Comentário: perdoar e esquecer?

No último domingo, o presidente eleito Barack Obama foi questionado se procuraria investir possíveis crimes na administração de Bush. ¿Eu não acredito que ninguém esteja acima da lei¿, respondeu ele, mas ¿devemos olhar para o futuro, ao invés de ficarmos olhando para o passado¿.

The New York Times |

Desculpe-me, mas se não vamos abrir inquéritos sobre o que aconteceu durante a era Bush ¿ e quase todo mundo entendeu que a as observações de Obama são que não iremos ¿ isso quer dizer que aqueles que têm o poder estão, de fato, acima da lei, porque não enfrentam nenhuma consequência por abusarem do poder.

Vamos ser claros sobre o que estamos falando aqui. Não é apenas sobre tortura e escutas telefônicas ilegais, cujos criminosos alegam, embora de maneira não plausível, que foram atos patriotas para defender a segurança da nação.

O fato é que os abusos da administração de Bush se extenderam da política ambiental aos direitos de voto. E a maioria dos abusos envolvendo o uso de poder do governo para recompensar colegas políticos e punir inimigos políticos.

No Departamento de Justiça, por exemplo, nomeações políticas ilegais guardaram posições não políticas para norte-americanos que pensam certo ¿ termo deles, não meu ¿ e há evidências fortes de que oficiais usaram suas posições tanto para questionar a proteção dos direitos de voto da minoria como também perseguir políticos democratas.

O pedido de processo na Justiça imitou o pedido durante a ocupação no Iraque ¿ uma ocupação cujo sucesso foi supostamente essencial para a segurança da nação - nos quais os requerentes foram julgados por suas políticas, sua lealdade pessoal ao presidente Bush e, de acordo com alguns relatórios, por suas visões sobre o caso Roe v. Made, ao invés de usar suas habilidades para fazer o trabalho.

Falando no Iraque, não vamos nos esquecer que a reconstrução fracassada do país: a administração Bush gastou milhões de dólares em contratos com companhias com conexões políticas, companhias que, então, falharam na entrega. E por que eles deveriam se preocupar em fazer seus trabalhos? Qualquer oficial do governo que tentou reforçar a responsabilidade sobre Halliburton rapidamente encontraria sua carreira sabotada.

Há muito, muito mais. Pelas minhas contas, ao menos seis agências de governo importantes tiveram experiências com grandes escândalos nos últimos oito anos ¿ na maioria dos casos, os escândalos nunca foram propriamente investigados. E então tem o maior de todos os escândalos: Alguém seriamente duvida de que a administração Bush enganou deliberadamente a nação ao invadir o Iraque?

Por que, então, não deveríamos ter um inquérito oficial sobre os abusos da era Bush?

Uma das respostas que costumamos ouvir é que perseguir a verdade traria discórdia, o que exacerbaria o partidarismo. Mas se o partidarismo é tão terrível, não deveria haver alguma punição para cada aspecto de governo da politização da administração Bush?

Por outro lado, disseram-nos que não temos que insistir nos abusos do passado, porque não os repetiremos. Mas nenhuma figura importa da administração Bush, ou entre seus aliados políticos da administração, expressaram remorso por violarem a lei. O que faz alguém pensar que eles ou seus herdeiros políticos não farão tudo de novo, assim que tiverem uma chance?

Na verdade, já vimos esse filme. Durante a era Reagan, os conspiradores do escândalo político Iran-Contras violaram a Constituição em nome da segurança nacional. Mas o primeiro presidente Bush perdoou os principais mal-feitores e quando a Casa Branca finalmente mudou de mãos, a instituição política e midiática deu a Bill Clinton o mesmo conselho dado a Obama: deixe os escândalos dormindo continuarem em deitados. Sem dúvida, a segunda administração Bush escolheu certo quando os conspiradores do Iran-Constras foram deixados de lado ¿ o que não é tão surpreendente quando se sabe que, na verdade, Bush contratou alguns daqueles conspiradores.

Agora, é verdade que uma investigação séria dos abusos da era Bush fariam de Washington um lugar desconfortável, tanto por aqueles que abusaram do poder como por aqueles que agiram como apoiadores tanto como aqueles que defenderam a causa.

E essas pessoas têm muitos amigos. Mas o preço pela proteção de seu conforto seria alto: se encobríssemos os abusos dos últimos oito anos, nós garantiremos que eles aparecerão novamente.

Enquanto isso, sobre Obama: Enquanto estão em seus interesses políticos de curto prazo, perdoar e esquecer, na próxima semana ele irá jurar preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos. Esse não é um juramento condicional para ser honrado apenas quando é conveniente.

E para proteger e defender a Constituição, um presidente deve fazer mais do que ele mesmo obedecer a Constituição. Ele deve conter aqueles que a violarem. Então, Obama deveria reconsiderar sua decisão aparente em deixar a administração anterior se safar de seu crime. Consequências à parte, esta não é uma decisão que ele tem o direito de tomar.

Por PAUL KRUGMAN

Leia mais sobre Bush - Obama

    Leia tudo sobre: bush

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG