapuzado e acorrentado.

As considerações de Jawad tinham um tom de verdade. Enquanto Vandeveld falava sob juramento, o interrogador mais tarde declarou de acordo com uma testemunha da defesa... que o relato de Jawad era completamente consistente com os relatos de outros prisioneiros mantidos em Bagram na mesma época e, mais importante ainda, que doze guardas haviam admitido ter abusado de prisioneiros da maneira exata como Jawad descreveu.

Jawad também reclamou de ser maltratado em Guantánamo, dizendo que foi mudado com uma frequência absurda de cela em cela ¿ a ideia era privá-lo de dormir. Um controle do oficial da prisão mostrava que Jawad havia, de fato, sido transferido de cela 112 vezes, sem explicação, em um período de duas semanas ¿ uma média de oito mudanças por dia durante 14 dias.

Vandeveld disse em seu depoimento: Após investigações mais profundas, pudemos determinar que Jawad havia sido sujeitado a um programa de privação de sono, popularmente, chamado de programa de viajante frequente. O coronel disse que faltou palavras para expressar o pesar que sentiu quando entendeu completamente a maneira como o detento havia sido tratado por soldados americanos.

Em 25 de dezembro de 2003, Jawad tentou se matar batendo repetidamente sua cabeça contra a parede da cela.

Não há evidências críveis contra ele, e sua confissão induzida por tortura foi corretamente determinada inadmissível por um juiz militar. Mas a administração de Obama não sente que ele sofreu o suficiente. Os advogados do governo não apenas se opôs aos esforços da defesa em garantir a liberdade de Jawad, como também estão usando, como base primária de sua oposição, os frutos da confissão obtida sob tortura, que já foi considerada inaceitável ¿ sem mérito, sem valor.

Vandeveld não está mais com dever ativo e se juntou ao esforço dos advogados de defesa militares e à União Americana das Liberdades Civis para garantir a liberdade do acusado. De acordo com ele, seis anos de um verdadeiro confinamento solitário é o suficiente para alguém que não era muito mais velho que uma criança quando foi colocado na prisão.


Por BOB HERBERT


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